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Análise: 'Como Nossos Pais' mostra o desafio de buscar novo equilíbrio entre homens e mulheres

A inteligência maior do filme está em situar Rosa em um núcleo familiar progressista

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 06h02

O mundo pesa sobre Rosa. Sustenta a casa e cria duas filhas com um emprego que detesta e não tem tempo, ou energia, para se dedicar ao que de fato deseja, escrever peças de teatro. O marido é um ótimo sujeito, só que ausente. Ambientalista, está sempre em viagem. Rosa suspeita que ele tenha uma amante, uma antropóloga jovem. O pai de Rosa é um tipo meio hippie tardio, que a ama, mas lhe cria mais problemas que soluções. E a mãe, Clarice, tem duas notícias para dar a Rosa que lhe mudarão a vida e não necessariamente para melhor.

 

Um das muitas qualidades do roteiro de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi é concentrar-se sobre a protagonista, vivida com brio por Maria Ribeiro. Ela é o polo indiscutível das ações e nem poderia ser diferente num filme que visa discutir a questão feminina como política da contemporaneidade. 

Outra qualidade, sem a qual o filme não funcionaria, é fazer da protagonista uma personagem angustiada, atormentada mesmo, porém ativa. Em outras palavras, Rosa não se conforma e vai à luta. Precisa encontrar seu lugar no mundo e talvez esse lugar seja exatamente onde está, mas não da mesma maneira. Há uma curva dramática. Rosa, num primeiro momento, aparece apenas como reivindicativa. Em seguida, passa à ação. Sai do marasmo e movimenta sua vida e as dos que estão à sua volta. 

A história funciona à base de um descompasso, que lhe dá dinamismo. Avançamos em termos de costume, sem dúvida, mas não tanto quanto pensamos. Em certa medida, apesar da chamada revolução comportamental dos anos 1960, ainda somos machistas e patriarcais em nossas relações.

Não é gratuito que o filme tenha o mesmo título de uma canção famosa de Belchior (divina, na voz de Elis Regina): Como Nossos Pais (“Minha dor é perceber / que apesar de termos feito tudo que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”). Dói porque a revolução não se completou e, de certa forma, a maré virou nas décadas seguintes, chegando à regressão atual. 

No entanto, a inteligência maior do filme está em situar Rosa em um núcleo familiar progressista. E, mesmo nele, detectar os ranços de conservadorismo que esperamos encontrar em outras partes. A mãe (Clarisse Abujamra) é de esquerda, frequentava seminários em Cuba nos anos 1970, e guarda forte recordação desse tempo. O marido, Dado (Paulo Vilhena), quer salvar o planeta. O pai, Homero (Jorge Mautner), é um artista alternativo e vive com outra mulher. 

É nessa configuração familiar, em tese “meio de esquerda” e aberta, que Rosa se sente sitiada e luta para se reposicionar. O filme tem aquela simplicidade das obras muito depuradas. Quanto mais pensamos nele, melhor fica e vai revelando mais camadas de interpretação e sentimentos.

Num momento em que a grande política implode e produz apenas decepção e ressentimento, a atenção fica para a micropolítica. Ou seja, para a interação dos pequenos poderes do cotidiano e de como nos relacionamos com eles. O filme aponta para esse movimento sísmico da reconfiguração dos papéis familiares e dos relacionamentos. É por onde se pode avançar. E não é pouca coisa. 

 

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