John Macdougall / AFP
John Macdougall / AFP

Análise: As mulheres que não querem a condenação de todo o jogo do amor

Mesmo que o texto publicado ontem estivesse bem escrito, discutido e matizado, os torpedos que são lançados contra esse texto desde a noite passada são sem nuances

Gilles Lapouge, Correspondente

11 Janeiro 2018 | 06h01

Previsivelmente, o protesto divulgado por uma centena de mulheres francesas contra os efeitos adversos do caso levou a reações inflamadas desde a noite passada. A França está envolvida em um dos seus entretenimentos favoritos: abrir uma polêmica com gritos de indignação, fogo de artilharia, desmaios e bombas nucleares.

Mesmo que o texto publicado ontem estivesse bem escrito, discutido e matizado, os torpedos que são lançados contra esse texto desde a noite passada são sem nuances. As “cem mulheres” são apresentadas como “traidoras” da causa das mulheres. São pobres moças a soldo dos falocratas e no fundo, dos “cúmplices” deste senhor Weinstein. Isso é, claro, uma interpretação incorreta, ou melhor, uma distorção voluntária e enganosa do que o manifesto em questão realmente diz. Tais táticas são bem conhecidas: “Se você quiser afogar seu cachorro, comece por acusá-lo de ter raiva”, diz um provérbio.

Tentemos recuperar o significado do texto: ele denuncia violentamente o infame comportamento de Weinstein e de todos aqueles homens que se aproveitam do seu poder social, mundano ou simplesmente viril, para forçar as mulheres a suportar carícias, gestos, toques e estupros que são repugnantes a elas e que são aceitos sob ameaça (socos, às vezes até a morte) ou então retaliação degradante, por exemplo, de um chefe, um chefe de departamento contra a garota que recusou tais práticas baixas. Quanto a este ponto, não há ambiguidades: as “cem mulheres” concordam com os entusiastas de “Denunciar seu porco”: todas vomitam este Weinstein e seus semelhantes.

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A diferença é que as “cem mulheres” se recusam a condenar, juntamente com Weinstein e seus amigos, todas expressões do amor, todo o jogo de desejo entre homens e mulheres, a sedução, o desejo de agradar, de fazer o amor entre duas pessoas livres. Esta é a essência do documento: as “cem mulheres” se recusam a ser tratadas como “pequenas coisas fracas que precisam ser protegidas”. As mulheres têm o direito de escolher, aceitar ou não os avanços, até mesmo gestos, entendendo que os gestos mais estúpidos, vulgares e falocráticos devem ser proibidos. Da mesma forma, é proibido a alguém usar sua posição social para coagir uma mulher ameaçando prejudicar sua carreira.

Melhor: as mulheres, elas também, têm o direito de desejar, o direito de ter “o desejo de desejar”, fazer avanços, enviar sinais, abrir caminhos, (em formas felizmente mais requintadas que as dos homens). Simplesmente, elas não querem ser excluídas da festa dos corpos, desde que os limites sejam respeitados. Esses limites são a liberdade desses corpos e sua “sacralidade”. Meu corpo é minha propriedade. Ninguém tem o direito de penetrá-lo se não for convidado a fazê-lo. Ninguém tem o direito de fazer ao corpo do outro, mulher ou homem, o que esse corpo não quer que seja feito com ele. Claro, os homens inebriados com o desejo são frequentemente tão sutis quanto os crocodilos e insensíveis a essa “sacralidade”, ao livre arbítrio da mulher. Mas, precisamente, as “cem mulheres” querem um mundo em que as mulheres sejam consideradas adultas o suficiente, fortes o suficiente, para impor esses limites – exceto em alguns casos, que merecem então ser punidos com extrema severidade.

Desde esta manhã, pediram-me para reagir a esse apelo das cem mulheres contra a histeria hollywoodiana. Eu admito que hesito em fazê-lo, ou então estou “entre o temor e o tremor”. Sou “feminista” desde sempre. Mas, nos últimos anos, o movimento feminista se fragmentou e se dividiu em seitas, dissidências e igrejinhas. Sob o risco de ser levado à “fogueira”, onde uma vez foram queimadas as bruxas, eu diria que uma dessas “igrejinhas” (igrejinha é bem a palavra) é tentada pelo puritanismo, pela terrível “sociedade vitoriana”, com a exclusão da liberdade, do prazer, do jogo de corpos, da sedução, da tensão entre os corpos das mulheres e os corpos dos homens, do fim do desejo, do fim da paixão, o fim do amor e da volúpia. A ironia é a seguinte: é a obscenidade deste Weinstein que provoca tal efeito perverso: justificar, entre o feminismo, a parte a mais obscura deste último.

Então. E agora, a “fogueira”, “o temor e o tremor”.

/ TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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