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Peter Earl McCollough|The New York Times

Alice Walker e Colm Tóibín falam sobre a adaptação de suas obras para as telas

'A Cor Púrpura' e 'Brooklyn' são longas bastante elogiados pela crítica

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Philip Galanes - NEW YORK TIMES,
O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2016 | 03h00

Um dos prazeres especiais de filmes e peças baseados em grandes romances é o caminho que nos leva de volta às suas raízes literárias. Apresentar imagens e emoções no palco ou na tela, em contraste com as que formamos em nossa cabeça ao ler o original, cria uma experiência dupla.

E isso ocorre três vezes no caso de A Cor Púrpura, de Alice Walker, escritora norte-americana que completa 72 anos na terça-feira, dia 9 de fevereiro, ganhadora do prêmio Pulitzer e do National Book Award com o romance em 1983. Dois anos mais tarde, o livro - sobre o abuso e o triunfo espiritual de uma mulher negra no Sul dos EUA - foi adaptado em um filme de Steven Spielberg, estrelado por Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey.

Vinte anos depois, a história se tornou um musical premiado com o Tony, que agora foi remontado na Broadway e recebe críticas excelentes.

O aclamado escritor irlandês Colm Tóibín, de 60 anos, vive um sucesso semelhante com o romance Brooklyn, sobre uma garota irlandesa ingênua que imigra para os Estados Unidos na década de 1950. A adaptação para o cinema está sendo muito elogiada por sua sutileza tocante e colocou o romance de 2009 de Tóibín de volta nas listas de best-sellers. No Brasil, o filme estreia na quinta-feira, dia 11.

Os dois escritores se reuniram recentemente para um almoço e discutiram as vidas de suas obras, dando voz a personagens que historicamente não a tiveram.

Então, vocês vibraram quando Hollywood os procurou?

Alice Walker: De modo algum! Eu disse não. Finalmente, havia encontrado algum equilíbrio na minha vida.

E com um best-seller nas mãos.

AW: Eu tinha acabado de dizer ao meu companheiro e à minha filha: “Sou toda sua”. Aí, Steven (Spielberg) e Quincy (Jones) vieram falar comigo. Percebi que Steven havia lido atentamente o livro e como se emocionou. Todos nós queremos escrever para o mundo, não só para aqueles que são como a gente. Mas alguém como Steven - tão diferente de mim e de todo mundo da história - sentir o que eu estava oferecendo era raro. E Quincy compreendeu a cultura imediatamente. Ele disse: “Celie (vivida por Whoopi Goldberg) é o blues”. Perfeito! Eu me senti segura nas mãos deles.

Colm Tóibín: Eu estava em uma feira do livro em Nova York, um ambiente estranhamente social. Conversava com um amigo de Londres e ele me apresentou a uma neozelandesa que viera especificamente para me conhecer. Só que ela não sabia quem eu era até eu ir embora. Ela então correu atrás de mim e disse: “Meu nome é Finola Dwyer”. Sabe aquele momento em que você olha para alguém e pensa: “Eu gosto de você?”.

AW: Claro que sim.

CT: Ela fez Educação (o filme de 2009) com Carey Mulligan, que eu gostei muito. Nick Hornby escreveu o roteiro. Então perguntei: “Se eu aceitar, Nick escreveria o roteiro?”. Eu não havia pensado nisso antes, mas sabia que se Nick escrevesse ia dar certo.

Os filmes ficaram muito bons. Mas vamos voltar para a estranha recepção do filme A Cor Púrpura. Entre elogios e boa bilheteria, vieram os ataques furiosos - várias horas no programa Phil Donahue, em editoriais e em talk-shows - sobre como a história de uma mulher negra foi um ataque centrado nos homens negros. Por que, então, a senhora concordou com a adaptação da Broadway?

AW: Eu sou muito teimosa. E acredito na verdade. Então, depois de me recuperar da doença de Lyme (infecção bacteriana transmitida por carrapatos), achei que adicionar música à história poderia ser bom. Quando as pessoas se posicionam politicamente contra as coisas com veemência, a música ajuda a alcançá-las, a suavizá-las. Precisamos dessa história como um tipo de remédio.

Somos uma cultura doente e acho que a arte pode ajudar. Mas a história também é pessoal. A senhora é a oitava filha de um meeiro - não muito diferente de sua heroína.

AW: É verdade. Eu tive uma vida difícil por uma razão: tinha sete irmãos e irmãs, e nenhum deles se tornou a pessoa que deveria ter sido - por causa da pobreza, por causa do racismo, por causa da má alimentação e das drogas, por causa da guerra. Os rapazes foram para o Exército.

Eu me lembro do choque que levei quando li A Cor Púrpura. Pensei: “Meu Deus, ser meeiro era Escravidão, Parte 2”.

AW: Era uma escravidão em que você trabalhava para muitos homens brancos, não apenas um, e sem plano de saúde. Pelo menos na escravidão, os proprietários tentavam mantê-lo saudável o suficiente para trabalhar, mas os meeiros nem se preocupavam. E é importante lembrar que toda a história é atual. Na última vez em que estive na África, vi um supervisor de plantação pegando um avião portando um chicote pequeno, a caminho de uma plantação de algodão em algum lugar. Todas essas coisas existem por aí. Não há descanso.

Até que ponto a própria vida contribuiu para esses romances da maturidade? Colm, você cresceu em uma cidadezinha no interior da Irlanda, como a sua heroína. Sua mãe também era viúva.

CT: Meu pai morreu quando eu tinha 12 anos. A cidade tinha cerca de seis mil habitantes e, durante vários meses, muitos deles nos visitaram. Vinham todas as noites. Não havia telefone, então não dava para saber quem viria. Havia apenas uma batida na porta. Meu trabalho era atender e trazer as pessoas para dentro. Elas se sentavam e tomavam chá, e eu prestava atenção, como um falcão. No começo e no fim da conversa, diziam que sentiam muito, mas, de resto, a coisa era diferente - histórias comuns sobre coisas que aconteciam na cidade, sabe?

AW: Consigo até ver a cena.

CT: Uma noite, uma mulher veio e falou sobre a filha que havia ido para o Brooklyn. Mesmo hoje, ainda consigo vê-la: seu cachecol, seu chapéu. Brooklyn, Brooklyn, Brooklyn. E depois que ela saiu, alguém disse que um homem no Brooklyn havia se apaixonado pela moça - “louco por ela”, como minha mãe dizia - e que não queria deixá-la voltar para a Irlanda, a menos que se casasse com ele primeiro. Só fiquei sabendo disso. Essa história passou 40 anos na minha cabeça. E a escrevi depois de um semestre como professor em Austin, Texas, onde nunca na minha vida me senti tão longe de casa. E quando voltei, realmente senti aquilo tudo. Pensei: “Eu sei o que é um lar”. Encontrei uma maneira de contar a história porque esses sentimentos eram muito fortes.

AW: No meu caso, foram as coisas horríveis que ouvia sobre meus dois avôs quando eu tinha uns 8 ou 9 anos. Foram muito maus quando eram jovens. Estavam bem quando os conheci, décadas mais tarde. Para mim, era um enorme quebra-cabeça: o que acontece com as pessoas?

CT: A história de nossos dois países está cheia de silêncios.

Assim como seus livros. Frase de Colm: “Uma das coisas que as mulheres como Lacy não podiam fazer é dizer em voz alta o que estavam pensando”. E de Alice: “Nunca conte a ninguém além de Deus. Isso mataria a mamãe”.

CT: Como escritor, isso é muito interessante. Porque o que um romance pode fazer é mostrar a distância entre o que se diz e o que se sente. E então o leitor começa a ver: “Ai, meu Deus, ninguém fala sobre isso, mas eu sei o que estão pensando”. É muito difícil fazer isso em uma peça ou em um filme, mas, no livro, você pode mostrar as duas coisas, lado a lado, literalmente. E o drama, mais uma vez, é a distância entre o que pode ser dito e o que não deve ser mencionado.

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