Alexandra Stewart conta tudo da nouvelle vague em livro

‘Mon Bel Age', publicado recentemente na França, revive experiências com Malle, Pierre Kast, Picasso e Hemingway

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2014 | 02h00

No livro Vida de Cinema, que já chegou às livrarias, Cacá Diegues lembra o exílio em Paris, durante a ditadura militar, e faz repetidas referências a um amigo do Brasil, o cineasta Pierre Kast. Ele morreu no mesmo dia e ano de François Truffaut, e isso terminou por selar seu destino na memória do cinéfilo. Alexandra Stewart agora resgata não só a figura como o legado de Pierre Kast. Pierre quem? Embora nunca tenha conseguido se impor como grande cineasta, foi importante na eclosão da nouvelle vague. Pierre Kast filmou a liberdade amorosa, outorgando um papel decisivo às mulheres. As dele nunca foram submissas e em Le Bel Age, constituído de três esquetes, um deles adaptado de Alberto Moravia, ele revelou uma jovem canadense que faria história no cinema francês.

Pense nas musas da nouvelle vague - Jean Seberg, Jeanne Moreau, Anna Karina, Bernardette Laffont e... Alexandra Stewart. Como Jean, que era norte-americana, Alexandra vinha do Canadá anglófono e falava francês com sotaque. Ela desembarcou em Paris aos 19 anos para estudar filosofia e fazer cursos de pintura e escultura. Pierre Kast primeiro (Amores Fracassados/Le Bel Age) e Jacques Doniol-Valcroze  na sequência (L'Eau a la Bouche/Amor Livre) lhe ofereceram seus primeiros papeis, e logo ela estava filmando com Otto Preminger (Exodus). Na volta de Israel, recebeu um telefonema do produtor inglês Albert Broccoli, que lhe oferecia o papel de protagonista feminina de uma aventura de espionagem que ia começar a filmar. Alexandra achou que o papel não era para ela e indicou sua amiga Ursula Andress, que saiu do mar naquele biquíni - e com aquela adaga na cintura -, virando mito sexual em O Satânico Doutor No, ao lado de Sean Connery, o 007.

Alexandra Stewart preferiu ser uma atriz 'cabeça', mas isso não significa que não tivesse sex-appeal. Um dia cruzava a Fontaine Saint Michel quando encontrou o jovem Louis Malle. Ele lhe ofereceu um papel em Zazie no Metrô, mas ela preferiu ir à Espanha para as touradas. Tomaram um café e Alexandra o achou sedutor. Na volta, Malle a chamou para seu filme seguinte - 30 Anos Esta Noite, adaptado do romance de Drieu de La Rochelle, com Maurice Ronet. Casaram-se, tiveram uma filha, ele escreveu Black Moon para ela e até hoje Alexandra mora na casa que Malle lhe comprou, em Fontenay-sous-Aise. Não se arrepende de ter ido à Espanha. As touradas a aproximaram de Orson Welles, que a apresentou a Ernest Hemingway e a Pablo Picasso, que era amigo de Jean Cocteau. E foi assim que Alexandra Stewart foi se integrando à vida artística europeia - e mundial - no começo dos anos 1960.

Ela conta tudo num belo livro de memórias que acaba de sair na França - Mon Bel Age, da Editora L'Archipel. São 240 páginas de revelações, reflexões. Logo na abertura, Alexandra pega o metrô e desce em Saint Germain. Anda por aquelas esquinas e cafés. No Flora, tomado por turistas, lembra-se da mesa em que se sentou com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Alexandra não tem vergonha de se definir como groupie, mesmo que o termo ainda não existisse e tenha surgido para batizar os/as tietes de grandes roqueiros. Ela evoca os olhos azuis de Paul Gegauff, o grande roteirista de Claude Chabrol; lembra como era difícil entender o que dizia Chris Marker; e conta como François Truffaut era divertido, com seus jogos de palavras e o humor infantil. Tornaram-se amigos quando ela lhe disse que tinha visto 18 vezes Jules et Jim e que foi um dos filmes mais cultuados de Robert Bresson, que Truffaut adorava - Um Condenado à Morte Escapou -, que a fez tomar um avião em Montreal para vir se estabelecer em Paris. Embora já tivesse cruzado com Malle, conta que foi Volker Schlondorff - o diretor alemão - que sugeriu seu nome para 30 Anos Esta Noite. "Imaginem, logo eu que não era francesa nem burguesa... Bem, burguesa, talvez sim", diz.

São muitas histórias. Em meados dos anos 1960, a dupla de roteiristas Robert Benton/David Newman escreveu Bonnie & Clyde e enviou o roteiro para Jean-Luc Godard e François Truffaut. O segundo se interessou e o contrato quase foi assinado, mas Truffaut queria que Alexandra Stewart fosse sua Bonnie e o ator e produtor Warren Beatty não abria mão de que Faye Dunaway fizesse o papel. Interessante é que Alexandra já filmara com ele - Mickey One - sob a direção de Arthur Penn, que terminou fazendo Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas. Ela revela algumas de suas frustrações. Gostaria muito de ter filmado com Jacques Rivette e Eric Rohmer. Deste último, tornou-se amiga, através de Arielle Dombasle.  Também queria muito filmar com Jean-Luc Godard e fez com ele o episódio de Rogopag. Terminou sendo uma de suas maiores decepções.

Não tinha fala e Godard também não lhe dirigiu a palavra uma única vez. Em compensação, diz que valeu a pena esperar 25 anos para filmar com Claude Chabrol, o diretor da nouvelle vague que mais amava a vida (os demais preferiam o cinema). Chabrol lhe deu um dos maiores papeis de sua carreira em Le Sang des Autres. Lá atrás, bem no começo, foi à selva com Tarzan, em O Magnífico, e integrou o elenco internacional do argentino Leopoldo Torre-Nilsson em Homenagem à Hora da Sesta. Adorou John Huston, com quem fez Phobia. Conta que Woody Allen escreveu para ela What's New Pussycat? (O Que É Que Há, Gatinha?), inspirado numa fala de Warren Beatty, mas o produtor inglês preferiu Romy Schneider para garantir o mercado alemão. No set de Malle, tornou-se amiga de Maurice Ronet. com quem cruzou muitas vezes e filmou algumas. "Maurice era reservado, um pouco misterioso, mas uma grande alma. Se para uma mulher é difícil ser muito bonita, para um homem, como ele, devia ser mais ainda."

Principais filmes

Amores Fracassados

De 1959, o filme de Pierre Kast fala de jovens amantes, relações complicadas. O longa de estreia criou o modelo de mulher moderna e liberada.

30 Anos Esta Noite

Longa de Louis Malle, de 1963. O primeiro encontro com o pai de sua filha. A trajetória de um suicida. Ela faz ex-amante gélida.

Mickey One

De 1964, Arthur Penn dirige uma aventura americana. Warren Beatty é artista que duvida do próprio talento e da sinceridade da ligação com Alexandra.

A Noiva Estava de Preto 

Filme de François Truffaut, de 1968. Jeanne Moreau vinga-se dos homens que mataram seu marido na porta da igreja. 

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