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‘Acima das Nuvens’ mostra que drama humano pode ser tão envolvente quanto um bom suspense

Filme de Olivier Assayas tem Juliette Binoche e Kristen Stewart no elenco

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

09 Janeiro 2015 | 19h30

Acima das Nuvens, de Olivier Assayas, é um pouco como o fenômeno a que se refere. Muito bonito, fascinante, feito de camadas, e de apreensão às vezes difícil, porém recompensadora. O título original, em inglês, é Clouds of Sils Maria. Refere-se a uma rara formação de nuvens nos alpes suíços que, em determinadas condições, tomam a forma de uma gigantesca serpente entre as montanhas. 

De certa forma, esse título remete às relações humanas e sua complexidade. Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz em crise de maturidade. Seu mentor acaba de morrer. Ela conquistou fama muitos anos atrás no papel de uma jovem em ascensão, pela qual uma empresária de meia-idade se apaixona de maneira desesperada. É convidada a reencenar o texto, agora como peça, mas no papel da mais velha. O papel da jovem coube a uma estrelinha em alta, Jo-Ann, vivida por Chloë Moretz. Na dúvida em embarcar nesse desafio, Maria parte para as montanhas suíças em companhia de sua assistente, Valentina (Kristen Stewart). 

Já se vê que o filme joga duplamente com duas situações que envolvem o confronto entre gerações. Por um lado, o convite a Maria de ocupar na maturidade o papel oposto que fez sua fortuna no auge da juventude. Supõe uma tomada de consciência simbólica da passagem do tempo e da inevitável deterioração envolvida no processo, por mais teorias consolatórias que a modernidade forneça. Vivermos no culto à juventude significa que ninguém suporta envelhecer, o que induz a plásticas deformadoras e comportamentos ridículos. Por outro lado, um artista, como é Maria Enders, coloca-se na posição da verdade, em que a mentira passa a significar a negação de sua arte. Essa a tragédia do artista (e também do ser humano amadurecido): sente a passagem do tempo tanto como os outros; talvez até mais. Mas não se permite o autoengano. 

Maria é jogada nesses dois tipos de relação, que são como duas figuras em espelho – uma, a sua assistente e outra, a atriz que vai substituí-la no papel que era seu na primeira versão. Confronta-se com duas figuras da juventude que, no fundo, são uma só – a imagem tão atraente como ameaçadora da juventude. Claro está que Assayas mexe com sentimentos profundos do ser humano e que se expressam de forma artística ao longo dos tempos. Do mito de Fausto ao pop contemporâneo, brotam histórias sobre a dificuldade do ser humano em se conformar com uma trajetória espremida pelo tempo e pela dimensão limitada da sua capacidade. Há sempre o desejo de ir além e superar contingências. Daí a força do mito tão norte-americano da superação, com seu substrato de negação das limitações. 

Assayas é um europeu dotado de senso trágico. Daí o embate de Maria com seus fantasmas não se dar sob o signo da acomodação ou do otimismo forçado. Há coisas que não se acomodam, e o passar do tempo é uma delas. A rivalidade e as relações especulares são outros tantos desafios do relacionamento humano. Desse modo, entre Maria e Valentina, e entre Maria e a estrelinha Jo-Ann Ellis, criam-se espaços psicológicos difíceis de destrinchar. Nesse sistema interssubjetivo joga tanto a profundidade de um Ingmar Bergman, em Persona, como o senso de sutileza em meio ao espetáculo de A Malvada (All About Eve), o clássico de Joseph Mankiewicz. 

Cinéfilo e ex-crítico de cinema (fez parte do staff dos Cahiers du Cinéma), Assayas tece com naturalidade essas e outras referências. Isso quer dizer que estão assimiladas e entram na construção da narrativa de modo orgânico e não como citações pseudoeruditas. O filme é complexo não porque o cineasta deseje dificultar as coisas, mas porque a matéria de que trata não se presta a facilidades. O drama humano está lá. Assayas limita-se a respeitá-lo em sua complexidade. 

Há ainda outra camada a ser explorada, que é a da relação do artista europeu com o norte-americano. Maria é exemplar puro-sangue daquela elite europeia intelectualizada, depositária de uma cultura milenar. No entanto, entra como parte fraca no confronto com a (suposta) starlet descerebrada, filha da sociedade do espetáculo. Se Jo-Ann é mesmo tão ameaçadora como fora Anne Baxter para Joan Crawford em A Malvada, nem por isso deixa de reservar algumas surpresas à sofisticada Maria Enders. Aqui, também, Assayas se nega a jogar a carta fácil do estereótipo e busca o que os relacionamentos contêm de surpreendente e menos óbvio. O filme cresce com isso. E o espectador agradece que lhe respeitem a inteligência. 

No mais, não deixa de ser admirável a segurança com que Assayas muda de registro em relação a trabalhos anteriores. Em Carlos, longa cinebiografia romanceada de Illich Ramírez Sanchez, dito o Chacal, ele impõe um ritmo tão frenético que nem deixa o espectador sentir as quase seis horas de duração (no formato minissérie) ou as mais de 2h40 na versão para cinema. No filme seguinte, Depois de Maio, conta os impasses da sua geração, aquela que entra em cena após as derrotas (e também vitórias) de Maio de 1968 e precisa encontrar algum ponto de referência novo, pois os antigos já não funcionam. É um filme ao qual o adjetivo “empolgante” se acomoda muito bem. 

Ao mudar para o tom intimista de Acima das Nuvens, Assayas não perde o ritmo dos anteriores. Mostra, uma vez mais, que os fatos do espírito, se bem contados, podem ser tão envolventes quanto um bom suspense. Um thriller da alma, por assim dizer.

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