Ben King/EFE
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'A violência no cinema atrai desde o início dos tempos', diz Helen Mirren

Atriz estrela o terror 'A Maldição da Casa Winchester' aos 72 anos

Antonio Martín Guirado, EFE

05 Fevereiro 2018 | 06h00

LOS ANGELES - A atriz Helen Mirren fez praticamente de tudo em sua carreira. Agora, aos 72 anos, ela se aventura em um terror psicológico com A Maldição da Casa Winchester, um filme que traz uma mensagem contra o tráfico de armas e com o qual ela espera chegar a esse público que, como ela disse nesta entrevista à EFE, adora “as histórias de violência”.

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“Alguns dos filmes que fiz acabaram sendo um verdadeiro horror”, admite entre risos a dama britânica, “mas não acho que A Maldição da Casa Winchester, que estreou na sexta-feira, 2, nos EUA, seja um filme assustador. Para mim, é uma história de fantasmas. Creio que há uma grande diferença”.

“É claro que há momentos de sobressalto e que dão medo, mas isso faz parte do gênero, que me parece ser muito nobre. Existe uma rica tradição, especialmente no Japão, e eu queria fazer parte disso”, comentou a artista londrina, que reconhece não ser comum a presença de grandes astros neste tipo de projeto.

A Maldição da Casa Winchester, filme dirigido e escrito pelos irmãos Michael e Peter Spierig, concentra-se em Sarah Winchester, a herdeira da fortuna gerada pela carabina de repetição Winchester. Segundo a lenda, no início do século 20, ela construiu uma enorme casa nos arredores de São Francisco para aprisionar as almas das pessoas mortas com as armas fabricadas por sua família.

“Eu achei o projeto muito atraente. A casa existe e Sarah existiu. Sua vida está envolta em um halo de mistério. Ninguém sabe por que ela construiu essa casa ou por que se converteu em uma reclusa lá. Pareceu ser um material fascinante e até mesmo shakespeariano”, disse a vencedora do Oscar por A Rainha (2006). “Atuei muito em função do peso de sua culpa e da dor que ela carregava.”

“É um personagem imerso na dor, perda e tristeza. Eu gosto de apoiar-me na imaginação e ainda mais neste contexto gótico, exótico e extremo”, disse a atriz, que na vida real aderiu a uma iniciativa da organização humanitária Oxfam para controlar a venda ilegal de armas.

“É uma situação que se prolifera no mundo. Essas armas caem nas mãos dos senhores da guerra e causam danos terríveis a comunidades inteiras, são armas feitas em países como Alemanha, França, Itália, China, Rússia... Em todos esses lugares há pessoas que ganham muito dinheiro para fabricá-las. Isso me aterroriza. São pessoas com sangue nas mãos”, disse ela.

Mirren, depois de uma vida dedicada ao teatro, à televisão e a histórias profundas no cinema, deu uma guinada em sua carreira nos últimos anos ao participar de filmes como Red: Aposentados e Perigosos (2010) e Velozes e Furiosos 8 (2017), que têm pouco a ver com sua imagem refinada graças a obras como A Loucura do Rei George (1994), Assassinato em Gosford Park (2001) e A Última Estação (2009), pela qual foi indicada para um Oscar.

“Para as pessoas, sejamos honestos, a violência no cinema atrai”, admite a atriz. “Mas tem sido assim desde o início dos tempos: aí estão os antigos poemas heroicos ou as lendas nórdicas ou britânicas, histórias sobre violência, guerra e sexo. Nos últimos 3 mil anos, sempre houve narradores ao redor do fogo contando essas histórias. Violência e sexo andam de mãos dadas, ainda é o que mais vende”, disse ela.

No caso de Mirren, querer participar de tais projetos, além disso, era uma simples questão de curiosidade. “Fazer filmes mais íntimos e interpretar pequenas histórias é maravilhoso, mas eu queria experimentar esse campo de grandes espetáculos, tão desconhecidos para mim. Queria ver como eram feitas essas enormes produções e me fascina ver o artesanato que eles possuem. Adoro a sensação de entrar em um mundo diferente graças aos sets e cenários”, disse.

Mais pé no chão é o movimento #MeToo, cujo objetivo é denunciar o assédio sexual às mulheres, algo que a própria Mirren sofreu quando era jovem. Claro, ela também aplaude as recentes palavras de Catherine Deneuve, que defendeu o direito ao flerte e galanteio contra o “puritanismo” das feministas.

“É um argumento válido, acho que ela deu sua opinião da forma mais delicada, precisa e humana. Todas as vozes devem ser ouvidas, e acho que o ideal é encontrar consenso e o ponto em comum que ambos os lados defendem”, afirmou. / Tradução de Claudia Bozzo 

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