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'A Ovelha Negra' traz a história de irmãos afastados que precisam se unir para salvar seus rebanhos

Filme de Grímur Hákonarson levou prêmio no Festival de Cannes

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2016 | 04h00

Grímur Hákonarson esteve na Mostra do ano passado exibindo seu longa A Ovelha Negra, que venceu o prêmio da seção Un Certain Regard no Festival de Cannes – e estreia nesta quinta, 11. Quem presidia o júri era a atriz Isabella Rossellini, filha de dois mitos. A também atriz Ingrid Bergman, que foi homenageada dando seu rosto ao pôster do evento, e o diretor Roberto Rossellini, um dos grandes nomes do neorrealismo. Na apresentação do prêmio, Isabella destacou a simplicidade da grande arte. Disse que filmes não precisam de recursos, mas de coração.

Todo mundo tem sua fórmula, ou forma, e a de Isabella não é a única, mas vale. Grímur Hakonárson é islandês e adorou a feijoada da Mostra. E foi tomando uma caipirinha, que achou deliciosa, que conversou com o repórter. Seu filme é sobre dois irmãos criadores de ovelhas. Afastaram-se na vida, cada um seguiu seu caminho. Não se falam mais. Mas agora precisam se unir para evitar a destruição de seus rebanhos. Tudo começa quando a ovelha de um deles, de estimação, apresenta sinais de um vírus. Grímur sabe sobre o que está falando. “Meus pais moravam numa fazenda na zona rural da Islândia. Meu avô criava ovelhas. Estou familiarizado com a atividade, que sempre fez parte da minha vida, mas não é a história da minha família. É uma ficção que tentei desenvolver com um olhar de documentarista.”

Mesmo num país pequeno como a Islândia, você pode fazer documentário com equipe reduzida. Para ficção, já é preciso mais gente. “É até difícil explicar. Sempre tivemos cinema na Islândia, uma lei de financiamento que não mudou. O que mudou talvez seja a mentalidade. Há uma nova geração de diretores, a qual pertenço. Queremos fazer nossos filmes com sinceridade e simplicidade. São filmes baratos. Estamos tendo a sorte de ganhar projeção em festivais. E somos amigos – Runar Runársson, Benedikt Erlingsson, Dagur Kári. Dagur e eu somos amigos de frequentar as mesmas festas. Vivemos conversando sobre nossos projetos e filmes. Não há competição, mas camaradagem.”

Falar de ovelhas para falar de homens é uma decorrência da própria realidade da Islândia. “Nossa população de ovelhas é maior que a humana, mas, no fundo, o que me interessa é o drama familiar. Armei uma história que me parecia verdadeira, sem ser complicada. Concentração de personagens, de ambientes. O cenário é quase único. As complicações terminaram vindo durante a filmagem. Inverno, animais, não só as ovelhas, mas o cachorro. Todo dia havia um problema para resolver, mas a equipe pegava junto. Havia muita gente jovem também querendo aprender, fazer.”

Os elementos do drama são simples – a ruptura e a união familiar, o cachorro que transita entre os irmãos, um trator que terá um papel importante na evolução da narrativa. E o filme tem humor, alguma surpresa. Tem até uma cena de nu. “Fiquei surpreso em Cannes com a curiosidade pela cena. Aquilo é tão natural para a gente.” A mesma surpresa ele experimentou diante de tantas perguntas sobre as ovelhas. “Elas não são apenas um meio de produção e trabalho. Os pastores vivem isolados. As ovelhas tornam-se o seu divertimento. Elas são o nosso divertimento, enquanto povo. Há uma tradição que faz das ovelhas personagens decisivas de contos clássicos da Islândia.”

 

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