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"A Dama e o Vagabundo 2" chega ao Brasil

Agencia Estado

09 Maio 2001 | 18h 13

Jeanine Russsell tem 37 anos. Ainda nem era nascida quando A Dama e o Vagabundo estreou, nos anos 50. Garotinha, ela aprendeu a amar o clássico da Disney, mas nem nos seus sonhos mais delirantes poderia imaginar que um dia seria animadora da Disney, responsável (com Daryl Hooney) pela direção de animação de A Dama e o Vagabundo 2. O filme chega nesta quinta-feira às locadoras e às lojas de todo o País, num lançamento simultâneo de DVD e vídeo (preços médios de R$ 39,90 e R$ 21,90) da Walt Disney do Brasil, uma empresa da Columbia. Se você, adulto ou criança, gosta de A Dama e o Vagabundo - e como não gostar, se o filme é mesmo uma das animações que um espectador carrega pela vida -, vai divertir-se também com A Dama e o Vagabundo 2. Tem um subtítulo -As Aventuras de Banzé. No original é Scamp Adventure. Scamp é Banzé, o filho de Lady e do Vagabundo. Se fosse gente, seria o pestinha. É um cãozinho bonitinho, simpático, mas capeta. Só quer saber de rua. O pai resolve aplicar-lhe um corretivo. Ata Banzé na casinha, no quintal. Ele foge e vive uma movimentada aventura nas ruas. Encontra uma cadelinha linda, Angel. E um cão metido a valente, que quer dominar a cachorrada da rua, Buster. É A Dama e o Vagabundo 2, mas poderia ser o contrário. O jovem cavalheiro e a tramp, embora vagabunda seja um termo forte demais para a doçura de Angel. Quando Hooney e Jeanine foram contratados pela Disney para fazer o desenho, uma equipe já discutia o conceito do que deveria ser o novo filme. "Queríamos mesmo inverter a situação do original, transformar o Vagabundo num cão doméstico e procurar a nova Lady nas ruas", explica Jeanine. Mas esse Vagabundo doméstico teria de ter o apelo selvagem da rua, senão não haveria aventura. E assim foi surgindo Scamp, o Banzé. Esse é o conceito mais evidente, mas há outro que sempre esteve na mira dos realizadores. "Tinha de ser um filme sobre família, sobre valores familiares", diz Jeanine. O repórter vai além. De ...E O Vento Levou e O Mágico de Oz, ambos de 1939 e assinados por Victor Fleming, até ET, de Steven Spielberg, nos anos 80, o retorno para casa é, com a segunda chance, o tema clássico por excelência do cinema de Hollywood. Um não exclui o outro e, com freqüência, a segunda chance coincide com a descoberta que faz a Dorothy imortalizada por Judy Garland de que o mundo todo não vale seu lar. É o conceito por trás de A Dama e o Vagabundo 2, observa o repórter. "Absolutly", concorda Jeanine. A partir daí, a conversa flui num clima de camaradagem. Ambos falamos a mesma língua. Era esse o conceito, mas havia coisas que a equipe sabia que não poderia faltar. A cena mais famosa do primeiro filme é aquela em que o Vagabundo leva Lady à cantina. Eles dividem um caixote improvisado como mesa e trocam o primeiro beijo. Você sabe. Eles estão comendo espaguete, cada um pega um fio da pasta e, de repente, é o mesmo fio, que vai sendo consumido até que se beijam. É uma cena tão forte que, embora os personagens sejam cachorros, foi muitas vezes usada em peças publicitárias como a imagem perfeita do romance. "Que bonito, fico muito emocionada de ouvir isso", diz Jeanine ao telefone, na entrevista realizada desde a sede da Disney, em Los Angeles. Ela é extremamente afável, interessada. Fala tudo, ou quase tudo. A entrevista é acompanhada por um zeloso funcionário da Disney, que interrompe a conversa para dizer que tal pedido de informação não pode ser respondido. Assim, tudo o que se refere a custo, faturamento é vedado. "A Disney não divulga números", diz o tal funcionário. Jeanine não pode nem explicar por que, no Brasil como nos EUA, A Dama e o Vagabundo 2 está saindo diretamente em vídeo e DVD, sem passar antes no cinema. "Foi uma decisão da empresa, não tem nada a ver com a qualidade do produto", diz o funcionário. E não tem mesmo. A Dama e o Vagabundo 2 foi feito no estúdio da Disney na Austrália. "Temos estúdios nos EUA, no Japão e na Austrália", diz Jeanine. O estúdio australiano emprega cerca de 200 animadores, 40 deles trabalharam nesse projeto em tempo integral. Nessa época de computação gráfica, em que, desde A Bela e a Fera, o computador se tornou ferramenta indispensável da animação, para resolver principalmente problemas de movimento e perspectiva, não deixa de ser interessante e até surpreendente ver Jeanine dizer que o filme foi feito inteiramente à mão. "Sendo a seqüência de um clássico, queríamos mantê-la o mais próximo possível do espírito do original", explica a co-diretora. "Não faria sentido propor A Dama e o Vagabundo em versão high tech, com os mais mirabolantes efeitos que a tecnologia de ponta." Vai mais longe. Jeanine acredita que o futuro da animação não está necessariamente ligado aos computadores. Eles podem ser úteis, mas ela, que não dispensa seu computador em casa, acha que o segredo da animação é a emoção e isso computador nenhum pode fornecer. "Acho que a primazia da criação vai ser sempre humana", filosofa. Aproveita para contar o que qualquer espectador mais atento de A Dama e o Vagabundo 2 vai perceber na hora. "Estudamos detalhadamente o original; cada cena, cada cenário, cada movimento de câmera; dedicamos atenção especial ao uso da cor e aqui levamos adiante as experiências cromáticas do filme antigo." Nem na colorização usaram efeitos digitalizados. "Foi tudo à mão, mesmo", ela diz. Poderia ser um desenho à moda antiga e talvez seja, mas o importante é que A Dama e o Vagabundo 2 atinge em cheio as platéias infantis. Aliás, não só as infantis, já que, como bom produto da Disney, procura atingir a família. Jeanine não tem filhos, mas tem sobrinhos, os filhos de amigas, mostrou A Dama e o Vagabundo 2 em escolas. "O resultado foi sempre muito bom; guardo bilhetes de crianças que me encantam; elas consideram o 2 tão bom quanto o primeiro filme e isso é o maior cumprimento que poderia receber." Mas os pais, ela sabe, talvez prefiram o filme antigo, porque, afinal de contas, é um clássico e está ligado à infância deles.

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