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Último filme de Eduardo Coutinho fala de amor e morte entre os jovens

Longa foi concluído pelo cineasta João Moreira Salles

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Antonio Gonçalves Filho,
O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2016 | 04h00
Atualizado 06 Fevereiro 2016 | 16h01

Nos dias 27 e 28 de fevereiro, às 20h, na sede carioca do Instituto Moreira Salles (IMS), será lançado o DVD Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho, montado por Jordana Berg e concluído por João Moreira Salles. Dois anos após a morte do cineasta, em fevereiro de 2014, o filme inacabado de Coutinho, feito em estado de emergência durante uma crise, chega para mostrar que o prenúncio do fim da existência, paradoxalmente, impulsionou um projeto que ele considerava condenado ao fiasco: o de fixar impressões de adolescentes num documentário.

Seguidor do cinéma vérité, caracterizado pela interação entre realizador e entrevistado, Coutinho sentia que essa fórmula se esgotara pelas mesmas razões que levaram um de seus idealizadores, o pensador Edgar Morin, a declarar que realidade e verdade são por vezes irreconciliáveis. Já se disse que o gênero, chamado pelos americanos de “direct cinema”, nada mais é que uma autorrevelação disfarçada na qual o realizador – presente ou não em cena – se expressa e esconde simultaneamente. Assim, é compreensível que Coutinho desconfiasse do próprio projeto: adolescentes são mais suscetíveis a fantasiar pelo momento difícil que representa essa etapa da vida. Como, então, chegar à verdade?

É possível adotar a teoria de Nietzsche, de que a verdade depende do ponto de vista, ou radicalizar, como Tomás de Aquino, mas Coutinho parecia mais inclinado ao pragmatismo de Habermas, em que a verdade se confunde com o consenso, dependendo de um acordo intersubjetivo. Vale lembrar que a versão de Últimas Conversas montada por Jordana Berg dependeu mais do arbítrio que da fidelidade. Trabalhando com ele por mais de 20 anos, a montadora brinca que poderia ter psicografado seu filme. Ela e João Moreira Salles levaram quatro meses para concluir a primeira versão do documentário, finalmente reduzido a 85 minutos. Nele, temas como amor, dissolução do núcleo familiar, bullying, racismo, morte e transcendência surgem por indução ou espontaneamente.

Experiente como documentarista, João Moreira Salles, em entrevista a Pedro Butcher incluída no livreto que acompanha o DVD, diz que “as pessoas se enganam ao dizer que Coutinho deixava de se interessar por sua própria vida para falar do outro”. As conversas do diretor, conclui Salles, “lidam com os temas que são grandes angústias dele: a morte, a relação pai e filho”. De fato, são os assuntos predominantes no documentário, em que metade dos entrevistados é formada por afrodescendentes com pais separados e autodenominados ateus. Eles riem, cantam, choram e desenvolvem com o entrevistador uma relação de cumplicidade, como se estivessem no consultório do analista.

Bruna se define como impositiva, acha que o mundo só tem idiotas. Tayna abre seu diário em que registrou o sexo entre dois mendigos na Quinta da Boa Vista. Rafaela revela o assédio do padrasto. Breno, que apanhava no colégio, sente-se entediado. Pâmela Luana, que também sofreu bullying na escola por ser negra, gostaria de usar burca, pois só se apaixona “por trastes”. A mãe de Estephane saiu da prostituição graças à ajuda da atual companheira. São histórias comoventes, cuja conclusão fica a cargo de Luiza, uma menina de 6 anos, que, ao definir Deus, diz: “É um homem que morreu”.

ÚLTIMAS CONVERSAS

Direção: Eduardo Coutinho

Lançamento: IMS

Preço: R$ 44,90

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