Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Zurique restaura os locais por onde passaram os artistas dadaístas

Artes

Divulgação

Cultura

Dada

Zurique restaura os locais por onde passaram os artistas dadaístas

Em comemoração por um século do movimento Dada, cidade dá recado aos grupos políticos atuais que rejeitam os refugiados

0

Jamil Chade/CORRESPONDENTE / ZURIQUE,
O Estado de S. Paulo

07 Março 2016 | 06h00

«Gadji beri bimba glandridi ». Em 1916, na cidade velha de Zurique, Hugo Ball subiria em um pequeno palco para declamar um poema fonético. O êxtase místico denunciava o mundo sob a Primeira Guerra Mundial e contaminou a plateia do pequeno Cabaret Voltaire. Estava começando o movimento artístico Dada, subversivo e anti-burguês, alimentado pelo absurdo da guerra e por artistas refugiados. 

Zurique havia se transformado em um porto seguro para dezenas de exilados de toda a Europa que, diante de mais de 3 milhões de mortos apenas nos dois primeiros anos da Guerra, haviam encontrado refúgio na Suíça neutra. 

Cem anos depois, a cidade de Zurique recria a vida desse movimento, numa homenagem a artistas que desafiaram o nacionalismo europeu. Mas também num recado que hoje ecoa com uma força incômoda num continente desafiado pela imigração, com governos que fecham suas fronteiras e ondas de xenofobia contra estrangeiros. 

Durante o ano de 2016, exposições, conferências e debates serão organizados na cidade, num paradoxo que não deixou de chamar a atenção: o movimento anti-instituição é agora recuperado e promovido pela própria elite cultural do governo suíço. “Isso cria evidentemente uma certa tensão”, admitiu Stefan Zweifel, um dos comissários das exposições. 

Se uma mostra no Museu Nacional até o final deste mês é considerada como o principal evento do ano, com 150 objetos e fruto de seis anos de pesquisas, é nas ruas e locais por onde passaram os dadaístas que as comemorações ganham vida. 

A primeira etapa obrigatória do tour é a imponente estação central de trem de Zurique. A partir de 1915, uma leva de refugiados começou a desembarcar no local, fugindo da guerra na Alemanha, Áustria ou Romênia. Muitos eram trabalhadores, intelectuais, cientistas, poetas e artistas. Todos, como no caso da crise de refugiados de hoje, buscando sobreviver. 

Entre esses exilados estavam os artistas alemães Emmy Hennings e seu marido, Hugo Ball. Pela mesma estação passaram Tristan Tzara, Marcel Janco, Hans Arp e Richard Huelsenbeck. Por meses, esses artistas tentaram ganhar a vida cantando em cabarés, mudando de casa com frequência diante da falta de dinheiro. “Era uma vida muito precária”, observa a historiadora Catherine Hug e curadora do Kunsthaus de Zurique. 

LEIA MAIS: Da irreverência ácida ao conformismo da arte domesticada

Para tentar sair da instabilidade, Ball convenceu um bar no centro da cidade a emprestar a ele um salão. A promessa era de que aumentaria a venda de cervejas com noites regadas a música. O local ganhou o nome de Cabaret Voltaire, uma tentativa de evitar uma germanização excessiva do local. Historiadores contam que o cabaré não começou imediatamente com seu tom revolucionário. Ball precisava se manter e, com sua mulher como a cantora e estrela do local, competia com outros cabarés da rua. 

Mas, gradativamente, o tom subversivo ganhou vida, principalmente com o retorno de jovens que haviam estado na guerra e o cinismo diante da versão oficial dos governos sobre a defesa dos países. A 50 metros dali, vivia ainda Lenin, outro exilado e que, de seu apartamento na mesma rua, planejava a revolução russa. Não existem registros, porém, se Lenin frequentou o bar. 

O Cabaret, hoje restaurado e que faz parte do tour, sobreviveu por apenas cinco meses. Em junho de 1916, fechou suas portas. Um dos motivos foi a falta de capacidade dos intelectuais em fechar as contas a cada noite. O local e berço do movimento, na rua Spiegelgasse, passou décadas esquecido. 

Mas, em 2001, quando o prédio foi comprado por uma seguradora, jovens ativistas iniciaram uma batalha para recuperar o Cabaret. Uma ocupação do local reacendeu os espíritos e, numa votação popular em 2008, os cidadãos de Zurique disseram “sim” para que a prefeitura destinasse dinheiro público ao cabaré.  Hoje, o lugar que foi subversivo tem seu aluguel e manutenção pagos pelo estado, num valor de US$ 500 mil por ano. A cidade se justifica: “O movimento Dada é a herança cultural de Zurique mais importante do ponto de vista internacional desde a Reforma na Igreja”. 

Se o Voltaire fechou em junho de 1916, o movimento continuou por Zurique. Na Zunfthaus zur Waag foi realizado o primeiro evento Dada naquele ano fora do Cabaret. Já o Café Terrasse passou a ser o local preferido dos artistas para saber as últimas notícias da guerra. Mas, depois que optaram por apoiar uma greve dos garçons do local, foram obrigados a se mudar para o Café Odeon.

O tour termina na imponente Saal zur Kaufleuten. Foi ali que, em 9 de abril de 1919, o movimento deu adeus a Zurique, em sua última noite de eventos. “1,5 mil pessoas, que haviam atingido um estado de ebulição, lotavam o auditório”, escreveu Tristan Tzara sobre aquela despedida. Com o fim da guerra, muitos dos artistas voltaram a seus locais de origem, enquanto outros levaram o movimento para Paris, Berlim e Nova Iorque. 

Mais conteúdo sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.