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Vik Muniz dialoga com a obra de Hélio Oiticica em mostra

Fotógrafo se inspira na arte neoconcreta do carioca e cria novas formas em sua exposição 'Handmade', na Galeria Nara Roesler

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2016 | 04h00

A obra de dois artistas conversa sobre a essência da arte. Na exposição Barracão, estão agrupadas peças que formam um conjunto sucinto e potente do trabalho desenvolvido por Hélio Oiticica (1937-1980) com alguns de seus parceiros mais próximos, recorte que pretende resgatar o caráter tanto revolucionário como agregador de sua poética. Já Handmade, com trabalhos de Vik Muniz, investiga como é tênue a fronteira entre realidade e representação, entre o objeto original e sua cópia. As duas exposições estão em cartaz na Galeria Nara Roesler.

Para discutir sobre as diversas formas de arte e sua função no mundo atual, o Estado convidou César Oiticica Filho, sobrinho do artista e responsável pela gestão da obra de Hélio há 20 anos, para entrevistar Vik Muniz. Aqui, o resultado da conversa.

Na sua volta ao Brasil, em entrevista ao Globo, você disse ter mais coisas a ver com o Chacrinha do que com as obras de Hélio Oiticica. Agora, com esses novos trabalhos revisitando a raiz construtiva da arte brasileira, você acredita que esse é um encontro novo com essas referências em seu trabalho?

Este comentário se deu dentro de um contexto onde eu citava minhas influências antes da minha saída do Brasil, em 1983. Eu era um jovem pobre da periferia de São Paulo cuja realidade era tão urgente que parecia impermeável a tudo o que era abstrato. Como todo jovem, aprendi a gostar de Dalí antes de Malevich e da Rita Lee antes do John Cage; o Chacrinha veio antes do Hélio. Foi só alguns anos mais tarde, em Nova York, que eu realmente comecei a compreender a essência e o potencial da abstração, a princípio através da arte americana e europeia do pós-guerra. Mesmo assim, minha primeira mostra, em 1987, era quase toda de abstrações geométricas. Meu primeiro contato significante com a obra do Hélio Oiticica foi na exposição Brazil Projects, no MoMa, em 1988. Foi uma impressão indelével da sensibilidade do artista. Embora o artista brasileiro que mais tenha me inspirado talvez tenha sido o Waltercio Caldas, o Hélio definitivamente me mostrou a importância do olhar brasileiro sobre valores estabelecidos segundo convenções europeias e americanas.

Você acredita que os trabalhos em que usa a fotografia para dialogar com a pintura, lançando mão de diversos materiais, estão mais associados à arte pop americana?

A fotografia, nos últimos vinte anos, tem se aproximado da pintura de forma técnica, por emprestar do seu vocabulário a terminologia necessária para a sua manipulação, e de forma conceitual por se juntar à pintura no quadro das mídias que se tornaram obsoletas em relação à manutenção da história. No caso da arte pop, o artista descrevia a paisagem midiática e seus ícones; no caso atual, é a nossa realidade que está se submetendo a uma banalização de referências.

Como foi sua volta ao Brasil e qual o motivo de escolher o Rio como residência?

Continuo vivendo e trabalhando entre as duas cidades (Rio e NY) que se complementam muito, daí a escolha do Rio como base aqui no Brasil.

Além do trabalho nas artes plásticas, você se aventurou em outras praias como o cinema, ONGs e outros projetos. Como têm sido essas experiências e o que te move fazer tantas coisas?

Fazer arte com lixo, diamantes, átomos e escavadeiras de solo nada são senão desculpas para me submeter a novos processos. Cinema, empreendedorismo social, educação, curadorias são formas de engajamento com o mundo que consequentemente acabam se transformando em impulsos criativos.

O fato de a fotografia ser esse meio que acaba terceirizado, de certa forma, impulsionou, esse nesse novo trabalho, a explicitar que você também usas as próprias mãos para fazer alguma coisa neles, e por isso o nome Handmade?

No meu trabalho, sempre procurei despertar a atenção do observador para os processos que contribuem com a maneira como construímos a realidade ao nosso redor. Faço isso geralmente expondo a “gramática” instrumental de imagens familiares, produzindo manualmente a imagem, para depois encapsulá-la na ambiguidade de espaço e tempo que somente a fotografia proporciona. Comecei a me dar conta de que o meu trabalho acabava na fotografia, jamais transcendendo a superfície da imagem. O que tenho feito em obras mais recentes é justamente continuar trabalhando além do registro, sobre a imagem, criando assim ainda mais possibilidades de questionamento. Sempre trabalhei com as mãos, mas só agora o produto desse trabalho é ao mesmo tempo documentação e presença física.

Ao jogar com a percepção, questionando a verdade na arte, você também está questionando a mídia?

O papel da mídia contemporânea não é mais o de reproduzir a realidade, e sim o de criar realidades que sirvam a interesses específicos. Entendo a ética da minha profissão como artista através da criação e da disseminação de modelos epistemológicos que, por mais simples e primitivos que sejam, possam servir de base para uma construção autônoma e independente da realidade através da imagem. Estou sempre à procura de venenos para produzir vacinas.

A mídia também tem esse poder de fazer parecer verdade a sua interpretação. Como vê esse momento de desmitificação mundial da mídia através das redes sociais e novas tecnologias?

Nos modelos tradicionais de broadcasting, um eleito transmitia para uma população de receptores mudos aquilo que acreditava ser a realidade das coisas. A revolução digital atomizou a autoridade crítica e a ideia de valores qualitativos. Amenizamos a nossa dependência por ideologias dogmáticas, como a religião, o patriotismo e o bom gosto para medirmos o sucesso de nossas experiências apenas através dos números que elas proporcionam. Enquanto as nossas convicções seculares se dissolvem em um universo de opiniões, nós, antes mudos ouvintes de uma só voz, nos tornamos agora surdos falantes de uma cacofonia insuportável de percepções pessoais. Não sei mais o que é pior.

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