Sesc Videobrasil
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Videobrasil abre suas portas para a política no Sesc Pompeia

Festival reúne 70 obras de 50 artistas de várias partes do mundo, que discutem desde a violência praticada pelop Estado até as relações transculturais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2017 | 06h00

Mais de 3 mil obras inscritas por 2 mil artistas foram analisadas pelos quatro curadores da 20.ª edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, que chegaram a uma lista final de 70 obras assinadas por 50 artistas oriundos de 25 países. Desses, 15 são brasileiros. O festival, que ocupa todo o Sesc Pompeia, e não apenas a área de convivência, será aberto hoje, para convidados, e amanhã para o público. Ele é dividido em seis eixos: Cosmovisões, Ecologias, Reinvenção da Cultura, Políticas de Resistência, Histórias Invisíveis e Outros Modernismos. A mostra reúne vídeos, instalações, pinturas, esculturas, fotografias e gravuras produzidos por artistas premiados em bienais internacionais e nacionais.

O projeto expográfico do Sesc_Videobrasil, assinado pelo arquiteto André Vainer, guia o visitante pelos diversos espaços. Não há exatamente um percurso definido para ver os seis eixos da exposição. Ele pode ser escolhido pelo espectador de acordo com sua área de interesse. Essas obras revelam múltiplas visões do mundo, mas há um elemento comum que une esses trabalhos: uma tentativa de interpretar o fenômeno cultural recorrendo a uma ferramenta política, como nos vídeos do sul-africano Thando Mama, de 40 anos, que remonta imagens da história do apartheid em seu país e compara esses trágicos eventos à violência que ainda marca as relações sociais na África do Sul.

Um outro vídeo que impressiona é o da russa Sasha Litvintseva, de 28 anos, Exílio Exótico, feito há dois anos. Ela conta como se exilou na Turquia e usa como cenário uma réplica do Kremlin construída em um hotel de luxo. Sasha cruza imagens de turistas curtindo a piscina com amargas lembranças da opressão estatal em sua terra natal. Há outros vídeos poderosos na mostra. Um deles, Ashura, do turco Köken Ergun, de 41 anos, vem associado a um cenário real com tapetes para uso religioso. A videoinstalação comove. Moradores do bairro Zeynebiye, em Istambul, reunidos num salão, preparam-se para a celebração anual da Ashura (festa em que os muçulmanos xiitas lembram o martírio do neto do profeta Maomé). O espectador fica em dúvida se o choro convulsivo dos presentes é real ou encenado – e é justamente essa ambiguidade o que interessa ao realizador, oriundo do teatro.

Solange Farkas, curadora-geral do Sesc_Videobrasil, observa que os artistas brasileiros, especialmente os jovens, estão redefinindo as obras de caráter político, apontando trabalhos como os do gaúcho Rafael Pagatini (uma instalação da série Fissuras, 2016) e Jaime Lauriano, ambos nascidos em 1985. “Essa geração que nasceu já na redemocratização do país está muito interessada em investigar o período da ditadura”. Pagatini usa documentos oficiais do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) em sua instalação de canaletas de madeira que podem ser manipuladas pelo público e foram extraídas de um relatório sobre o Concílio de Jovens, evento de esquerda organizado por movimentos sociais e pela Igreja. Lauriano vai além e mostra a brutalidade do Estado nos regimes que vieram depois do militar, comparando chutes numa partida de futebol à ação da polícia contra marginais.

A curadora-geral destaca entre as obras físicas a série de tapeçarias reunidas por Alia Farid, também nascida em 1985, só que no Kuwai, a partir de fotos de mesquitas de Porto Rico e da República Dominicana. A confusão de signos e a babélica relação transcultural em tempos de migrações marcam essa obra. Em suportes também tradicionais destacam-se duas grandes pinturas de Ana Elisa Egreja, em que ela reproduz os cômodos da casa onde seus avós moraram, e as paisagens hiperrealistas do cuiabano Miguel Penha.

 

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