Divulgação
Divulgação

Exposição faz tributo aos 80 anos do grupo Seibi no Brasil

Primeira associação de pintores japoneses no país teve Mabe, Fukushima e Takaoka

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

17 Novembro 2015 | 05h00

Os primeiros imigrantes japoneses desembarcaram no Brasil em 1908. Em 1935, a colônia já contabilizava mais de 100 mil espalhados pelo País, especialmente no interior de São Paulo. Era, portanto, natural que os artistas oriundos do Japão se reunissem em torno de uma associação, o que aconteceu há 80 anos com a criação do histórico grupo Seibi, capitaneado pelo pintor Tomoo Handa (1906-1996). Ele, Takaoka (1909-1978) e Tamaki (1916-1979) integraram o núcleo básico do Seibi até o começo da Segunda Guerra, quando o governo privou os japoneses residentes no Brasil do direito de reunião, por ter o Japão se aliado aos alemães. Após a guerra, o Seibi renasceu com a adesão de quatro artistas depois consagrados: Manabu Mabe (1924-1997), Tikashi Fukushima (1920-2001), Tomie Ohtake (1913-2014) e Wakabayashi, hoje com 84 anos. Todos estão reunidos na exposição Sete do Seibi, que a Galeria Proarte abre hoje, às 19 h, para convidados, com curadoria do crítico Enock Sacramento.

A partir da exposição do Seibi, outras mostras nessa linha devem ocupar a galeria. Em 2016, adianta Sacramento, será a vez do grupo Santa Helena, outra associação histórica formada na mesma época e que revelou pintores como Volpi, Bonadei e Pennacchi. O grupo teve para esses pintores de origem italiana a mesma importância do Seibi como elemento de inserção da colônia japonesa na sociedade brasileira. Alguns japoneses residentes no Rio, inclusive, se integraram ao Núcleo Bernardelli, que projetou Pancetti e Campofiorito.

As duas fases distintas do Seibi estão presentes na atual mostra: a primeira, entre 1935 e a Segunda Guerra, e a segunda, que começa em 1947 e vai até o começo dos anos 1970. Por essa época, integrantes do grupo já tinham carreiras autônomas, como Tomie Ohtake, prestigiada pelos críticos. Todos os sete pintores selecionados pelo curador estão presentes com seis telas cada um, algumas raras, como uma densa paisagem pintada em Kobe, em 1949, por Wakabayashi, ou uma vista da rua (atual avenida) São Luiz, em 1953, por Tomie Ohtake, justamente o ano em que, com os filhos crescidos, viu uma pintura do conterrâneo Keisuke Sugano e decidiu virar pintora, aos 40 anos.

Outras pinturas chamam a atenção por marcar um momento de ruptura na vida desses artistas, como Mabe, que começou figurativo, pintando paisagens, e aderiu à abstração quatro anos após a realização da 1.ª Bienal de São Paulo (1951), considerada um marco, tanto pelo advento da arte abstrata no Brasil como por tirar o país de seu provinciano isolacionismo.

Sacramento observa que Mabe, um pintor não exatamente intelectual, trabalhava nos cafezais de Lins, mas já tinha participado da 2ª Bienal de São Paulo (1953) quando pintou a tela Vibração Momentânea (1955), reproduzida nesta página. “Ele afirmava que essa foi sua primeira tela abstrata”, lembra o crítico. “O pai dele, Soichi, só permitia que Mabe pintasse aos domingos e nos dias de chuva, pois o cafezal exigia seu trabalho nos outros dias”, conta o curador da exposição.

Muitos artistas japoneses que fixaram residência no Brasil tiveram igualmente experiências como lavradores e agricultores. Eles se ajudavam mutuamente, lembra o único remanescente vivo do grupo, Kazuo Wakabayashi. Nascido em Kobe, ele emigrou para o Brasil em 1961, sendo bem recebido por pintores da colônia. “Os pintores japoneses vendiam seus trabalhos muito barato e a colônia comprava para ajudar os artistas”, conta Wakabayashi. “Só depois que Mabe ganhou o prêmio na Bienal (o de melhor pintor nacional, em 1959) a situação melhorou”. O pintor lembra que Takaoka e Tamaki, ambos ex-lavradores, chegaram a viajar a pé para o Rio a fim de estudar com o polonês Bruno Lechowski (1887-1941). “Eles ficaram numa pensão barata e não tinham o que comer”. Salvou-os um bom samaritano que indicou para a dupla um container de madeira (que trazia carros importados) no porto. Logo a caixa virou moradia e ateliê improvisado, livrando-os do aluguel.

Vale lembrar que Takaoka foi professor de pintura de artistas hoje reconhecidos como Amélia Toledo, Geraldo de Barros, Jorge Mori e Wega Nery. Wakabayashi destaca o diálogo entre artistas japoneses e brasileiros ao lembrar que Fukushima, que mantinha uma oficina de molduras no largo Guanabara (onde hoje fica a estação Paraíso do metrô), fez dela um ponto de encontro de pintores como Arcangelo Ianelli, Alzira e Armando Pecorari, depois integrantes, como Fukushima, do grupo Guanabara, criado em 1950 (e extinto logo depois da última mostra, em 1959).

“Os nipônicos e seus descendentes trouxeram para a arte brasileira uma contribuição inestimável, a fusão da cultura japonesa com a brasileira”, observa o curador da mostra. Há, de fato, uma tentativa de pintar a paisagem com a cor local, mas luz dos trópicos (cruel) não ajuda. Exemplo disso, na mostra, são as pinturas do fundador do Seibi, Tomoo Handa, de um cromatismo difuso que se aproxima das paisagens ‘cegas’ do venezuelano Reverón. Em contrapartida, há a exuberância das cores de Wakabayashi. Em suas telas, a fusão dos elementos figurativos orientais com o cromatismo brasileiro é uma prova desse diálogo transcultural.

SETE DO SEIBI

Proarte Galeria. Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.644, tel. 3085-7488. Abre hoje, 19h (convidados). 2ª/6ª, 10h/20h. Sáb., 10 h/ 16 h. Até 3/12.

Mais conteúdo sobre:
artes visuai Grupo Seibi

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.