Um passarinho pronto para decolar

Com o belo e confessional CD e show Sweet Jardim, a compositora Tiê demonstra ter potencial para virar uma estrela pop

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

25 Março 2009 | 00h00

Vendo Tiê, com sua elegância clássica de musa pop, e observando o comportamento de seu público dá para arriscar um palpite: vem aí mais uma estrela da canção brasileira. Potencial para isso não lhe falta nem no belo álbum de estreia, Sweet Jardim, nem no show de lançamento, que tem última sessão hoje no Studio SP, com entrada franca. Ouça trecho de Passarinho É muito raro ver naquela casa abafada, barulhenta e enfumaçada uma plateia tão atenta e silenciosa para ouvir suas delicadas canções, como ocorreu na quarta-feira passada, dia de seu aniversário de 29 anos. Tiê costuma distribuir cópias do encarte do CD com as letras das canções para o público acompanhar, mas notou-se que muitas pessoas, acomodadas sentadas no chão, nem precisavam do suporte impresso, já sabiam bem o que iam ouvir. Como no CD, o show é despojado: apenas ela se alternando entre o violão e o piano, e o guitarrista Plinio Profeta, produtor do álbum, de acompanhante, igualmente sutil. É uma atitude um tanto corajosa de Tiê fazer se impor com a voz pequena, delicada, em tom quase sussurrado, num ambiente noturno, onde se bebe, se conversa e se fuma muito. Conseguiu até certa altura, fazer-se ouvida em relativo silêncio, com tempo de conquistar os interessados. Tiê rima com Tetê e ambas têm a referência das aves, mas as semelhanças param aí. A mato-grossense Tetê ficou conhecida como a cantora que tinha "pássaros na garganta". Tiê tem nome de ave e explorou esse tema na linda canção Passarinho, faixa do CD, que já integrava seu EP anterior e abre o show. Chá Verde, porém, parece ser a mais autobiográfica de um disco intimista, minimalista, recheado de canções com letras confessionais. Mergulhar na própria intimidade facilitou para ela encontrar seu estilo e a melhor maneira de se expressar: "Adoro bossa nova e sambas antigos, mas não gravaria um disco assim. Tinha muita dificuldade em escolher repertório, então era uma cantora infeliz", diz Tiê, sobre a opção de cantar só as próprias composições. "Em vez de contar histórias aleatórias, o único jeito que eu descobri que poderia compor seria contando histórias minhas." Amor é um dos temas recorrentes nas letras. Em esquema de colaboração solidária - muito significativa nestes tempos de crise e sem apoio de gravadoras - no CD, ela conta com participação de gente como Toquinho, Tatá Aeroplano, Tulipa Ruiz, Nana Rizinni, Gianni Dias. O acento folk de suas canções (algumas com versos em inglês e francês) coincide com uma onda de grupos e cantores que vêm investindo nesse estilo. No entanto, Tiê diz que o que procurou nessa onda foi a sonoridade "mais simples". "Meu EP tinha 18 violinos virtuais, quando fui fazer ao vivo, quebrei as pernas. Ou eu tinha dinheiro para ter uma orquestra ou não fazia o show, porque não conseguiria reproduzir o EP no palco", diz. "Dizem que meu CD é folk, mas não é: é violão e voz. Tem uma faixa que puxa mais para o country, mas outras nove não são." Em abril ela leva seu som para o Favela Chic de Paris (dia 21) e Londres (22). É a cantora-passarinho em promissor voo internacional. Serviço Tiê. Studio SP (450 lug.). Rua Augusta, 591, tel. 3129-7040. Hoje, às 22 horas. Grátis

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