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Um museu cambojano criado por artistas norte-coreanos

O novo Angkor Panorama, aberto em dezembro, é o mais ambicioso projeto estrangeiro realizado no Camboja

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Amy Qin,
NYT

04 Fevereiro 2016 | 18h34

Siem Reap, Camboja – O mural gigante no hall de entrada mostrando um rosto de pedra sorrindo é apenas um aperitivo da grandiosidade do novo Museu Angkor Panorama. Ali dentro, um cenário pintado de 360 graus cobre uma área do tamanho de quase quatro quadras de basquete. Mais de 45 mil imagens povoam este ciclorama, uma representação da história de Angkor do século 12.

O museu, que abriu em dezembro, é uma homenagem arrebatadora ao que os historiadores chamam de uma das maiores cidades do mundo entre os séculos 9 e 15 e a capital do império Khmer. Mas quase tudo no prédio – o dinheiro, o conceito, o projeto e os artistas – não veio do Camboja, mas da Coreia do Norte, ou melhor, do Mansudae, o maior estúdio de arte daquele país.

 

Em um momento em que o mundo foca principalmente na liderança intempestiva do país e em suas capacidades nucleares, o trabalho do estúdio está calmamente abrindo seu caminho além das fronteiras de seu reino eremita. Nos últimos anos, monumentos e esculturas feitos pelos artistas do Mansudae, mestres modernos do realismo socialista, apareceram na África, no Oriente Médio, no sul da Ásia e mesmo na Alemanha.

O Museu Angkor Panorama é o projeto estrangeiro mais ambicioso do estúdio. Os 63 artistas que vieram da Coreia do Norte levaram quatro meses para pintar o ciclorama.

“O Mansudae tem grande talento e uma ótima reputação em trabalhos de arte, pintura e construção”, afirma Yit Chandaroat, diretor interino de museus da Apsara, a agência governamental responsável por administrar o complexo de Angkor, explicando por que o Camboja os escolheu como parceiros.

Fundado em 1959 em Pyongyang, o Mansudae Art Studio é uma das maiores fábricas de arte do mundo. Emprega cerca de quatro mil pessoas, incluindo de 800 a 900 dos mais talentosos artistas da Coreia do Norte, segundo Pier Luigi Cecioni, seu representante nos Estados Unidos e na Europa.

O estúdio produz trabalhos variados, incluindo a maior parte da arte e das esculturas de propaganda espalhadas pela Coreia do Norte. Dizem que seus artistas são os únicos a ter permissão para retratar a família governante, os Kims. Em 1972, construíram uma estátua de 20 metros de Kim Il Sung, o líder fundador da Coreia do Norte e avô do atual, em uma colina de Pyongyang, a capital. Uma segunda, mais ou menos do mesmo tamanho, de Kim Jong Il, filho e sucessor de Kim Il Sung, foi colocada ao lado da original em 2012 depois de sua morte.

Na década de 90, o Mansudae também começou a aceitar projetos fora do país. Governos do sul da Ásia e da África encomendaram a seus artistas grandes empreitadas a preços baixos, entre elas o Monumento pelo Renascimento Africano, em Dacar, no Senegal, e a Fonte dos Contos de Fadas, em Frankfurt, na Alemanha. O estúdio também mantém uma galeria no Distrito Artístico 798, em Pequim, em frente à Galeria Pace e à Fundação Faurschou.

A divisão de projetos no exterior se aproximou do Conselho para o Desenvolvimento do Camboja, a equipe de investimentos do governo, pela primeira vez com uma proposta de construir um museu em Siem Reap vários anos atrás, conta Yit Chandaroat.

Historicamente, o Camboja e a Coreia do Norte mantêm laços fortes, baseados principalmente no relacionamento entre Kim Il Sung e o Rei Norodom Sihanouk, do Camboja, morto em 2012.

Nos anos 70, o líder norte-coreano deu a Sihanouk, que uma vez se referiu a Kim como “mais que um amigo, mais que um irmão”, um palácio perto de Pyongyang. Durante seus muitos anos no exílio, o monarca cambojano passou vários meses por ano na Coreia do Norte e até escreveu e dirigiu uma série de filmes estrelando atores do país.

Hoje, a Coreia do Norte administra vários restaurantes no Camboja, parte de uma crescente franquia de comércios alimentícios no exterior que, afirmam os especialistas, é uma fonte importante de lucro para um governo que luta financeiramente em Pyongyang.

Ao contrário dos restaurantes, no entanto, os especialistas acreditam que o Mansudae, embora gerenciado pelo Estado, tem uma certa autonomia, inclusive em decisões que envolvem questões estrangeiras.

“Não vejo o museu como uma tentativa discreta de projetar poder”, diz Nicholas Bonner, fundador da galeria Koryo Studio, de Pequim, que trabalhou no Mansudae por mais de 20 anos. “O Mansudae é um estúdio imenso, e eles precisam continuar trabalhando para trazer lucros de fora para o país.”

O museu de Angkor difere dos projetos anteriores do Mansudae de um modo significativo. De acordo com funcionários e especialistas, é o primeiro em que o estúdio, que normalmente trabalha por contrato, investiu muito dinheiro.

“Não parece se encaixar no aspecto lucrativo de que normalmente ouvimos falar em relação ao Mansudae. Mas, de novo, sempre há algo acontecendo nos bastidores quando se trata da Coreia do Norte”, afirma Adam Cathcart, professor da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

Nem o Mansudae nem a embaixada da Coreia do Norte na capital do Camboja, Phnom Penh, responderam a pedidos de entrevistas feitos por e-mail, telefone e por meio dos funcionários do museu cambojano.

Long Kosal, assessor da Apsara, diz que o museu é parte de um plano de longo prazo para diversificar as atrações do complexo de Angkor e minimizar o impacto de um número cada vez maior de turistas nos templos. Mais de 2,5 milhões de estrangeiros visitaram o complexo no ano passado, de cerca de 400 mil no ano 2000, conta Long. Ele explica que espera um aumento de turistas para o museu assim que a cabine central de venda de ingressos do complexo for movida para um prédio ao lado do museu, que formalmente não faz parte do complexo. A entrada para o ciclorama custa 15 dólares para turistas estrangeiros.

Enquanto isso, os funcionários do museu dizem que estão recebendo apenas cerca de 20 visitantes por dia. Em uma tarde recente, não havia quase ninguém por ali. Quando uma pessoa chegou ao salão principal, um trabalhador correu para acender as luzes, explicando que a equipe foi instruída a deixar as luzes e o ar condicionado no mínimo para economizar.

“É muito quente e úmido aqui, não é fresco como em casa”, afirmou em inglês fluente uma jovem norte-coreana que trabalha no café do museu. “Está difícil se acostumar.”

 

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