Um incêndio sem chamas ameaça Hollywood

Greve está marcada para daqui a cinco dias. Motivos? Os de sempre - relacionados a mídias como DVD, TV e internet

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Cinema americano em greve? Há quem acredite que isso jamais acontecerá. Mas a verdade é que pode, perfeitamente, acontecer. E daqui a dez dias. Foram exatamente com essas palavras que iniciei uma matéria, neste caderno, em 21 de abril de 2001. Só não as coloquei agora entre aspas porque o prazo, desta feita, caiu pela metade: a próxima greve dos roteiristas de Hollywood (ou escritores, ''''writers'''', como genericamente são chamados e sindicalizados) está marcada para daqui a cinco dias. Motivos? Os de sempre. Basicamente, maior participação nos lucros obtidos na comercialização de outras mídias, como TV, DVD e internet. À frente do movimento, como da vez anterior, o Writers Guild of America, o sindicato dos que escrevem roteiros, esquetes, piadas e correlatos para filmes e programas de televisão. Que, aliás, são dois: um na Costa Oeste (presidido por Patric Verrone, que fez carreira entre os Muppets e os Simpsons), outro na Costa Leste (presidido por Chris Alberts). Ambos afinados como há muito não andavam. Azar dos produtores. Se apenas os incêndios que há uma semana devastam a Califórnia já interromperam as externas de algumas telesséries (entre as quais, 24 Horas, Cold Case e Big Shots), imagine os estragos complementares que uma nova greve de escritores poderá causar à produção de filmes, shows e enlatados. Afinal de contas, a primeira matéria-prima de um filme e uma telessérie continua sendo o script. Há um contrato em vigor entre o WGA e a associação dos produtores de filmes e programas de TV (Alliance of Motion Pictures and Television Producers), que expira na próxima quarta-feira. Na última semana de agosto, os dois lados prometeram acertar os ponteiros até 19 de setembro. Um mês depois, nem um dia a mais, nem um dia a menos, uma reunião do WGA, com recorde de comparecimento, pôs a hipótese de greve na agulha, agendando o disparo para o Halloween. O confronto era inevitável. Os escritores reivindicam um contrato de três anos com um aumento nos adicionais que passaram a receber, depois da greve de 2001, sobre a venda de filmes e shows televisivos lançados em DVD. ''''Precisamos de um contrato que nos assegure uma participação condizente com o sucesso financeiro proporcionado pela globalização'''', sumariou Patric Verrone, à frente do WGA desde 2005. Os produtores propuseram a substituição dos adicionais por uma bonificação a ser paga só depois que os filmes e os programas de TV começassem a dar lucro. Alegam os estúdios que a economia cinematográfica atravessa uma crise sem precedentes. Ficou muito mais caro produzir e lançar um filme com imodestas ambições comerciais. Não bastasse, com o desvio crescente de público para outras modalidades de entretenimento (a indústria de videogames já é mais próspera que a de filmes), as bilheterias foram encolhendo. Só com as vendas de DVDs, os custos escorchantes de produção e marketing de um filme costumam ser ressarcidos. Os escritores sabem que tudo isso é verdade, mas não querem perder o maná das novas tecnologias e sentiram-se humilhados pela contraproposta da bonificação, em detrimento dos privilégios já adquiridos. ''''Nós somos os negros da indústria cinematográfica'''', queixou-se há décadas o roteirista Lester Cole, que, com mais nove escritores, fundara, em 1933, o Screen Writers Guild, embrião do WGA. Por essa e outras, Cole acabaria entre os ''''Dez de Hollywood'''' engaiolados pelo macarthismo. Hoje talvez Cole trocasse de parâmetro, optando pelos ETs. Quem vive da palavra escrita não tem por que sentir-se integrado a uma terra onde a maioria só lê com atenção contratos, créditos de filmes, extratos bancários e testamentos. Tratados a papinha no começo do cinema sonoro, que a seus préstimos recorreu no desespero, os escritores acabaram virando uma escória de luxo, proibidos de pisar no sets de filmagem, obrigados a engolir calados a intromissão em seus scripts e a ficar de plantão para atender a alterações de última hora impostas por diretores, produtores, e até mesmo atores de elevado cacife e sideral vaidade. Vocês viram o que aconteceu com Burton Fink. E com Joe Gillis, o personagem de William Holden em O Crepúsculo dos Deuses, que acabou boiando, sem vida, numa piscina do Hollywood Boulevard. Uma trégua é possível. Provisória, naturalmente. Os escritores podem suspender a greve, trabalhar alguns meses sem contrato, e voltar à carga, supostamente com mais força, no final de junho, que é quando expira o contrato do sindicato dos atores, o Screen Actors Guild, bem maior, bem mais poderoso, e simpático à causa dos seus ''''colegas intelectuais''''. No sindicato dos diretores (Directors Guild of America) o WGA não confia. Em 2004, o DGA fechou seu contrato com a AMPTP oito meses antes do prazo previsto, deixando os escritores com a broxa na mão. Os diretores conseguiram parte do que pretendiam (contribuição substancial dos produtores a seus planos de saúde), mas tiveram de abrir mão de outras aspirações, como a ampliação de direitos sobre a venda de DVDs. O atual contrato do DGA termina na mesma data do dos atores, mas não seria surpresa se seu atual presidente, o cineasta Michael Apted, e o diretor executivo Jay Roth acertassem as diferenças da categoria com os produtores bem antes de 30 de junho. Em 2001, os atores ameaçaram cruzar os braços, mas os estúdios se safaram apressando a confecção de filmes e telesséries, nos primeiros meses do ano. A situação agora é mais complicada. O SAG está negociando oito contratos separados, que também cobrem comerciais e trabalhos interativos. Apesar da crise, os estúdios estão mais bem amparados do que na grande greve de 1988 (22 semanas de paralisação e um prejuízo de US$ 500 milhões), pois agora pertencem a conglomerados com as arcas cheias de dólares. Deram mostras disso um ano atrás, quando Peter Jackson e outros contratados pela produção de Halo recusaram-se a reduzir seus salários. Em questão de horas, a Fox e a Universal deixaram o projeto à deriva. Esbanjando prosápia, J. Nicholas Counter III, há 25 anos presidente e negociador da AMPTP, aventou promover um lockout, caso nenhum acordo seja fechado até a próxima quinta-feira. Desistiu da idéia ao dar-se conta de que a barração de eletricistas, maquiadores e outros técnicos à porta dos estúdios poderia afetar a imagem dos produtores. Counter nada tem a oferecer, a não ser um contrato leonino. ''''Impossível encontrar fórmulas de ajuste a sistemas ainda em fluxo, sem custos nem retornos previsíveis'''', justifica-se. Em 1988, David Letterman abriu o seu Late Show alertando os telespectadores e a platéia que não tinha o que fazer, pois os profissionais que escreviam suas piadas estavam em greve. ''''Vou aproveitar pra fazer a barba'''', anunciou, com a maior cara-de-pau, chamando ao palco um barbeiro. ''''Deve durar uns 55 minutos, senhoras e senhores. Não mais do que 55 minutos!'''' E a barba foi feita, com a devida calma; tanto que durou 55 minutos. Johnny Carson, que na época comandava o talk show de maior audiência do país, passou a encher o tempo improvisando comentários jocosos sobre fotos trazidas (e tiradas) por seu parceiro Ed McMahon. Como em 1988, os talk shows serão os mais afetados pela greve marcada para o dia 1º. Sobretudo o Late Show (CBS), o Daily Show e The Colbert Report (Comedy Central), construídos em cima do noticiário do dia. Quem irá municiar as gozações e os monólogos de David Letterman, Jon Stewart e Stephen Colbert? Embora eles próprios produzam parte de seus scripts e saibam improvisar, o sindicato só os autoriza a aproveitar material pessoal escrito antes da deflagração da greve. Numa emergência, o jeito será apelar para reprises, artifício que os fãs das telenovelas vespertinas, por exemplo, não toleram. Pânico nos bastidores da CBS: The Young and the Restless, assistida diariamente por 6 milhões de telespectadores, conseguiu adiantar apenas um mês de gravações. Esgotado o estoque de novos capítulos, deverá, como as demais soap operas, ser substituída por atrações telejornalísticas e esportivas. Programas de esporte, concertos e shows produzidos na Inglaterra e Austrália poderão pintar nas telinhas americanas, caso a greve persista por muito tempo. A NBC estuda a possibilidade de pôr no ar a versão inglesa do seriado The Office. Dependendo do início e da duração da greve, alguns programas nada sofrerão. Os aficionados de Os Simpsons podem ficar tranqüilos. Assim como os de séries longas resguardadas por um esquema cauteloso de produção, como Law & Order: SVU e House. Para evitar surpresas desagradáveis, a NBC acelerou a conclusão de 30 novos episódios de Heroes. Não são boas as notícias para o público cativo de Lost: sua produção parece irremediavelmente comprometida. A maioria dos reality shows, infelizmente, está a salvo, pois seus roteiristas não são sindicalizados. E ai deles se cismarem de entrar para o WGA. Doze roteiristas de America''''s Next Top Model insistiram nessa idéia, atraídos pela pensão e seguro-saúde assegurados pelo sindicato, e foram recentemente demitidos pelos produtores do programa. Os cinéfilos podem ficar sossegados. Se curta a paralisação, seus efeitos serão quase imperceptíveis. Os estúdios operam com bastante folga de tempo e há muito acumulam pilhas e pilhas de scripts. Mas algumas produções em andamento deverão sentir o tranco. Embora iniciadas com a greve já no forno, não havia como nem porquê apressar o ritmo dos trabalhos. Correr com uma produção é roubada na certa. No cinemão, a pressa sempre foi inimiga da perfeição.

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