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Trienal de Aichi, no Japão, abre as portas para brasileiros

Com curadoria do fotógrafo e antropólogo Minato Chihiro, mostra tem cinco artistas do Brasil, entre eles Laura Lima e João Modé

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 18h00

Aichi - Duas mostras internacionais simultâneas colocam o Japão na rota de curadores, artistas, galeristas e colecionadores que normalmente se pautam apenas pela Bienal de Veneza ou a Documenta de Kassel: a Trienal de Aichi, que tem como título Homo Faber: a Rainbow Caravan, e a megaexposição Development, que inaugura um evento organizado pelo colecionador e empresário Yasuharu Oshikawa, o Okayama Art Summit, aberto até 27 de novembro.

A Trienal de Aichi é um exemplo de organização e prova da competência do curador Minato Chihiro, fotógrafo e responsável pelo pavilhão japonês na Bienal de Veneza (2007), cuja direção artística conseguiu atrair para o Japão mais de 20 artistas estrangeiros que nunca participaram de exposições no país asiático. A mostra, aberta em agosto, reúne 119 artistas de 38 países, entre os quais o Brasil, que figura em quarto lugar em número de participantes, perdendo apenas para o Japão (58 artistas), Estados Unidos (8) e França (7).

Entre os cinco brasileiros convidados pela assistente curatorial de Chihiro, Daniela Castro, estão a mineira Laura Lima, o fotógrafo paulista Mauro Restiffe, o carioca João Modé, Leandro Nerefuh (também conhecido como Libidiunga Cardoso) e a bailarina Dani Lima (na parte de dança e teatro, que tem, entre outras atrações, uma montagem de A Flauta Mágica, dirigida por Teshigawara Saburo). Eles estão espalhados por Aichi e localidades próximas. Em Aichi vivem mais de 200 mil estrangeiros, dos quais 47 mil são brasileiros (23,1% da população).

Entre os brasileiros, o trabalho de Laura Lima destaca-se por sua originalidade e sensível percepção do espaço. Sua obra Flight ocupa todos os andares de uma antiga casa japonesa que parece ter saído dos filmes de Ozu. O visitante entra numa gaiola, onde é recebido por passarinhos, sobe ao primeiro andar e percebe, finalmente, que o número de aves cresceu, como no clássico filme de Hitchcock. Mais passarinhos de bico vermelho estão agrupados em estruturas de madeira que projetam o edifício para a área externa (cercada por telas de arame). Resumo: o observador deixa de ser protagonista para ser coadjuvante dos pássaros.

Em contrapartida, nas instalações de João Modé (há mais de uma em vários locais), o espectador participa ativamente da construção da obra: o artista escolhe o material, mas não tem controle sobre ele. Cada visitante seleciona uma tira de barbante colorida e amarra a peça numa rede, que envolve a todos nessa comunidade artística improvisada e anônima.

O curador Chihiro Minato, entusiasta da arte latina, fala dos brasileiros como intérpretes ideais do eixo temático da trienal, o da “caravana arco-íris” que resumiria a jornada da humanidade para o desconhecido. Minato é contra a “subordinação unilateral da natureza ao intelecto”. Diz que a sua trienal é uma resposta à hegemonia da arte conceitual e à “civilização urbana dependente da tecnologia”, embora não despreze a contribuição da mídia eletrônica – tanto que convidou o lituano Ignas Krungglevicius para apresentar dois audiovisuais de grande impacto (um deles baseado num concreto e surrealista interrogatório policial sobre um assassinato).

A trienal japonesa ocupa vários lugares em diferente cidades (Aichi, Nagoya, Toyohashi e Okazaki), todas próximas. Ênfase na relação arte/ambiente foi o primeiro mandamento do curador Minato a seus assistentes – e ele foi levado à risca com a escolha de locais como as antigas edificações de Toyohashi, que datam do pós-guerra, agora em estágio de recuperação arquitetônica.

Entre os vários projetos artísticos da trienal, um dos que impressionam por sua concisão minimalista é a instalação da artista egípcia Iman Issa, de 37 anos, Heritage Studies, que junta objetos, obras de arte e estruturas do passado numa tentativa de mostrar sua relevância hoje – eles vêm acompanhados de textos da autora, que também é cineasta (autora de um filme sobre um memorial da guerra do Iraque).

Chama igualmente a atenção a obra do escultor holandês Mark Manders, de 48 anos, que hoje vive em Ronse, na Bélgica, e representou seu país na última Bienal de Veneza. Dono de uma técnica impecável, ele apresenta na mostra japonesa uma instalação em que os corpos se encontram no limiar do desaparecimento – a dissolução material sugere ausência e morte no próprio estúdio do artista. Impressiona. E muito.

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