Toots leva a vida na gaita

Grande admirador da música brasileira, o gaitista belga volta ao País 15 anos depois da sua última visita, toca no Cultura Artística com Oscar Castro- Neves e diz ao ''''Estado'''' que rejuvenesce tocando com garotos

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

01 Outubro 2007 | 00h00

Há três dias, ele tinha tocado com a pianista brasileira Eliane Elias em Bruxelas. No ano passado, no Carnegie Hall de Nova York, seus acompanhantes eram Ivan Lins, Oscar Castro-Neves e Eliane Elias (além de Herbie Hancock e Joe Lovano). Desde os anos 1960, quando ficou amigo de Elis Regina, o gaitista belga Jens ''''Toots'''' Thielemans nunca ficou muito tempo afastado da música brasileira, mas se ressente das visitas ao País, que eram freqüentes até os anos 1990. ''''Faz uns 20 anos que não vou ao Brasil, acho que a última vez foi no Rio de Janeiro. Farei três shows aí e depois vou ao San Francisco Jazz Festival'''', disse o veterano músico, em entrevista ao Estado por telefone desde Bruxelas, Bélgica, na semana passada. Uma lenda do seu instrumento, autor de um clássico do gênero, Bluesette, Toots Thielemans tocou e gravou com os maiores: Charlie Parker, Oscar Peterson, Bill Evans, Quincy Jones, Jaco Pastorius, George Shearing, Benny Goodman, Ella Fitzgerald. E também Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina. Mas não são 20 anos longe do Brasil, Toots, são 15 anos: a última vez foi em 1992, no extinto Free Jazz Festival. Mas agora o jejum acaba: hoje e amanhã, aquele que é considerado o papa do seu instrumento, a gaita, toca no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, acompanhado de um quarteto - o baterista Bruno Castelucci, o pianista Karel Boehlee e o baixista Bart de Nolf -, e mais o brasileiro Oscar Castro-Neves, convidado especial. ''''Eu sou um músico de jazz. A base do que eu toco é o bebop. No fundo, é também o que me aproxima da bossa nova, por exemplo. Não é sempre que toco com os brasileiros, mas amo a música brasileira tanto quanto o jazz'''', diz ele, cujo último trabalho foi lançado no ano passado, o álbum One More for the Road. Nesse disco, o jazz é a tônica, e os parceiros são quase todos recém-chegados ao métier: os cantores Madeleine Peyroux, Jamie Cullum e Roberta Gambarini, por exemplo, participam. ''''Amo tocar com os jovens, porque é com eles que eu rejuvenesço musicalmente'''', diz o gaitista. Foi assim, com esse espírito, ele lembra, que se entregou de corpo e alma a uma jovem cantora brasileira, Elis Regina, nos anos 1960. Em 1969, gravaram juntos Aquarela do Brasil. ''''Elis me ensinou as únicas palavras em português que nunca esqueci: obrigado, tudo bem?, bom-dia e bicha. Ela me chamava de bicha'''', ele diz, às gargalhadas. Será que ela não dizia ''''bicho'''', como era hábito na época? Bom, Toots não sabe dizer. Nos anos 1990, Thielemans gravou dois discos fantásticos, os álbuns Brasil Project, que juntaram Gil, Caetano, Chico Buarque, João Bosco, Djavan, Ivan Lins, entre outros. Ele se emociona até ao lembrar de algumas das canções que gravou. ''''Chico Buarque cantando o futebol, que maravilha!'''', afirma. ''''Eu gostaria de gravar sempre discos como o Brasil Project, mas não sei mais se é possível, não no mesmo nível daqueles discos. Precisaria ensaiar, precisaria reunir os músicos certos, todos têm agendas. Tenho 85 anos agora, não tenho mais saúde, estou velho'''', ele diz. Para Thielemans, um dos músicos com os quais estabeleceu uma relação de influência mútua, no Brasil, foi o também gaitista brasileiro Mauricio Einhorn, hoje com 72 anos. ''''É um bom camarada'''', disse, em bom português. Mauricio, nascido Moisés Davi Einhorn, uma vez presenteou o general João Baptista Figueiredo, então presidente militar, com uma gaita que Thielemans tinha lhe dado de presente. Figueiredo era gaitista diletante. Uma das facetas do trabalho de Toots foi em trilhas para cinema. ''''Fiz música para Midnight Cowboy (Perdidos na Noite, de 1969) e Bagdah Café (1987)'''', ele lembra. ''''Mas nunca mais fiz nada para o cinema, não tive tempo nem boas propostas.'''' Toots Thielemans aprendeu a tocar a gaita em sua cidade natal, Bruxelas, aos 17 anos. Após a ocupação alemã, a família Thielemans refugiou-se na França. Em 1941, ao voltar a Bruxelas, Toots ouviu o violonista cigano Django Reinhardt, e decidiu aprender a tocar aquele instrumento, que também domina muito bem. Em 1947, foi aos Estados Unidos pela primeira vez e, em 1949, conheceu o bandleader Benny Goodman. No ano seguinte, emigraria para os Estados Unidos. De 1952 a 1959, acompanhou o quinteto do pianista George Shearing. Nos anos 1960, tornou-se colaborador de Quincy Jones, com quem gravou as trilhas sonoras para cinema. ''''Um grande amigo, Quincy, que divide comigo a paixão pela música de Ivan Lins. Eu o destaco pela pesquisa melódica e harmônica. Adoro sua música Começar de Novo'''', diz Toots. Animado com a volta ao Brasil, Toots manda um recado simples antes de se despedir. ''''Diga que eu desejo um bom dia a todos os meus amigos brasileiros.'''' Que não são poucos. Pimentinhas: Com Elis Regina, Toots manteve grande amizade e gravou Aquarela do Brasil, em 1969. ''''Ela me ensinou palavras em português: obrigado, tudo bem e bicha'''', diverte-se. Coração violeiro : Depois de assistir a um show de Django Reinhardt em Bruxelas, Toots decidiu que também tocaria violão. Tornou-se respeitado também nesse instrumento, que domina Com uma pequena ajuda de alguns amigos: No Free Jazz de 1992, Toots esteve acompanhado de Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e a constelação da MPB com a qual se acostumou a tocar e gravar Camarada : Com Oscar Castro-Neves, em 1992, também em visita ao Brasil; parceria fértil aqui e no exterior se repete na semana Serviço Toots Thielemans Quartet. Teatro Cultura Artística (1.156 lug.). Rua Nestor Pestana, 196, telefone 3256-0223. Hoje e amanhã, 21 h. R$ 30 a R$ 90

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