Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

SP-Arte: Douglas Gordon faz suas exposições na cidade

Um dos maiores nomes da videoarte, o escocês faz exposições na Galeria Marília Razuk e no Instituto Moreira Salles

Maria Hirszman, Especial para o Estado

11 Abril 2018 | 06h00

Com duas exposições abrindo na mesma semana, o artista escocês Douglas Gordon finalmente chega ao Brasil e está também na SP-Arte. No sábado, 7, foi aberta na galeria Marília Razuk a mostra I Will, if you Will com uma seleção de 25 trabalhos de sua autoria.

E no próximo dia 14, será a vez do Instituto Moreira Salles inaugurar Îles Flottantes (Se Monet encontrasse Cézanne, em Montfavet), uma videoinstalação criada na residência do colecionador francês Yvon Lambert e que até agora só foi mostrada uma vez, em 2008.

Além de dar ao público finalmente a oportunidade de ver de perto a obra de um dos mais destacados artistas contemporâneos da cena europeia, a coincidência de calendário permite um conhecimento mais amplo dessa produção polivalente. Afeito a múltiplas experimentações – “uma coisa ótima de devanear no estúdio é que não existe uma definição. O processo de criação é indefinido”, diz –, Gordon transita com facilidade por diferentes meios e questões, está permanentemente reelaborando referências do campo da linguagem e da arte para reativar sensações e a percepção do público.

Tem paixão pelo cinema. Sua obra mais famosa é 24HoursPsycho, de 1993. Com apenas 30 anos ele reinventou a obra icônica de Alfred Hitchcock, desacelerando-a para apenas dois frames por segundo. O resultado é ao mesmo tempo subversivo e reverente. O vídeo talvez seja sua linguagem por excelência, tornando-se em 1996 o primeiro videoartista a receber o Turner Prize. Mas também se aventura por diferentes formas de expressão como a escultura, o desenho e a interferência sobre imagens icônicas.

Com curadoria de Martina Aschbacher, a exposição na Galeria Marília Razuk procura mostrar ao público as diferentes facetas do artista, mas tem um eixo condutor de extrema relevância na sua produção: as mãos. “Ao longo de sua carreira, o artista tem criado trabalhos baseados em performances que retratam seu próprio corpo em ação. A mão pode ser vista como um símbolo do comportamento humano, evocando identidade, sexualidade, fetichismo, dominação ou insinuar a inabilidade de comunicar”, diz ela. Esses significados relacionados pela curadora em seu texto de apresentação parecem mesclar-se com diferentes intensidades nos trabalhos apresentados. 

A frase “A mão direita não quer contar o que a mão esquerda fez”, gravada de duas formas distintas nas paredes, ecoa por toda a sala. E parece ecoar na tensa ambiguidade do vídeo A Mão Esquerda Não Consegue Ver Que a Mão Direita e Cega. Nesta obra, provocativamente instalada no nível do chão, vemos duas mãos enluvadas e coladas uma à outra, tentando libertar-se, ora com sensualidade e engenhosidade, ora com desespero.

Se há um elo comum entre os muitos caminhos seguidos por Gordon, este parece ser um fascínio pela ambiguidade. Não à toa ele tem, como revela Martine, sua assistente há cerca de uma década, fascínio pela obra O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. A exemplo do escritor ele está interessado em caminhar no fio da navalha, revelando opostos complementares.

No caso da instalação do IMS, que tem procurado dar espaço para os grandes mestres atuais do vídeo (como Christian Marclay e Anri Sala), fica clara a interpenetração de recursos e significados explorados pelo artista. Para alcançar seu objetivo, Gordon inverteu o sistema de canalização da residência para inundar os jardins e criar um grande espelho d’água, sobre o qual espalhou diversos crânios.

A essa estranha e singular paisagem deu um título poético, compartilhado com uma deliciosa sobremesa francesa, na qual suspiros de neve flutuam sobre uma calda doce. Impossível não estranhar o choque entre a cena bizarra dos crânios flutuando e a delicada iguaria. Outras referências explicitas se somam, tornando o trabalho ainda mais exótico e pleno de significados. 

No subtítulo, Gordon explicita uma tentativa de contraposição entre duas tradições da arte francesa: o impressionismo delicado e variante de Monet (representado pela inconstante e sedutora superfície d’água) e o rigor, ao mesmo tempo sensível e intelectual de Cézanne, que elegeu o crânio humano como um dos modelos frequentes de seus exercícios de pintura. Segundo o curador Lorenzo Mammì, Gordon estabeleceria nesse trabalho “uma tensão entre duas maneiras opostas e complementares de ver”.

Além da exposição de Gordon, o IMS inaugura outra de grande interesse. No sábado, 14, será aberta a mostra São Paulo Fora do Alcance, ensaio fotográfico assinado por Mauro Restiffe

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