Shnittke para todos os tempos

Nome mais importante da composição russa pós-Shostakóvich ganha biografia

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Ao longo do ano passado, o mundo da música entronou de vez o compositor russo Dmitri Shostakóvitch (1906-1975), de quem se completava o centenário de nascimento, como referência na vida artística russa, autor de uma obra que servia de espelho não apenas de uma inspiração pessoal muito forte como também de um período político e social conturbado. Mas, se Shostakóvich, 32 anos após sua morte, foi enfim aceito como um divisor de águas na criação musical russa, o que dizer dos compositores que o seguiram? Sobre eles sabemos muito pouco. Mas o quadro começa a mudar com o lançamento, hoje, de Shnittke: Música para Todos os Tempos, de Marco Aurélio Scarpinella Bueno, relato da vida e obra do compositor Alfred Shnittke (1934- 1998), o nome mais importante da composição russa pós-Shostakóvich. Scarpinella conta que descobriu Shnittke por acaso, nos anos 70, quando comprou um disco, com obras de câmara de Brahms, Sibelius e Schumann, que tinha também a Sonata para Violino do russo. Lembra que, após a primeira audição, sentiu ''''desconforto'''' com uma música que soava ''''esquisita e interessante''''. Resolveu então se aprofundar no assunto e a identificação com sua obra surgiu. Décadas depois, no entanto, ele conta que pensava mesmo em escrever um livro sobre o próprio Shostakóvitch, até descobrir que o crítico Lauro Machado Coelho estava terminando a biografia do autor (2006, Perspectiva). Ele o procurou e, das conversas que tiveram, surgiu em Scarpinella o desejo de escrever sobre a vida e obra de Shnittke. Sobre ele, há pouco material disponível, e não apenas no Brasil. Há a biografia de Aleksander Ivachkin, violoncelista e colaborador do compositor, editada na Inglaterra pela Phaidon Press. Também na Inglaterra há uma edição com ensaios de músicos e musicólogos sobre Shnittke. E é só. Esse material foi o ponto de partida de Scarpinella, que, em seguida, foi atrás de análises de outros autores, como Richard Taruskin e Alex Ross, em grande parte publicadas em revistas e jornais ingleses e americanos. Scarpinella também conversou com artistas que trabalharam com Shnittke e participaram da estréia de algumas de suas obras, como o tenor Howard Haskin e a meio-soprano Graciela Araya; trocou longa correspondência com Ivachkin, o levando a esclarecer pontos pouco explorados em seu próprio livro; estabeleceu uma rede de contatos com artistas e compositores russos, como Yuri Kasparov. E a combinação dessas fontes resultou em um livro que dimensiona a importância da obra do compositor e vislumbra sua personalidade. ''''Penso em Shnittke como um compositor com um universo rico e interessante, à espera de ser conhecido. Ele me atrai muito por ser gente como a gente, falível, dividido, capaz de misturar a música do dia a dia com a clássica, pensada, estudada, sempre de uma maneira muito pessoal'''', diz Scarpinella. É como anota Lauro Machado Coelho na introdução ao livro: ''''A sua maneira peculiar de compor, a que dava o nome de poliestilismo, trouxe uma resposta muito original à busca de um caminho, para a escrita contemporânea de música erudita, que absorvesse as aquisições da vanguarda dodecafônica e, ao mesmo tempo, incorporasse as grandes conquistas do passado, sintetizando-as e transcendendo-as de forma pessoal e inovadora.'''' É uma característica que nos permite pensar em Shnittke como precursor (ou símbolo?) da liberdade, da recusa de dogmas restritos e excludentes, na hora de escrever - tendência dos últimos anos na criação musical. Essa, porém, é apenas uma de muitas leituras possíveis de sua vasta obra. ''''Shnittke cultivou uma linguagem musical herdada da longa tradição ocidental de grandes compositores. De Stravinski herdou a capacidade de observar diversas tendências e manter sua integridade musical; de Charles Ives, a capacidade de usar o som do dia-a-dia; de Mahler a intensidade musical e de Berg a disciplina. Mas foi de Shostakóvich que herdou o legado espiritual de manter vivo o simbolismo da música russa'''', escreve Scarpinella. ''''Nele, encontramos um compositor de imaginação considerável e de maestria técnica, conhecedor das técnicas mais modernas de desenvolvimento musical. É sua qualidade como compositor que atrai músicos que acreditam que sua obra deva ser divulgada. E sua grande capacidade imaginativa convida o ouvinte a conhecer sua obra.'''' O convite está feito. Agora, é só partir em busca de suas sinfonias, concertos, óperas, balés... Serviço Shnittke - Música para Todos os Tempos. De Marco Aurélio Scarpinella Bueno. Editora Algol. 416 págs. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, Conj. Nacional, 3170-4033. Hoje, 18h30

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