Robert Holl em bem trabalhada apresentação

Baixo holandês mostrou-se intérprete de bom senso, ao optar por uma leitura mais pessoal

O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Para um recital de lied, um auditório com as dimensões da Sala São Paulo está longe de ser adequado. Mas, com o volume e a facilidade de projeção que tem, as dimensões da sala não foram um problema para o baixo holandês Robert Holl, em sua apresentação. No Dichterliebe, o ciclo de Robert Schumann sobre poemas de Heinrich Heine, que executou na primeira parte, a voz, de timbre rico e sonoro, não só se mostrou flexível, capaz de pianíssimos muito bem definidos e de plasmar com elegância os contornos melódicos, como também abrangeu desenvoltamente os extremos da tessitura - até mesmo nos agudos de uma canção como Ich Grolle Nicht, que levou Holl aos limites de seu registro. Mas no domínio da canção poética, boa voz é apenas metade do caminho. Holl mostrou-se bom intérprete na expressividade com que constrói os diversos climas, ora líricos, ora irônicos, da poesia de Heine. E num campo em que os cantores se vêem muitas vezes tentados a medir-se com o modelo onipresente de Dietrich Fischer-Dieskau, teve o bom senso de buscar parâmetros próprios - e os encontrou nos momento freqüentes em que a sua leitura soou muito pessoal. Num ciclo como o Dichterliebe, em que alguns dos poemas têm elaborados poslúdios, é muito importante o papel do pianista. E o americano David Lutz esteve à altura de Holl, não só nesse ciclo como nas peças de Schumann cantadas no início da segunda parte. Mas principalmente nas canções de Rachmáninov e Tchaikóvski, interpretadas na parte final do programa. E aqui, a uma dicção claríssima, capaz de dominar as inflexões muito peculiares da declamação russa, Holl aliou o senso de estilo, que fez diferir nitidamente a empostação conferida ao melodismo de Schumann e o tratamento dado ao romantismo crepuscular de Rachmáninov e, sobretudo, de Tchaikóvski. Numa canção como Sried Shúmnovo Bála (Em meio ao ruidoso baile), ele equilibrou com habilidade os elementos operísticos e mais introspectivos da linha de canto. E deu à mística Blagosloviáiu Vas, Liesá (Eu vos abençôo, florestas) o tom apaixonado, enfatizando a sua celebração da solidariedade entre os homens, muito adequada para colocar um ponto final numa bem trabalhada apresentação.

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