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Cultura

Exposição

Relação da arte com a natureza é tema de mostra no MAM

Nova exposição do museu relaciona o 'Cântico das Criaturas' de Francisco de Assis e obras contemporâneas

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Camila Molina,
O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2016 | 04h00

Em 1961, quando o astronauta russo Iuri Gagarin declarou que a Terra vista do espaço era toda azul, o artista Yves Klein (1928-1962) “viu toda a sua obra confirmada”, como diz o curador Felipe Chaimovich. Logo no início da exposição Natureza Franciscana, que será inaugurada neste sábado, 27, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, a escultura Venus, criada pelo francês, mostra que seu intenso Internacional Klein Blue (o IKB patenteado por ele em 1960) é mais do que uma cor delirante e bela – ela é seu “louvor” ao céu; ou ao “ar” e às “nuvens” e ao “tempo claro” e a “todos os tempos” que dão sustento às criações de Deus, como indica a estrofe do Cântico das Criaturas – escrito por Francisco de Assis, aproximadamente, entre 1220 e 1226 – exibida ao lado da histórica peça escultórica.

Chaimovich, curador do MAM e da exposição, é um estudioso de longa data da obra franciscana e foi uma ideia sua relacionar agora o cântico a uma seleção de 37 trabalhos contemporâneos de artistas brasileiros e estrangeiros para promover uma reflexão sobre arte e ecologia. “A canção é o primeiro texto que, na tradição ocidental, estabelece uma relação de colaboração entre o ser humano e a natureza sem haver subordinação”, explica. Segundo Chaimovich, o cântico trata da ligação com a natureza não de uma maneira utópica, mas de um ponto de vista corporal – e, sendo assim, “o ser humano participa do mesmo processo que gera todos os corpos do universo”.

Em Natureza Franciscana, o Cântico das Criaturas (originalmente, escrito em italiano e que neste sábado, 27, será declamado pelo ator Juca de Oliveira durante a abertura da mostra) está fragmentado em oito estrofes que indicam, cada uma, os elementos destacados por Francisco de Assis em sua canção – o sol; o ar; a água; as estrelas; a terra; o fogo; doenças e atribulações; e a morte. As obras selecionadas pelo curador falam muito mais da conexão laica dos artistas com esses temas do que se apresentam como ilustração de cada tópico, é importante dizer.

A Venus de Klein, emprestada de uma coleção particular de São Paulo, está instalada na abertura da exposição, mas, logo ao lado da escultura, o visitante encontrará outro trabalho histórico, os 12 livros da série I Got Up (1968-1979), do artista conceitual japonês On Kawara (1933-2014). Durante 12 anos, ele escreveu a frase “I got up” (eu acordei) em cartões-postais – e sua obra é agora exposta no segmento de louvor ao sol em diálogo com fotografias de Lucia Koch e de Marcelo Zocchio.

Outra presença internacional na mostra é a sala dedicada à série que o alemão Wolfgang Tillmans realizou no observatório astronômico no Chile. Como afirma Felipe Chaimovich, as peças, inéditas na América do Sul, tratam da relação do homem com as estrelas “claras e preciosas e belas”, descreve Francisco de Assis – e, por isso, as obras fotográficas, impressas em grande escala, registram o firmamento com pontos cintilantes e também telescópios e “aparelhos de interpretação” do céu.

Já na seção dedicada à água, são apresentados os trabalhos Coleta da Neblina e Coleta do Orvalho, de Brígida Baltar, e A line in the arctic #1 e A line in the arctic #8 (2012), de Marcelo Moscheta. Em outra sala, o fogo é homenageado nas composições de Shirley Paes Leme criadas com fumaça – cujos traços são aprisionados em caixa de acrílico e capturados em papéis – e no vídeo Homenagem a W. Turner (2002), de Thiago Rocha Pitta.

A terra é contemplada com um relevo realizado em 1981 por Frans Krajcberg (única produção do artista a integrar a coleção do MAM); com instalação de Sergio Porto datada de 1975 (uma das primeiras a falar sobre ecologia na época); e com obra sonora de Chiara Banfi. O tema da doença é representado por trabalhos de Nazareth Pacheco e Paulo Lima Buenoz.

E como o Cântico das Criaturas diz que são “benditos aqueles que estiverem fazendo a tua santa vontade quando a morte os surpreender”, Natureza Franciscana se encerra com a exibição da última peça de tecido trabalhada por Leonilson (1957-1993) – ainda nua, apenas alinhavada.

Trabalhos destacam exercícios educativos em exposição na Sala Paulo Figueiredo

Para celebrar os 20 anos do setor educativo do MAM e da presidência de Milú Villela – pedagoga, diz o curador Felipe Chaimovich – na instituição, o museu também inaugura neste sábado, 27, na Sala Paulo Figueiredo, a exposição Educação como Matéria-Prima.

Já do lado de fora do MAM, a fachada de vidro do prédio apresenta a obra O Museu É Uma Escola, de Luis Camnitzer – antes de chegar à portaria da instituição ou mesmo durante um passeio pelo Parque do Ibirapuera, lê-se a sentença escrita em grandes letras brancas: “O museu é uma escola: o artista aprende a se comunicar; o público aprende a fazer conexões”. O artista uruguaio, referência quando se trata de arte e educação, criou a intervenção em 2010 e, desde então, a peça já foi instalada em outras localidades.

Dentro da Sala Paulo Figueiredo, Camnitzer também está representado por outro trabalho, Exercícios, que são proposições subjetivas a serem experimentadas pelo público da mostra.

Outro destaque de Educação como Matéria-Prima, concebida por Chaimovich e por Daina Leyton, coordenadora do setor educativo do MAM, é a presença de obras do fotógrafo cego Evgen Bavcar. O franco-esloveno, que perdeu a visão aos 11 anos devido a um acidente, expõe série de fotografias realizada no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, na Itália – na ocasião, ele pôde tocar as obras. Como conta o curador do MAM, será desenvolvida atividade pedagógica especial para deficientes visuais.

A mostra ainda apresenta criações de Amilcar Packer, Graziela Kunsch, Stephan Doitschinoff e Jorge Menna Barreto, e remonta Experimental, a instalação do artista conceitual Paulo Bruscky que coloca os funcionários do museu para trabalhar no espaço expositivo.

Também vale destacar que o MAM promove neste sábado, 27, às 12h30, e no domingo, 28, às 16 h, apresentações da cantora Mãeana como parte de Educação como Matéria-Prima.

NATUREZA FRANCISCANA e EDUCAÇÃO COMO MATÉRIA-PRIMA

MAM-SP. Parque do Ibirapuera, portão 3, 5085-1300. 3ª a dom., 10h/17h30. R$ 6 (grátis aos domingos). Até 5/6. Abertura no sábado, 27, às 11 h

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