Quando Nietzsche chorou em Bayreuth

Sai em português o estudo crítico que o filósofo dedicou à obra de Richard Wagner

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2009 | 00h00

"Com ele eu me sinto na presença do divino." O fim da carta de agosto de 1869 não deixa dúvidas sobre a admiração que o jovem professor Friedrich Nietzsche, então com 27 anos, nutria pelo compositor Richard Wagner. Àquela altura, o músico era o mais celebrado entre seus pares na Alemanha. E sua proposta de ópera como recriação do drama grego calou fundo em um Nietzsche que lecionava autores clássicos na Universidade da Basileia. Começava uma das mais célebres amizades do mundo intelectual germânico que, anos depois, se tornaria famosa também pelo rompimento entre os dois autores. Não importa. Para o bem e para o mal, a relação entre eles foi decisiva na formação do corpo de ideias de Nietzsche que, por sua vez, ofereceu um arcabouço intelectual à proposta artística de Wagner, como mostra o texto Wagner em Bayreuth, que a Zahar lança pela primeira vez em português (181 págs., R$ 34,90). "O período de maior contato e amizade com Wagner corresponde aos anos de 1868 a 1875, ao longo dos quais Nietzsche acompanha as etapas de criação do teatro em Bayreuth e escreve Wagner em Bayreuth", diz Anna Hartmann Cavalcanti, responsável pela tradução e introdução do volume. "Nietzsche e Wagner compartilham o fascínio pela tragédia grega antiga e pela filosofia da música de Schopenhauer. O mais fecundo diálogo que se desenvolveu entre os dois, e que se desdobrou de diferentes maneiras na obra de cada um, foi a tentativa de pensar criticamente a modernidade à luz da arte e da cultura gregas, da qual nasce o ideal de renovação da cultura moderna a partir da arte." Schopenhauer? Escreve Nietzsche em carta endereçada a Wagner. "Os melhores momentos de minha vida estão associados a seu nome, e só sei de um outro homem, seu grande irmão espiritual Arthur Schopenhauer, a quem admiro com igual reverência." Formava-se uma trinca cujo diálogo repercute ainda hoje. Para Schopenhauer, o universo não podia ser entendido como fruto da vontade de Deus, mas, antes, como expressão de um "impulso cego" - o homem é um ser movido por aspirações e paixões, constituintes da Vontade, princípio a nortear a vida humana; a música seria então a mais adequada forma de manifestação dessa Vontade. É aí que Wagner entra na história, com obras como Tristão e Isolda, cujo enredo se passa dentro da mente humana, em um território de desejos, conflitos, gritos, suspiros e êxtase. E Nietzsche? A música de Wagner simbolizava, para ele, o novo em oposição às tendências culturais dominantes, símbolo da arte como poderosa força de resistência, ponto de partida para a radical transformação das estruturas da sociedade. "Descrever a música como um retorno à natureza significa, também, descrevê-la como uma metamorfose, um desejo de ser diferente como algo que constitui fundamentalmente a condição humana, de criar e experimentar novas dimensões de si e do outro", escreve Anna Hartmann na introdução da obra. "O tema da mudança e da historicidade é abordado no ensaio a partir da pergunta acerca do significado da música na modernidade. Não é possível, como observa Nietzsche, atribuir a verdadeira música, a música que nasce da criação wagneriana, a um acaso vazio e sem sentido. A música é um ?fragmento de destino? e nasce de uma necessidade profunda da época, a necessidade de mudança, de superar através de uma poderosa força plástica a desfiguração da natureza que caracteriza a existência moderna." O ensaio agora lançado foi escrito por Nietzsche durante a construção do teatro de Wagner, em Bayreuth. O prédio foi projetado para abrigar a encenação da monumental tetralogia O Anel do Nibelungo, inaugurando um festival anual que ainda hoje é ponto de referência da programação mundial. "A importância de Wagner em Bayreuth é a de dar expressão ao momento da reflexão filosófica de Nietzsche no qual ele estabelece um diálogo com a produção teórica e musical wagneriana, apostando em uma profunda renovação da cultura através da arte. Esse ensaio, no modo como relaciona a vida e a obra do compositor, mostrando o significado filosófico do projeto de Bayreuth e as conexões da arte com a cultura e a vida, é a mais bela homenagem que Nietzsche prestou a Wagner. Enfim, da perspectiva da trajetória filosófica de Nietzsche, o ensaio é igualmente importante, pois nele é priorizada uma questão que será fundamental ao longo de toda sua obra, a questão da relação entre arte e vida", diz Anna. ROMPIMENTO Pouco depois de escrever Wagner em Bayreuth, no entanto, Nietzsche começa a se afastar de seu mestre intelectual. "A partir de 1875, se aprofundam as mudanças em seu pensamento, ele se orienta cada vez mais para a perspectiva filosófica do espírito livre, que caracteriza o livro Humano Demasiado Humano, publicado em 1878, e que implica um questionamento da metafísica da arte desenvolvida no primeiro período de sua obra. Nesse contexto, e com o apoio crescente de Wagner à política de Bismarck e ao nacionalismo alemão, o afastamento se torna inevitável", diz Anna. "No primeiro festival de Bayreuth, que ocorre em julho de 1876, Nietzsche se dá conta das diferenças que separam a sua concepção da arte, o seu ideal da arte como renovação da cultura, e as concepções de Wagner e o do círculo wagneriano. Nietzsche concebia esse ideal como uma experiência artística singular, que deveria gerar uma profunda reflexão crítica sobre a cultura moderna. Mas o que ele pressente em Bayreuth, e que se consolidará alguns anos após o primeiro festival, são as tendências nacionalistas da arte wagneriana. A grande crítica de Nietzsche é que o projeto nacionalista wagneriano, de fundar uma nova cultura a partir do autêntico espírito alemão, tem como consequência transformar a arte em mero instrumento, um meio de reforma e regeneração moral. O afastamento e a ruptura ocorrem nesse período, de 1876 a 78, no qual a música de Wagner deixa de significar para Nietzsche uma arte capaz de trazer o novo." Os autores FRIEDRICH NIETZSCHE: Criador de conceitos e imagens que ainda hoje são referências fundamentais, como o apolíneo e o dionisíaco, vontade de poder ou a morte de Deus, o filósofo acreditava em uma filosofia que fosse expressão da experiência pessoal, vendo na fruição estética êxtase e redenção. Defendeu a criação de novos valores e a reflexão sobre a cultura moderna, que seria renovada pela arte. RICHARD WAGNER: Nascido em 1813, ficou conhecido pela sua proposta de "obra de arte total", a reunião de diversas manifestações artísticas em uma só, o drama lírico, propondo uma relação entre a ópera e o teatro grego. Musicalmente, fez uso dos temas condutores, dando à orquestra papel de comentarista da ação que se passa no palco; com Tristão e Isolda, trabalhou com dissonâncias que abririam as portas da música moderna.

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