Divulgação/Atraves.tv
Divulgação/Atraves.tv

Psiquiatra analisa a polêmica da performance no MAM

'A criança nem sempre tem a maturidade do adulto para diferenciar uma obra de arte de um corpo', diz Daniel de Barros

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 03h00

Após a viralização de um vídeo da performance La Bête, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), em que o artista carioca Wagner Schwartz estava nu e uma criança interagiu com ele, houve quem acusasse o MAM de incentivar a pedofilia.

“O tema é delicado, porque toca um dos medos atuais da sociedade, que é o abuso, a erotização infantil, a pedofilia”, analisa Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Hospital das Clínicas e blogueiro do Estado. “Numa cena em que possa haver o risco disso, as pessoas já reagem com uma preocupação compreensível”, acrescenta.

De acordo com Barros, no caso específico do MAM, a obra de arte não contém em si erotismo, mas, por outro lado, não é esperado que uma criança esteja em um recinto com um homem nu. “A criança nem sempre tem a maturidade do adulto para diferenciar uma obra de arte de um corpo”, pondera o especialista. “Os pais é que têm que saber junto com a criança o que ela pode e o que não pode ver”, completa. 

Generalizando, o psiquiatra alerta que, por mais que a prerrogativa seja dos pais, caso a sociedade considere a decisão inapropriada, “quando uma situação é prejudicial para uma criança, se o pai a expõe àquela situação, deve ser responsabilizado”. No entanto, nesse caso, não há como cravar o que é adequado. “Como psiquiatra, não conheço evidências científicas que dizem que uma criança ver um sujeito nesse contexto vai deixar ela mais erotizada”, explica. Barros diz, ainda, que isso vale também para novelas, filmes e outras mídias. “Existem cenas sem nudez que podem ser mais eróticas para uma criança do que um homem pelado mexendo em um origami”, afirma ele.

Na ausência de embasamento científico para afirmar categoricamente se a performance no MAM seria ou não prejudicial para a criança, o especialista conclui que “por via das dúvidas, pessoalmente eu sugeriria não arriscar, para que a criança não fosse exposta”.

Para Barros, porém, não há base para dizer que houve pedofilia, como muitas das denúncias afirmam. “Pedofilia é o desejo do adulto pela criança. Do ponto de vista jurídico, é o abuso; do ponto de vista médico, independe de haver abuso ou não. Isso não estava posto naquela situação”, conclui o psiquiatra. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.