Poesia e matemática, urbano e rural, pelo filtro da eletrônica

Felipe Julián: Baixista e tecladista do projeto Axial O projeto Axial, formado inicialmente por Felipe Julián (baixo, teclado e instrumentos eletrônicos) e Sandra Ximenez (voz, teclado e piano), virou trio com a entrada do saxofonista Leonardo (sax, clarinete e eletrônicos). Eles dividem arranjos e algumas composições do segundo álbum, Senóide (Cooperativa de Música), que terá parte do repertório no show de estréia do grupo no Rio, hoje no TIM Festival. Conectando ''''o mais primitivo com o mais contemporâneo'''', eles também interpretam no CD canções do baiano Elomar e do paulistano Luiz Tatit, além de ''''desconstruir'''' temas étnicos tradicionais dentro de seu estilo ''''eletrorgânico''''. Como unir dois pólos tão distintos como o rural Elomar (Cantiga de Amigo) e o urbano Tatit (Incerteza) num mesmo conceito? Ouvi Elomar desde pequeno, meus pais tinham Na Quadrada das Águas Perdidas, que é um disco absurdo. Quando já estava estudando música voltei a ouvi-lo e descobri que era aquilo que queria fazer, por causa das opções harmônicas dele. A influência principal é essa. Já o Chico Saraiva compôs essa música e achou que tinha a ver com a voz da Sandra. Ela fez tudo nessa canção, eu só finalizei a mixagem. Nem me meto a dizer que teve um planejamento estético. Uma música é de interesse nosso e outra nos foi ofertada. E qual a influência de poetas como Manoel de Barros, Guimarães Rosa e João Cabral de Mello Neto, que têm versos musicados por vocês? Aí entra uma questão de afinidade de gosto nosso, e por eles falarem coisas que têm a ver com o nosso som. Manoel de Barros, por exemplo, fala o tempo todo sobre a desconstrução da arte e sentimos que em algum nível a gente pratica isso um pouco. Guimarães já estava no primeiro disco, em que fizemos uma peça sonora com citação do conto Buriti - o personagem mestre Ezequiel é atormentado pela audição. Isso tem a ver com o fato de a gente também querer desenvolver a hipersensibilidade auditiva das pessoas. Vocês escolheram o título Senóide por tratar a música como uma equação matemática? Senóide é tida como aquela onda sonora pura. É o átomo do som, menos do que uma senóide não dá para ter. Por um lado tem esse valor meio poético, de que tudo que está nesse disco é composto por senóides. E por outro, tem um uso consciente de senóides, feitos no computador para construir a sonoridade da gente. Outra questão tem a ver com o conceito do Axial que é conectar o mais primitivo com o mais contemporâneo. De certa forma, na nossa concepção, essa conexão é possível por meio de algumas coisas muito básicas, como a matemática, por exemplo.

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.