Pinacoteca do Estado/Divulgação
Pinacoteca do Estado/Divulgação

Pinacoteca mostra o mundo sem pessoas de Candida Höfer

Fotógrafa alemã é conhecida por fotografar espaços públicos vazios em todo o mundo, como a Bilbioteca Nacional e o Gabinete Real de Leitura, no Rio

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2017 | 05h00

Candida Höfer é, hoje, a fotógrafa de maior prestígio da Alemanha. Presente em todas as feiras de arte internacionais, onde uma foto sua ultrapassa frequentemente o valor de US$ 200 mil, ela estudou na Academia de Arte de Düsseldorf, entre 1972 e 1983, ao lado de outros mestres da fotografia contemporânea, como Thomas Struth. A Pinacoteca do Estado mantém aberta até maio uma exposição sua com fotos da série Räume (Espaços), que Candida começou nos anos 1980, concentrando sua atenção em espaços públicos como bibliotecas, museus e casas de ópera.

 Aos 73 anos, ela, que começou sua carreira fotografando o cotidiano de imigrantes turcos na Alemanha, em 1975, logo percebeu que era “tímida demais para se sentir à vontade como intrusa nos lares dessas pessoas”. Passou, então, a fotografar espaços públicos vazios, em que a ausência do personagem humano torna, paradoxalmente, mais forte a relação do espectador com a história desses ambientes. Candida Höfer revela como consegue essa proeza na entrevista exclusiva que concedeu ao Caderno 2.

Como na literatura de W. G. Sebald, que fez uma ficção híbrida evocando lugares que visitou e imagens aleatórias com as quais construiu uma narrativa, a senhora também estimula os espectadores a imaginar histórias quando estão diante de suas fotos. Qual o papel da literatura no seu trabalho?

Eu leio sobre os lugares que estou fotografando. Mas sou uma pessoal visual, creio, e, embora tenha tentado o cinema antes, acabei por descobrir que fotografar é o melhor meio, no meu caso, de construir imagens de forma direta. Tudo o mais é obra do espectador.

A senhora fez fotos no Brasil de igrejas barrocas e da arquitetura de Niemeyer. O que significaram esses trabalhos para a senhora, que já foi descrita como uma arqueóloga do presente?

Meu approach com esses lugares foi puramente visual. A fotografia me permite dar a cada detalhe seu justo valor enquanto apresento as relações entre eles. É uma espécie de pausa oferecida ao espectador de hoje para refletir sobre as intenções históricas dos criadores desses espaços.

O cineasta português Rui Xavier realizou um documentário sobre seu método de trabalho no filme Silent Spaces (Espaços Silenciosos). Como foi essa experiência de ser observada durante dois anos, a senhora que é uma pessoa tímida?

Rui Xavier e Bruno Gonçalves trabalharam de uma maneira tão discreta desde o começo que frequentemente perguntava, ao deixar o local fotografado: “Onde estão eles? Por que não vêm?”. Eles são muito experientes e sabem como se tornar invisíveis. Não vejo o filme como um documentário. É mais uma impressão de um artista sobre outro. É por isso que eu gosto tanto do resultado.

Peter Brook, o diretor teatral britânico, escreveu O Espaço Vazio só para provar que podia transformar esse vazio num palco. Em que medida essa experiência foi útil na formulação de sua teoria sobre o impacto do ambiente sobre as pessoas que causam os espaços públicos?

Pela minha experiência, há vários aspectos que nos aproximam, mas, ao contrário do palco vazio, os espaços vazios que fotografo são lugares raramente “vazios”, que, paradoxalmente, se tornam mais visíveis com a ausência de pessoas. O que as pessoas fazem com o espaço (e o que o espaço faz com elas) se torna mais visível com essa ausência. Então, pode haver aí uma correspondência com o trabalho de Brook – essa tendência humana de preencher espaços vazios com gente imaginária (e histórias), assim como animar objetos que nos rodeiam.

A senhora teve como mentores Bernd e Hilla Becher. Quais foram os outros fotógrafos que adotou como referência quando estudava fotografia em Düsseldorf? August Sander e os pioneiros da Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit) a influenciaram no começo, digo, quando realizou a série dos imigrantes turcos na Alemanha, nos anos 1970?

Não conscientemente, se me lembro bem. Com Bernd e Hilla Becher discutíamos basicamente arte e pouco falávamos de fotografia – ou melhor, não víamos a fotografia como algo à parte. Nesse ambiente aprendi a olhar e ficar ligada no que via – e uma das coisas que mais me impressionaram foi como os imigrantes turcos estavam mudando a vida em nossas cidades alemãs, o que me levou a fazer a série sobre o modo como decoravam suas casas, suas lojas, despertando meu interesse por interiores.

A senhora repetiria, hoje, essa experiência com os refugiados que a Alemanha recebeu, investigando como eles vivem, e não apenas as formas e estruturas dos espaços que habitam?

Como acabei de observar, e que você descreveu corretamente, o que me conduziu à realização da série foi o aspecto visual. Com os turcos descobri que era muito tímida e me sentia uma intrusa em suas casas, embora eles fossem sempre gentis e receptivos. Isso explica por que me sinto mais à vontade em espaços vazios. É por meio deles que convido o espectador a refletir sobre o histórico e o social. Há outros artistas que fazem isso fotografando pessoas.

A senhora parece à vontade com câmeras digitais; diz que é ótimo controlar as cores. Como imagina o futuro da fotografia?

Vejo de duas formas: as máquinas continuarão a ser aprimoradas para facilitar nosso serviço. Por outro lado, as dúvidas sobre o que fazer com essas câmeras e a complexidade dos processos fotográficos vão crescer. Não sou uma pessoa particularmente interessada no lado tecnológico da fotografia. Ela não me amedronta, mas tento manter distância. Sempre haverá outro meio de produzir imagens.

 

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