Isabella Matheus/Pinacoteca do Estado
Isabella Matheus/Pinacoteca do Estado

Pinacoteca abre retrospectiva de Di Cavalcanti

Exposição reúne 200 obras do pintor modernista, entre desenhos, gravuras e pinturas, algumas vindas de fora, como 'Cena de Rua', de 1931, que pertence ao acervo do Malba de Buenos Aires

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2017 | 06h00

Há exatamente um século, em 1917, o pintor, desenhista e ilustrador carioca Di Cavalcanti (1897-1976), dividia seu tempo entre a redação do Estado, onde trabalhava como revisor, e a montagem de sua primeira exposição individual em São Paulo. A partir de amanhã, dia 2, trabalhos desse período estarão na retrospectiva que a Pinacoteca do Estado abre com 200 obras do artista, entre desenhos, pinturas e ilustrações desse que foi um dos idealizadores da Semana de Arte de 1922 e colocou o Brasil na rota dos modernos. A exposição, patrocinada pelo Bradesco e apropriadamente chamada No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 Anos, começa justamente com uma ilustração feita em 1917 para uma revista.

Há muitas raridades – algumas só vistas nas casas de seus proprietários – na retrospectiva organizada pelo curador José Augusto Ribeiro para marcar os 120 anos de nascimento do “pintor das mulatas”, como ficou conhecido Di Cavalcanti. Há, claro, algumas delas na exposição, mas o foco é outro, segundo o curador: investigar como o artista, que viveu em Paris nos anos 1920, assimilou a influência dos modernistas europeus (de Matisse a Picasso, passando por Georg Grosz e companhia) e depois declarou sua independência (ideológica e artística) ao descobrir na zona portuária carioca, no mangue, nas favelas e principalmente nos bordéis os personagens que iriam povoar sua obra.

A exposição da Pinacoteca torna possível acompanhar as etapas mais importantes da trajetória do artista por meio das ilustrações, desenhos, óleos e revistas concebidos por Di Cavalcanti, que começou sua carreira em 1914, publicando sua primeira caricatura na revista Fon-Fon. A ideia é reabilitar um artista multidisciplinar com frequência reduzido ao estereótipo de pintor monotemático, justamente o das “mulatas”. No entanto, argumenta o curador, “Di Cavalcanti foi um mobilizador cultural e teve uma presença no modernismo brasileiro tão importante como Tarsila”. Prova disso é que o Malba, museu argentino onde repousa o Abaporu, de Tarsila, emprestou um dos melhores quadros da exposição, Cena de Rua, de 1931, pintado justamente no ano em que Di Cavalcanti participou do histórico Salão Revolucionário, três anos depois de se filiar ao Partido Comunista (PCB).

Também integra a retrospectiva Devaneio (Rêverie, 1927), uma das telas que Di Cavalcanti mostrou nesse salão, do qual participaram os principais nomes da primeira geração de modernistas (Tarsila, Anita Malfatti, Brecheret). Devaneio, reproduzida abaixo ao lado do curador José Augusto Ribeiro, foi pintada um ano depois da volta de Di Cavalcanti a São Paulo, após uma temporada parisiense em que frequentou a Academia Ranson e conheceu pintores (Picasso, Matisse) e escritores (André Gide, representado na mostra num pequeno desenho).

Em Devaneio, a apropriação de elementos da vanguarda europeia é evidente, mas o reencontro com as raízes brasileiras nos anos 1930 interessou mais ao curador, que deu grande atenção às cenas de subúrbio, seguindo o caminho teórico do crítico Mário Pedrosa, que considerava Di Cavalcanti um pioneiro, o pintor que trouxe para a tela a gente dos morros cariocas – “o primeiro a sentir que, entre o interior, a roça, o sertão e avenida, o ‘centro civilizado’, havia uma zona de mediação – o subúrbio”.

O curador confirma a suspeita de Pedrosa, de que Di Cavalcanti descobrira um tipo que não era caipira nem cosmopolita, mas um ser em mutação. A curadoria carregou na escolha de obras que reinterpretam a linguagem da vanguarda europeia num registro local. Há, por exemplo, reminiscências do pré-rafaelita inglês Aubrey Beardsley (1872-1898) numa curiosa ilustração que fez para A Balada do Enforcado, do escritor Oscar Wilde (na mostra), ou do expressionista Georg Grosz (1893-1959) nos retratos femininos pintados nos anos 1930 – e o óleo Mulheres na Janela (1926) é um exemplo dessa influência, para não falar do icônico As Cinco Moças de Guaratinguetá (1930), evidente apropriação do tema e da construção de Les Demoiselles d’Avignon (1907) de Picasso.

Se as moças da tela de Picasso estavam longe de ser de família, as de Di Cavalcanti nem sabiam o que significava esse núcleo. Formam, é certo, uma família alternativa – há casais de lésbicas de pernas entrelaçadas, confraternização de prostitutas e travestis e garotas de bordel penteando uma colega enquanto clientes aguardam na antessala do prostíbulo. “Há um erotismo declarado na obra de Di Cavalcanti, particularmente nas cenas de cabaré com corpos roliços e figuras robustas, mas também um lado intimista, lírico, nessa obra”, observa o curador.

Na segunda sala da mostra, por exemplo, o pintor retrata cenas idílicas de trabalhadores em descanso – camponeses, pescadores – em que a paisagem de fundo remete a uma representação espacial típica da pintura metafísica italiana. Porém, é na vigorosa crítica social, produzida com as reminiscências do expressionista Georg Grosz, que Di Cavalcanti se revela, em particular no álbum Realidade Brasileira (1930) com 12 pranchas em que banqueiros com charutos aparecem ao lado de subproletários urbanos.

Di Cavalcanti não se coloca à parte da geleia geral brasileira. Numa das telas que indica a porta de saída da exposição, ele aparece num tímido autorretrato dentro de uma cena de bordel – isso em 1968, o ano em que todos vivemos em perigo. As formas simplificadas e as cores quentes, em particular o vermelho (ele adorava Ticiano), caracterizam essa descida ao Brasil suburbano em que se destaca uma gigantesca versão de Samba, uma tela de 1927 hoje propriedade da uruguaia galeria Sur. O centro da obra é ocupado por uma mulata nua, representação alegórica da tropical sensualidade pagã. O colonizador português vestiu. Di Cavalcanti despiu.

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