Persépolis retrata o Irã em preto-e-branco

Animação de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud baseia-se em experiências da autora na terra dos aiatolás

O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Cannes, em maio - dividido com Luz Silenciosa, do mexicano Carlos Reygadas -, Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, baseia-se no álbum editado no Brasil pela Companhia das Letras. Trata-se de uma rara animação em preto-e-branco, cujo traço e conteúdo diferem bastante dos demais desenhos, sejam da Disney, da Pixar ou da Sony (como Tá Dando Onda, em cartaz) a que o espectador brasileiro está acostumado. Filha de uma família de intelectuais iranianos, Marjane foi enviada pelos pais para a Europa, quando tinha 14 anos. Eles temiam que as idéias libertárias da filha se chocasse com o fundamentalismo triunfante instalado no país, a partir da revolução dos aiatolás. Na França, Marjane criou sua graphic novel baseada em experiências de juventude e, depois, confrontada com a necessidade de se adaptar ao estilo ocidental, nas capitais em que viveu (Viena e Paris). Persépolis circulou clandestinamente no Irã. Não há como falar sobre o filme sem abordar a questão política, que é essencial no trabalho de Marjane Satrapi. Ela divide o crédito de direção com o animador francês Vincent Paronnaud. Seu memorialismo, associado ao que os críticos definem como a característica mais marcante do trabalho de Paronnaud - o humor macabro -, resultou num trabalho tecnicamente impecável e inovador. A autora debruça-se sobre seus verdes anos e constrói cenas como aquela que mostra a polícia dos aiatolás invadindo sua casa em busca de bebidas alcoólicas. O uso obrigatório do véu, as restrições à liberdade, a importância secundária conferida à mulher, tudo isso vai sendo tratado de forma cortante. Não há como não avalizar essa visão de uma mulher que sofreu na pele todos os problemas decorrentes de uma teocracia que se opõe à modernidade, como forma de resguardar a tradição. Quase toda a crítica, independentemente de tendências - Cahiers du Cinéma, Positif, Libération, Figaro -, elogiou o belo trabalho de Marjane e Paronnaud, mas Persépolis não foi uma unanimidade em Cannes. Sua visão da França, onde a heroína reconstrói a vida, foi vista com restrições. A França, que abrigou Khomeini, de onde ele saiu para instituir no Irã a república dos aiatolás, é hoje um país que olha com desconfiança o outro. Imigrantes são hostilizados. Neste quadro, a experiência real de Marjane parece idealizada em Persépolis. Serviço Cinesesc: Hoje, às 21h10. Cinemateca: Amanhã, às 15h10. Cotação: Regular

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