Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Paulo Pasta usa tecnologia digital para pintar com novas cores

Artista abre nesta terça, 7, uma exposição individual na Galeria Carbono, exibindo 15 impressões digitais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 Março 2017 | 04h00

Há seis anos, o pintor Paulo Pasta escreveu em sua tese de doutorado que, “se executasse algo em que tivesse pensado, e esse algo saísse exatamente igual ao concebido, certamente não trabalharia mais”. Em suma: Pasta gosta do projeto, mas gosta ainda mais “da maneira pela qual o trabalho constitui um afastamento dele”. Por coerência, as obras de sua exposição Seis Variações, que a Galeria Carbono abre hoje, 7, às 19h30, não poderiam ser mais diferentes dos modelos originais que concebeu. Pela primeira vez, o pintor se deixa levar pelo descontrole da cor, entregando-se ao computador e retendo sua vontade de ordenamento.

Pasta já disse que poderia afirmar com precisão a paleta cromática de alguns pintores com os quais tem profunda afinidade, como Bonnard, Richard Diebenkorn ou Brice Marden, mas teria dificuldades para falar da própria paleta. Com os novos trabalhos agora expostos, feitos a partir de seis diferentes matrizes (pinturas a óleo), essa tarefa torna-se ainda mais complexa. Pasta usou o computador para alterar as cores originais das pinturas e simular diferentes composições cromáticas em gravuras impressas digitalmente – em papel Fine Art (Canson Etching Rag) com 11 pigmentos minerais. O resultado é um assombro, um cruzamento híbrido entre artesania e alta tecnologia que dota essas pinturas de rara capacidade cinética. 

Pasta lembra, com efeito, o impacto provocado pelo primeiro filme em cores de Antonioni, O Deserto Vermelho (Il Deserto Rosso, 1964). Antonioni, na ocasião, afirmou que queria “pintar” o filme como se pinta uma tela, inventando relações entre as cores para se libertar da limitação naturalista. O cineasta italiano chegou a pintar árvores de branco e a grama para criar sua Ravena particular, amalgamando personagens e ambiente numa composição cromática inaudita. De modo similar, a experiência digital de Pasta subverteu a trama pictórica de suas “colunas” e “cruzes” originais para revelar novas articulações dessas formas com as variações cromáticas fornecidas pela infindável paleta digital. Não se trata, observa o pintor, de uma troca. Ele, definitivamente, não abandonou a pintura a óleo.

“Quando preparava minha exposição na embaixada do Brasil em Roma, em setembro passado, acompanhei as provas de cor do catálogo e fiquei impressionado como as pinturas mudavam com a manipulação digital, o que me levou a estas impressões”, conta. Embora tenha sido associado, nos anos 1990, ao monocromatismo, Pasta jamais se considerou tão econômico assim em matéria de cor. Sua evasão da metafísica, que caracterizou as primeiras pinturas, se deu há pouco mais de 20 anos, quando partiu para um confronto afirmativo com o presente, que fez surgir formas de colunas, lápis e garrafas, aceitando os “contrastes presentes no real”. Em 2004 surgiram as vigas (pois sugeriam vigas de construção), também retrabalhadas na atual exposição. Quando uma das vigas desceu, a linha horizontal resultou na forma da cruz que, embora associada a um signo religioso, não tem esse caráter na obra de Pasta. Elas também estão presentes na atual exposição.

“Vejo essa experiência digital como uma retroalimentação para a minha pintura”, resume. Além de ampliar seu repertório, o computador lhe forneceu ainda um tema para reflexão semelhante ao embate de Cézanne com a instabilidade da luz da montanha Sainte-Victoire. A exatidão com que cada pixel pode especificar sua cor é assustadora, estabelecendo uma ordem no desarranjo sensorial impressionista. Ver uma imagem original se transformar inúmeras vezes pelas infinitas variações cromáticas do meio digital reforça ainda mais o conflito entre pintura e desenho – ou seja, entre o sensual e o racional – que caracteriza a arte de Pasta, sempre inquieto e aberto a novas experiências – a ponto de fazer uma exposição só de paisagens.

O êxito da mostra – tanto crítico como comercial – levou-o a pensar na possibilidade de ampliar seu público. Nessa mesma exposição, ele apresentava uma grande pintura de parede (abstrata) que podia ser comprada como um múltiplo, em três tamanhos, executado na casa do interessado. As impressões da atual exposição têm o mesmo caráter: elas custam cerca de 10% do valor de uma pintura a óleo do artista. 

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