Adagp, Paris/2016
Adagp, Paris/2016

Paris recebe o melhor do muralismo mexicano de Siqueiros e companhia

Mais de 200 obras estão na mostra 'México 1900 – 1950’, em cartaz no Grand Palais até janeiro de 2017

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2016 | 06h00

PARIS - Paris oferece à arte mexicana a sua maior exposição desde 1953. Com mais de 200 obras, México 1900 – 1950 (até 23 de janeiro de 2017 no Grand Palais), testemunha a fervilhante criatividade daquele país a partir de sua independência em 1821, primórdio da Revolução. Sobressai-se o muralismo de conteúdo político e social, e outras procuras estéticas sobre identidade, cujo principal propósito foi englobar as diferentes populações do novo Estado, assegurando a sua coesão.

Para explicar o modernismo, conta-se como Braque, Picasso ou Kandinski foram fascinados pela arte primitiva – no caso, a africana. Ora, se existe um país que pode fazer entender esse fascínio, com a civilização pré-colombiana, seus deuses, ritos e imagens é o México. Tudo que foi rejeitado pelo colonizador espanhol é a base do pensamento progressista na arte do século passado naquele país, e isso pode ser visto claramente na exposição. 

Mais do que um relato cronológico tradicional, a mostra privilegia os temas históricos, retratos, pintura de gênero e de toda sorte, para afirmar a existência de um povo dentro da sua diversidade. A primeira parte nos faz descobrir como essa modernidade tão singular extraiu a sua inspiração do imaginário coletivo e das tradições populares e como as correntes internacionais vêm contrabalançar esta ancoragem. Na virada do século 19, o simbolismo e “decadentismo” europeus encontram os seus equivalentes, como nos quadros de Angel Zárraga. Mas os preceitos ideológicos desenvolvidos desde a restauração da República, em 1867, continuam até mesmo no academismo da Escola Mexicana de Pintura, a partir dos anos 1920.

Pouco a pouco, no contato com a vanguarda parisiense das primeiras décadas do século 20, as experimentações estéticas dos artistas mexicanos, tendo Diego Rivera como pioneiro, se desenvolvem. Ele e Zárraga revisitam o cubismo à maneira deles. Mas a segunda parte da exposição se aplica mais em mostrar a criação artística dentro dos paradigmas revolucionários, por meio de suas principais expressões: a pintura de cavalete, o desenho e o muralismo. Ela sublinha a maneira como a Revolução mexicana de 1910, conflito armado de rara violência, trouxe com ela a planificação de um novo projeto artístico nacional.

Da mesma forma como a Igreja educava os iletrados na Idade média com a encenação religiosa e as narrativas em vitrais, o objetivo dessa pintura “monumentalizada” sobre muros era dar a cada indivíduo do povo mexicano uma percepção da história, por meio de imagens ingênuas acessíveis a todos, mesmo os analfabetos. Expostos em lugares públicos, como o Palácio Nacional, os murais ilustravam invariavelmente a glória da revolução mexicana e das classes sociais a ela associadas, como os camponeses e proletários.

A exposição dá ênfase, é claro, aos “três grandes”, e mais influentes: José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera que participaram ativamente do rito do Estado mexicano. A obra do primeiro ilustra a violência dos eventos que o país atravessava. A de Siqueiros, mesmo sob o fascínio do progresso e das máquinas, privilegia a pintura mural, pois ele via nela uma arte “pública e popular”. Rivera, que voltou ao México em 1921, foi o que mais conheceu de perto as vanguardas europeias, veiculando a imagem coletiva e monumental do povo mexicano índio e mestiço a um futuro de progresso e grandeza, e a um sentimento de orgulho nacional.

O Estado passava encomendas e mais encomendas aos três, enquanto que o “ímpeto machista” deles tinha outro efeito: encorajava as mulheres a ocuparem igualmente um lugar na cena artística. Assim, estão igualmente, e muito bem representados, os movimentos femininos que, com artistas, mecenas e outras figuras singulares como Frida Kahlo, Nahui Olin, Rosa Rolanda ou as fotógrafas Tina Modotti e Lola Álvarez Bravo, se afirmam na cena social e artística mexicana. A obra de Olin é, sem dúvida a que desperta mais curiosidade. Modelo, ela escandaliza, posando nua para pintores e fotógrafos mexicanos famosos. O resultado é menos sofrido e mais voluptuoso do que as pinturas de Khalo. 

A terceira parte da mostra é dedicada a uma descoberta. Como a todos os períodos carregados de ideologias se sucedem outros que buscam uma alternativa aos discursos externos à arte (logo veremos o mesmo fenômeno na produção contemporânea das próximas bienais), o México não fugiu à regra. São revelados artistas abstracionistas e figurativos à margem da arte nacionalista e das convicções filosóficas, sociais e políticas da Revolução, e nem por isso de menor interesse, como Cueto, Murillo, Zayas e Tamayo. Há também vários vídeos, filmes e fotografia. 

Encontro de Dois Mundos: Hibridação é o nome do quarto segmento. Nele encontramos o resultado da influência recíproca sofrida por mexicanos e americanos nos movimentos de vanguarda de ambos países. A notoriedade adquirida pelos muralistas estimulou inúmeros estrangeiros a se instalar no México.

Aqui o percurso se conclui com o desaparecimento de Orozco e a chegada do escultor abstrato Mathias Goeritz à capital mexicana, em 1949, o que marca também o fim do muralismo. Este vasto panorama de uma produção excepcional reafirma um paradoxo: a ligação estreita da arte mexicana com as vanguardas e códigos estéticos internacionais e, de modo simultâneo, a sua incrível singularidade, potência e estranheza que desafia qualquer olhar. Mesmo o latino-americano.

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