Paraíso resolve conflitos à bala: falta de confiança na Justiça?

Espelho do Brasil, só Bebel saiu ilesa numa trama que puniu vilões com a morte

Crítica Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

01 Outubro 2007 | 00h00

Basta ver um último capítulo de novela das oito para perceber o quanto o Brasil mudou desde que Gilberto Braga finalizou sua Vale Tudo com um Reginaldo Farias dando uma banana para o Cristo Redentor, em 1989. É capaz que o telespectador de hoje não engula tanto a impunidade como antes e, daí, prefira ver uma justiça mais pesada na TV para quem é mau e corrompido. Entram nesta lista de Paraíso Tropical, do mesmo Gilberto Braga e que terminou na sexta-feira, os personagens Taís (Alessandra Negrini), Olavo (Wagner Moura), Jáder (Chico Diaz) e Ivan (Bruno Glagliasso). A primeira já havia sido punida há meses, agora se sabe que por causa de uma ganância desmedida. Os outros foram eliminados à bala no fim da trama, rocambolesca à la Sidney Sheldon, com direito a bebês abandonados que passam de bastardos a herdeiros, no trocar de blocos. Parece que só a morte é capaz de punir um Olavo daqueles, a cadeia poderia não convencer a audiência. Não deve ser um acaso o fato de que a simpática Bebel (Camila Pitanga) tenha sido a única vigarista de primeiro time que não recebeu um castigo mas, pelo contrário, um "anjo de cueca maneira" que lhe deu "situação". Há alguns dias, dizia-se que ninguém queria saber quem matou a Taís, mas como terminaria a cômica prostituta, realmente uma das personagens mais surpreendentes da TV nos últimos tempos, tanto pela atuação de Camila quanto pelo texto de Braga. Bebel não encerrou como num conto de fadas, não terminou com seu amor, Olavo. Perdeu o bebê que esperava, gerado para servir como massa de manobra para mais um golpe, e chegou a entrar num camburão, em cena desnecessariamente dantesca. Tudo, para reaparecer depois como testemunha de uma CPI. Ao que parece, o senador que a sustenta faz isso com a ajuda de um usineiro - Bebel é bancada pela usina que, com certeza, tira alguma vantagem no Senado, vantagem paga às nossas custas. Então, em última análise, Bebel é paga por todos nós. E nós rimos dela na CPI, compramos a revista em que ela fará "nu artístico" e, se bobear, vamos dar audiência para o programa que ela vai ganhar na TV. Ainda bem que é ficção, ainda bem que a Bebel tem aquele sorrisão da Camila Pitanga. Perdoamos Bebel porque ela não é inteligente como Olavo, é apenas um pouco esperta. Um pouco, não muito, porque vive vacilando, e o suficiente para tirá-la da miséria do interior do Nordeste. Damos valor à batalha dela, à sua via-crúcis pelas calçadas brasileiras até o Congresso. Gostamos de Bebel porque ela é o escracho de um tipo atual e globalizado, que conseguiu misturar bem a tal libertação feminina com uma dose de ingenuidade que tem o único objetivo de conseguir um homem que lhe sustente. Quem poderia pensar mal dela? Afinal de contas, parece que ela salvou a novela. Uma novela boa, de texto primoroso, com boas cenas e ótimas sacadas, mas que escorregou em algumas atuações e não teve a audiência que merecia. Mesmo assim, ao contrário de muitas novelas boas que terminam mal, Paraíso Tropical se manteve bem e terminou melhor, como novelão clássico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.