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Paisagem brasileira é tema de exposição de Francisco Faria

Mostra na galeria Bolsa de Arte vai até 12 de novembro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2016 | 05h00

O artista curitibano Francisco Faria, aos 60 anos, criou um sistema peculiar de representar a natureza que faz lembrar o do poeta cubano Lezama Lima, um dos seus favoritos, para sintetizar sua visão de mundo. O autor de Paradiso costumava dizer que “a imagem é a realidade do mundo invisível” – e ele parece encontrar em Francisco Faria seu fiel tradutor.

Ainda que as paisagens feitas em grafite sobre papel na galeria Bolsa de Arte pareçam fotografias, elas nada têm a ver com a fidelidade do registro fotográfico. Ao contrário: são obras requintadas que esgotam todas as possibilidades técnicas, mas não resultam de um instantâneo, e sim da sobreposição de vários fragmentos de paisagens. Eles se completam como numa trama barroca, repleta de metáforas. Enfim, um paraíso invertido, em preto e branco, do qual a cor foi expulsa.

O espectador não sente falta das variações cromáticas nessas paisagens, que recorrem frequentemente à perspectiva tonal, simplesmente porque elas são exuberantes, emocionais, remetendo, em alguns casos, à perspectiva atmosférica das pinturas chinesas da dinastia Sung. Ou, em outros, à precisão científica do naturalista alemão Von Martius, que registrou a flora brasileira entre 1817 e 1820. Há, inclusive, uma série dedicada a ele na mostra, um políptico com seu nome.

Como Von Martius, Faria viajou pelo Brasil, mas não para catalogar espécimes vegetais. Ele diz que viaja para regiões como o Pantanal, retratado na exposição, não para conhecê-las, mas sobretudo para tentar entender sua estranheza. Tanto que não registra essas paisagens em fotografias. Nem faz anotações, para não se distrair. Vai gravando suas impressões e, posteriomente, no ateliê, segue a própria descrição do lugar, desenhando de acordo com as orientações sobre a mudança de rota nessas expedições.

É um método nada convencional, mas Faria sempre andou mesmo na contramão. Quando começou a expor, há 30 anos, desenhar e pintar eram dois verbos proibidos entre os contemporâneos, deslumbrados com a arte conceitual e as instalações. Hoje, mundialmente reconhecido, com prêmios e exposições na Europa e Ásia, Faria permanece fiel ao seu projeto de desenhar o mundo amalgamado à poesia e em “diálogo reflexivo com a história da paisagem” – e isso inclui desde os primeiros exercícios ocidentais do século 14 (Giotto e companhia) a Guignard, “incontornável”, segundo Faria.

A memória afetiva dessa paisagem, que Faria não quer só contemplar, mas entender, é impulsionada invariavelmente por uma trilha sonora. Para fazer esses desenhos, que exigem dedicação e método – ele chega a usar 14 tipos de grafite em um único trabalho –, o artista ouve desde composições do austríaco Anton Webern, um dos mais radicais compositores da segunda escola vienense, até o trompetista norte-americano John Hassel, precursor da world music, cujas composições, a exemplo dos desenhos de Faria, são feitas de sobreposições musicais (ele pode ser ouvido na trilha de A Última Tentação de Cristo, composta por Peter Gabriel, que mistura música oriental, europeia e africana).

“A música é o que me dá o fluxo, a memória corporal, para produzir o desenho dentro do mesmo diapasão”, compara Faria. Numa analogia com as peças musicais de Webern, o desenhista brasileiro, também reconhecido com um mestre da concisão, diz que recorre a técnicas contrapontísticas para que cada nota – traço, no caso – seja ouvida de forma clara. “Nos primeiros trabalhos feitos com a música de Webern não conseguia equilibrar as partes, elas de desestruturavam”, conta. Considerando que cada um desses desenhos exige três semanas de dedicação absoluta, é possível imaginar sua luta.

A questão do tempo é essencial para Faria, que, mais uma vez, contraria a inclinação contemporânea para as peças fáceis, anedóticas, rápidas. Tanto que toda exposição sua conta com um convidativo banco, instalado a pedido do artista: para contemplar, outro verbo expurgado pela meteórica e efêmera arte dos pós- modernos. 

Música. O uso da música dodecafônica não foi especialmente relevante para Webern quando o austríaco começou a compor. Ele teria de amadurecer para seguir os passos de seu mentor Schoenberg. Ninguém nasce moderno. É a percepção de um mundo novo que leva músicos a experimentar timbres insólitos e redefinir técnicas. Webern foi espartano em suas escolhas musicais. Francisco Faria é igualmente espartano ao optar pelo grafite para criar uma paisagem “holística” – metafísica, no limite.

A paisagem, como lembra Faria, “era um anátema nos anos 1980, quando comecei”. Não é mais. Pintores reconhecidos, como Paulo Pasta, e seu discípulo Felipe Góes, seguem por um caminho semelhante ao de Faria – tortuoso e bem diferente dos antigos paisagistas de Barbizon, no sentido que a percepção da paisagem mudou desde que a máquina fotográfica foi inventada. Em todos esses casos, porém, essa paisagem ainda tem um mediador: a história da arte. A exposição de Francisco Faria fica aberta até 12 de novembro, na Galeria Bolsa de Artes (Rua Mourato Coelho, 790, tel. 3097-9673, Vila Madalena). A entrada é franca.

FRANCISCO FARIA

Bolsa de Arte. R. Mourato Coelho, 790, tel. 3097-9673. 2ª a 6ª, 10h/19h. Aos sábados, 11h/16h. Até 12/11. Grátis. 

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