Ousadia que pode levar à renovação

Filme ao vivo, no cinema; teatro filmado, na internet - questões técnicas que, claro, interferem na estética. Por serem novidade atraem interesse e curiosidade. Mas afinal o que esperar em termos de linguagem e conteúdo do longa-metragem Fluidos? E do Teatro para Alguém? A reportagem do Estado acompanhou o ensaio de algumas cenas do filme numa lanchonete e conversou com o diretor Alexandre Carvalho. Já o teatro pela internet idealizado por Renata Jesion e Nelson Kao envolve muitos autores, atrizes e diretores. São várias peças em repertório e ainda ?seriados?, entre eles, atração principal, uma ?miniemsérie? criada por Lourenço Mutarelli que inicia agora sua 2ª temporada, com vários episódios no ar. Fluidos tem roteiro com histórias que se entrecruzam divididas em três núcleos. Um deles aborda a amizade entre uma mulher casada, mas solitária (Silvia Pecegueiro), e uma transexual (Tânia Granussi). No outro, um jovem casal (Laerte Késsimos e Amanda Banffy) tem o fetiche de filmar seu namoro pelo celular e no terceiro núcleo uma jornalista desses programas mundo-cão convence um rapaz que tem um problema anatômico a expor seu drama em troca de uma cirurgia. "O roteiro aponta para a fugacidade das relações contemporâneas, a dificuldade de aprofundar e sedimentar afetos", diz Carvalho. Difícil para olhos leigos ver uma gravação e prever o efeito na tela, mas as atuações nas cenas entre a jornalista (Tatiana Eivazian)e o rapaz (Gus Stevaux) levam a esperar um bom filme. Curiosamente, os seis atores do elenco têm formação teatral em escolas como Célia Helena, ECA-USP e Indac. A transexual Tânia Granussi formou-se em direção pela Unicamp e assina a peça Um Experimento no Purgatório, baseada em Machado de Assis, em cartaz no Ágora. A julgar pelo ensaio, Fluidos pode oferecer mais que mera curiosidade técnica. São muitas as facetas do Teatro para Alguém, cujos idealizadores, o casal Kao e Renata, literalmente moram na casa-palco, ele fotógrafo, ela atriz, diretora e dramaturga. "A casa virtual tem diferentes cômodos com características muito particulares", diz Renata. Na sala principal é exibida a ?série? Corpo Estranho, criada por Mutarelli, que tem uma linha estética própria, diferente das peças do sótão, de autores como Bortolotto ou Sérgio Roveri. Por exemplo, nas séries a casa toda é set, enquanto o teatro do sótão é filmado na sala-palco e em plano-sequência. Liberdade para experimentar é condição para que a arte, seja ela qual for, se renove. Só a possibilidade de errar muito leva ao grande acerto e sem dúvida o risco é qualidade intrínseca a esse teatro virtual, de estética ainda sem definição, aberta a discussões no próprio blog do ?banheiro? da casa. "São talentosos os autores que escrevem telenovelas, mas o formato se esgotou, eles sabem disso, só não encontram a saída. Aqui a gente cria com muita liberdade, pode tudo, não tem censura", diz Renata. Numa aparente contradição, a internet pode fazer da criação subterrânea um sucesso de público. "A rede é democrática."

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

02 Maio 2009 | 00h00

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