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Ousadia e refinamento se destacam em análise de mostra de Volpi

Obras do artista estão em mostra no Museu de Arte Moderna e revelam intuição e vigor

Olívio Tavares de Araújo/ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S. Paulo

11 Julho 2016 | 05h00

Três leituras coexistem na atual exposição de Alfredo Volpi (1896-1988) no Museu de Arte Moderna. Primeiro, um conjunto de mais de 70 trabalhos contendo a beleza habitual do mestre, organizada, colorida e para cima, encarnando a arte como fonte de alegria. Segundo, uma visão diferente, de vez que só há obras pequenas, algumas telas, mas, sobretudo, pinturas em cartão, desenvolvidas ao longo de mais de meio século. Terceiro, um exame profundo e enriquecedor, uma incursão no terreno da estética e da psicologia da arte, fértil para a compreensão da obra do próprio Volpi como para a da criação artística em geral. Por mais variados que se revelem seus respectivos resultados, é certo que os processos dos artistas contêm mecanismos comuns a todos, e o que se aprende num ilumina e potencia o que se conhece sobre o outro.

O Volpi final, por assim dizer – o das telas que mais circulam no mercado, o que a partir da década de 1960 começou a ser chamado de o maior pintor brasileiro vivo –, foi um artista com um escopo determinado. Sem ser, de maneira alguma, cerebral nem intelectualizado, passou seus últimos 20 anos a desenvolver infinitas permutações de cor dentro de um número limitado de estruturas geométricas, num projeto apenas intuitivo, mas tão rigoroso quanto o do alemão americano Josef Albers, em suas séries de “homenagens ao quadrado”. Aparentemente figurativa, sua pintura já não tratava de abordar ou sequer se referir a qualquer tema, ao que ele chamava, meio pejorativamente, de “assunto”. Suas mais famosas composições ficaram sendo as “fachadas” e as “bandeirinhas”, assim denominadas porque se parecem, de fato, com as ornamentações juninas e delas derivaram. No entanto, o próprio pintor assegurava: “Eu não pinto bandeirinha. Quem pinta bandeirinha é o Pennacchi”.

De fato, nos quadros de seu velho companheiro do Grupo Santa Helena Fulvio Pennacchi – pintor figurativo no sentido tradicional –, elas são a representação de bandeirinhas, junto com casinhas, igrejinhas, montanhas, céus azulinos com nuvens de algodão, tudo integrando uma legítima paisagem. Em Volpi, não. As telas ditas de bandeirinhas constituem, a rigor, apenas amplas e ritmadas superfícies com quadrados e triângulos de cor, uns embutidos nos outros. Não há acidentes, acessórios, não há linha do horizonte. Derivadas de paisagens mostrando casario simples, sobretudo do litoral paulista, também as fachadas geometrizaram e radicalizaram a arquitetura, até a tornarem puros signos feitos de retângulos e faixas. Depois de 1960, as bandeirinhas e as fachadas são, na essência, pintura abstrata. Como fenômeno pictórico, bastam-se assim: imagem autônoma. Os títulos se mantêm por analogia e comodidade.

Mas é claro que para chegar às estruturas escolhidas, às composições que iria repetir em cores diversas, Volpi tinha que criá-las. É aí que entram em cena as obras/estudos desta exposição. Neles se revelam as primeiras ideias, as buscas do dia a dia, a oficina de invenção de formas, que é vastíssima. Nem poderia ser de outro jeito, considerando-se a inteligência global da obra. Na mesma medida em que não era cerebral e sim intuitivo, Volpi evidentemente possuía enormes recursos racionais e intelectuais. O fato de que falasse pouquíssimo e com sotaque – comendo, por exemplo, o s final dos plurais em português (fora alfabetizado em italiano) –, poderia sugerir erradamente que fosse rude. Nada disso. Possuía uma sensibilidade clarividente, refinada e extensa.

O Volpi que salta dos estudos é inesperado, mais ousado, mais variado, mais gárrulo do que o dos quadros finais. Raramente, podem até surgir formas que nem parecem dele, respostas circunstanciais a estilos/estímulos do momento, como a abstração informal dos anos 1960. Mas as composições que elege e passam à etapa seguinte da criação, tornando-se permanentes, acabam sendo as mais coerentes dentro da trajetória, e mais simples, mais contidas, estáveis – numa palavra: mais clássicas. Depois de às vezes (nem sempre) retestadas em um ou dois quadros grandes, as soluções menos límpidas logo são abandonadas. É uma importante lição que numerosos gênios nos legam. Acontece também, por exemplo, com Beethoven. Seus cadernos de anotações revelam ideias musicais nascendo complicadas, que no correr de anos vão-se decantando até alcançarem equilíbrio e fluência absolutos. Assim como a Volpi, a ordem se-lhes impõe como horizonte.

*OLÍVIO TAVARES DE ARAÚJO É CRÍTICO DE ARTE, CURADOR, DESENHISTA E ESCULTOR

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