Os passos que brotam da tinta no papel-arroz

Para o coreógrafo de Taiwan, a caligrafia chinesa também desperta um estado espiritual que casa bem com o palco

O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2007 | 00h00

Uma das mais aclamadas companhias de dança do oriente, a Cloud Gate Dance Theatre, está de volta ao País, desta vez para apresentar uma delicada e, ao mesmo tempo, intensa coreografia baseada na escrita chinesa - suas sombras, seus desenhos e a dança executada pelos calígrafos quando estão em ação. Wild Cursive, que estréia na quinta e fica em cartaz até domingo no Teatro Alfa, encerra uma trilogia desenvolvida pelo coreógrafo Lin Hwai-min. Cursive (2001) e Cursive II (2003), as duas primeiras partes da série, não foram ainda mostradas no Brasil (leia abaixo). O ponto em comum entre as três coreografias, e atual foco de trabalho da Cloud Gate, é o estudo das tradicionais disciplinas físicas chinesas, que incluem a meditação, as artes marciais e o Tai Chi Tao Yin, antiga forma do Chi Kung (exercício que tem como objetivo melhorar a circulação de energia pelo corpo). Os primeiros resultados a partir dessas experimentações foram Songs of the Wanderers (1994), ou Canções dos Peregrinos, e Moon Water (1998), apresentadas no Teatro Alfa em 2003 e 2004, respectivamente. ''''Acredito que os brasileiros vão apreciar Wild Cursive tanto quanto apreciaram Songs of the Wanderers e Moon Water'''', opina Hwai-min, em entrevista por e-mail ao Estado. A idéia dessa coreografia - chamada ''''selvagem'''' na tradução literal, mas no sentido de bruta, livre - nasceu a partir do fascínio do diretor pela forma com que a tinta preta ''''dança'''' no papel-arroz pelas mãos do calígrafo. ''''Sempre me encantei com a maneira frágil e fluida com que a tinta escorre pelo papel. Criam-se ricas sombras, que variam do preto intenso ao branco nebuloso.'''' E essa variação de sombras poderá ser acompanhada ao vivo pelo público. Imensas telas verticais e estreitas, todas na cor branca, feitas em papel-arroz, descem do alto do palco e, assim que tocam o chão, começam a ser cobertas por uma espessa tinta preta, que escorre lentamente de canos posicionados também no alto: desenhos involuntários e surpreendentes vão surgindo e relembram a efemeridade daquele momento. Um novo dia, um novo espetáculo, um novo desenho. ''''Transpor com harmonia e fidelidade a caligrafia para a rica dinâmica dos bailarinos e o papel em branco para o poder intenso do espaço vazio foram os meus objetivos'''', conta. Especialmente para Wild Cursive, Hwai-min também utilizou elementos do Kuang Chao, a caligrafia selvagem/livre. ''''O Kuang Chao é considerado o pináculo da estética cursiva chinesa e expõe o estado espiritual do calígrafo durante sua expressiva abstração'''', diz o coreógrafo. Cerca de 22 bailarinos são os responsáveis pela representação que sai do papel para ganhar forma na dança. Ao som de rajadas de vento, sinos de igreja, sussurros de cigarras e ondas quebrando à beira-mar, eles alternam movimentos rápidos, que exibem força e precisão, com outros vagarosos que deixam aflorar a delicadeza nascida ao pé da montanha Deusa da Misericórdia, a 40 minutos de trem do centro de Taipei, capital de Taiwan, onde funciona a sede da companhia que inspira e expira poesia. É lá onde se localiza a fonte de inspiração para todos os trabalhos da Cloud Gate e de seu braço, a Cloud Gate 2, fundada em 1999 com a intenção de incentivar novos talentos taiwaneses na dança e que hoje conta com 11 bailarinos. ''''Eu me alimento da natureza para me inspirar abundantemente. Com freqüência, consigo ouvir os sussurros das árvores, dos pássaros ou de flores chorando para nascer. Deixo-os falarem comigo e preservo essa conversa que tenho com eles.'''' O segredo do êxito da companhia revelado por Hwai-min, sem pudor. Talvez porque saiba que são poucos os capazes de fazer o mesmo.

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