Os novos passos de Möeller e Botelho

Com a sua irreverência e incorreção, Avenida Q está entre as apostas da dupla

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

05 Março 2009 | 00h00

Da noviça que ensina música aos filhos de um barão aos bonecos despudorados, que tratam de racismo e homossexualismo, o desafio sempre inspirou a trajetória dos diretores Claudio Botelho e Charles Möeller, dupla que consolidou o teatro musical de qualidade no Brasil. Com 21 trabalhos no currículo, eles se preparam para a proeza de ter sete espetáculos em cartaz ao mesmo tempo, no Rio e em São Paulo, que já recebe Beatles Num Céu de Diamantes no dia 13 e, uma semana depois, A Noviça Rebelde. "Gostamos de não ser convencionais", comenta Botelho, resumindo os saltos no escuro a que eles se habituaram. Como o premiado Avenida Q, que levou o Tony de melhor musical da Broadway de 2004 e que estreia amanhã no Rio, no Teatro Clara Nunes. Conta a história de Princeton, jovem calouro de uma universidade que chega a um bairro não muito elegante, com muitos sonhos e poucas chances. Lá, ele passa a conviver com artistas frustrados, ex-celebridades, mulheres devassas, solteironas amarguradas, orientais ranzinzas, gays com um pé fora do armário, tarados virtuais e ursinhos de pelúcia maléficos. "Logo nos primeiros minutos surgem canções como Todo Mundo É Meio Racista", conta Möeller. "Seria um espetáculo pesado não fosse um detalhe importante: os atores dividem a cena com 16 bonecos, manipulados por eles, o que alivia o impacto." Idênticos aos originais confeccionados por Rick Lyon, os bonecos vieram de Nova York e fazem lembrar os mesmos que habitavam Vila Sésamo e Muppet Show. Mas a semelhança para por aí - os seres de pano de Avenida Q fazem sexo, perdem a hora por causa da bebedeira, caçam pornografia na internet e sonham em transar com amigo do mesmo sexo. Foi essa genial solução que garantiu o sucesso de Avenida Q em Nova York e Londres, onde ainda continua em cartaz. "Em uma época regida pelo politicamente correto, o espetáculo consegue arrancar gargalhadas sobre homossexualismo, desemprego e o prazer inconfesso pelo fracasso alheio", arremata Botelho, que considera Avenida Q o lado perverso da moeda cuja face cândida é A Noviça Rebelde, clássico musical familiar que estreia no dia 20, no Teatro Alfa, com elenco novo: Saulo Vasconcelos e Francarlos Reis substituem respectivamente Herson Capri e Fernando Eiras nos papéis do Capitão Von Trapp e Max Detweiler. "Depois de contar a trajetória da irmã Maria, podíamos aproveitar o filão e montar outra história que seguisse a mesma linha, mas não teríamos a mesma empolgação", completa Möeller. O risco é alimento básico na carreira da dupla, um dos poucos pontos em comum de duas pessoas tão díspares - enquanto Botelho é responsável pela coordenação da luz e do som, Möeller cuida do cenário e dos figurinos; se o primeiro tem uma aparência mais racional, o segundo é emoção mais deslavada. "Discutimos muito mas nossas brigas se transformam em desafios", conta Möeller. E mesmo dessas desavenças surgem espetáculos de inesperado sucesso. É o caso de Beatles Num Céu de Diamantes, que estreia no dia 13, no Teatro Copa Airlines. Claudio Botelho conta que não acreditava em uma montagem apenas com canções do quarteto fantástico. "Para mim, as novas gerações não se interessavam mais por essas músicas." Charles Möeller, no entanto, apostava no eterno encanto e, na discussão, saiu vencedor. Experimental, o espetáculo conta com 11 atores e cantores que, apenas por meio das canções dos Beatles, narram um fio de história ligeiramente inspirada em Alice no País das Maravilhas. A previsão era ficar apenas um mês em cartaz no Rio, aproveitando uma brecha na programação do Sesc Copacabana, mas a paixão do público estendeu a temporada para 14 meses. "E ficaríamos mais se já não tivéssemos acertada a estreia em São Paulo", festeja Möeller. Novamente, uma aposta bem-sucedida no inusitado, o que deverá continuar com os próximos projetos. Como O Despertar da Primavera, que inicia temporada no Rio no dia 6 de agosto. Ao contrário de outras montagens estrangeiras, a de Botelho e Möeller vai envolver atores adolescentes, com a mesma idade dos personagens na trama que mostra as dificuldades da chegada da fase adulta. "Como isso implica cenas fortes, como masturbação e homossexualismo, os menores de idade terão de ser emancipados por seus pais", conta Botelho, cujo desejo de enfrentar riscos já invade outras searas - ele e Möeller estudam o convite de um famoso diretor para dirigir um musical no cinema. O repórter viajou a convite da produção GRUPO FUNDA EMPRESA PARA PRODUZIR OS GRANDES MUSICAIS A ousadia de Charles Möeller e Claudio Botelho encontra guarida na Aventura, empresa dedicada exclusivamente à montagem de espetáculos de grande porte e alto padrão. Fundada por eles, Aniela Jordan, Luiz André Calainho, Mônica Lopes, Beatriz Braga e Tina Sales, a empresa permite estabelecer uma linha de montagem de musicais de acordo com a necessidade básica da dupla. "Como todos nos conhecemos, as exigências são logo resolvidas e, com isso, ganhamos tempo e economizamos dinheiro", comenta Möeller. O primeiro grande passo da Aventura foi viabilizar a estreia agora de A Noviça Rebelde e Beatles Num Céu de Diamantes em São Paulo. TODOS OS ESPETÁCULOS DOS PARCEIROS Avenida Q (2009) Gloriosa (2008/2009) Noviça Rebelde (2008/2009) Beatles Num Céu de Diamantes (2008/2009) 7 - O Musical (2007/2008) Sassaricando (2007 a 2009) Sweet Charity (2006/2007) Ópera do Malandro em Concerto (2006) Lado a Lado com Sondheim (2005/2006) Lupicínio e Outros Amores (2004/2005) Cristal Bacharach (2004) Tudo é Jazz! (2004) Ópera do Malandro (2003 a 2006) Magdalena (2003) O Fantasma do Theatro (2003) Suburbano Coração (2002) Dia de Sol em Shangrilá (2002) Company (2001) Cole Porter - Ele Nunca Disse Que Me Amava (2000) O Abre Alas (1998) As Malvadas (1996)

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