Oásis de ilustres refugiados na 2.ª Guerra Mundial

Em Villa Air-Bel, Rosemary Sullivan fala de casarão francês que serviu de abrigo para intelectuais fugidos do nazismo

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2009 | 00h00

Na avalanche de publicações sobre a 2ª Guerra Mundial, sobretudo as de cunho memorialístico, ela sempre aparece mencionada como um verdadeiro oásis de artistas e intelectuais que fugiam de Hitler. Mas, até agora, ninguém havia contado a história completa da muita citada e pouco conhecida Villa Air-Bel. Compilando informações de depoimentos orais, relatos biográficos, cartas, diários, fotos e até relatórios clandestinos - é o que faz a escritora e poetisa canadense Rosemary Sullivan em Villa Air-Bel - 1940, uma inédita micro-história da guerra, cheia de lances dramáticos que lembram uma trama cinematográfica. Villa Air-Bel era o nome de um enorme casarão de 18 quartos, cercado de árvores centenárias, nos arredores de Marselha, que serviu de abrigo temporário para refugiados ilustres durante o ano de 1940. Quando Hitler invadiu Paris, ninguém podia sair legalmente da França dividida - ainda mais que as autoridades de Vichy tinham em mãos todas as listas negras de escritores, intelectuais e artistas que os nazistas haviam elaborado. A solução era transferir-se para Marselha - o único porto livre através do qual poderiam fugir para outro país. A cidade portuária logo ficou saturada e quase inabitável. Mas também virou sede de uma organização humanitária norte-americana, o "Comitê de Resgate de Emergência", formado graças à iniciativa de inúmeros exilados que já viviam nos Estados Unidos, como Thomas Mann, que elaborou uma lista inicial de 200 pessoas a serem retiradas da Europa, incluindo seu irmão, o escritor Heinrich Mann. Sem a atuação desse Comitê, estima-se que 2 mil pessoas não teriam saído da França e, em última análise, nunca teriam escapado dos campos nazistas e do Holocausto. Só por essa história o livro já seria extraordinário. Mas Rosemary vai muito além, reunindo minibiografias de todos os envolvidos e traçando um painel humano e comovente de jovens inteiramente devotados em ajudar pessoas perseguidas. Cada um com seus motivos e dramas pessoais. Como Varian Fry - um jornalista americano sem qualquer experiência militar -, que liderou os trabalhos do comitê, montando a mais impressionante rota clandestina de fuga para os EUA, que incluía desde uma extensa rede de cônsules estrangeiros (dispostos a fornecer passaportes falsos), até guias que conduziam os refugiados a pé, pelos Pireneus. Como a excêntrica milionária americana Mary Jayne Gold, pilotando pequenos aviões, ajudando o Comitê, primeiro com dinheiro e depois como uma das auxiliares diretas de Fry. Ou como Lisa Fittko, a mais incrível guia das montanhas - cuja única frustração foi Walter Benjamin, que se suicidou depois da travessia dos Pireneus, pouco antes que ela conseguisse conduzi-lo ao destino final. Tivesse Benjamin esperado mais algumas horas, seria muito provável que ele fosse para Air-Bel. E que companheiros Benjamin não teria naquele casarão próximo ao mar! Ainda que de forma esporádica, passaram por ali André Breton, Benjamin Péret, Victor Serge, Max Ernst, Marc Chagall, acompanhados de alguns dos seus familiares. Lá estiveram também a artista plástica Leonora Carrington, a salvadorenha Consuelo de Saint-Exupéry - mulher do escritor Saint-Exupéry - e a milionária americana Peggy Guggenheim que, além de ajudar financeiramente o grupo, manteve um tórrido romance com Max Ernst. Apesar da tensão e do temor constante das inspeções policiais, os artistas criaram um ambiente de alegria e irreverência. Breton organizava divertidos jogos surrealistas, galvanizando a todos com sua argúcia e bom humor. Apelidou Victor Serge de "exilado profissional". O que não estava longe da verdade, já que o escritor estava na lista negra dos nazistas (que o consideravam comunista), dos agentes de Stalin (que o consideravam traidor) e dos americanos (que nunca dariam visto a um ex-comunista). Quando as coisas em Air-Bel ficavam ainda mais dramáticas e o clima pesava, Breton colocava um casal de insetos copulando sobre a mesa, descrevendo em detalhes a atividade dos bichos, como um amalucado entomologista. Breton, segundo Fry, revelou-se um "líder nato, que fazia de tudo para preservar certos valores espirituais e poéticos em face da destruição e do colapso da dignidade humana". Já o anárquico fundador do surrealismo dizia que, mais modestamente, "tinha apenas a esperança de enganar a angústia da hora". O episódio mais dramático ocorreu em dezembro de 1940 quando todos os habitantes da Villa foram presos - incluindo Varian Fry - e levados a bordo do navio Sinaia. Ali passaram a noite, sob o peso de intimidantes interrogatórios, sobretudo de truculentos oficiais do governo Pétain que iam de pessoa a pessoa, perguntando: "É judeu?" Mary Jayne se recorda da sutil reposta de Victor Serge: "Por acaso, não sou." Fry só conseguiu libertar a todos à custa de subornos e ameaças diplomáticas. Mas a vida no casarão não melhorou. Vivendo com os talões de racionamento, que lhes possibilitavam apenas uma magra refeição diária, os artistas chegaram a organizar alguns leilões em fins de semana. Penduravam os quadros nas árvores e Fry assumia a função de leiloeiro. Peggy Guggenheim, afinal, é que acabava arrematando a maioria das obras. De qualquer forma, morar temporariamente na Villa Air-Bel, à espera de um visto salvador que lhes mudaria a vida, foi um momento raro, que interrompeu o perverso fluxo da correnteza de um punhado de vidas, estilhaçadas pela guerra. Lembre-se que, durante os meses que passou em Air-Bel, Breton já havia escrito sua incrível Antologia do Humor Negro. Mas é bem provável que as experiências e os sofrimentos pessoais daquela época apenas reforçaram o significado mais forte e candente da expressão "humor negro" que, ele próprio, afinal, havia inventado. E talvez tenha sido isso que o levou a assim concluir, numa carta, escrita ainda durante os meses em Air-Bel: "Creio que uma época bastante interessante pode estar começando, sob condição, é claro, de conseguirmos sobreviver a ela." Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso Villa Air-Bel - 1940 Rosemary Sullivan Tradução de Ana Deiró Rocco, 525 págs., R$ 66

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