O rock que luta contra o genocídio

Em Screamers, Carla Garapedian mostra ação política do grupo System of a Down

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Conhecida âncora da BBC e correspondente de outras emissoras de tevê (como NBC), a americana Carla Garapedian tratou de assuntos delicados como a invasão russa na Chechênia e a tentativa de golpe na Guiné Equatorial, assuntos que retratou como documentarista. Mas nada lhe provocou tamanha emoção como a realização de Screamers, que tem amanhã sua última exibição na Mostra. Trata-se da turnê da banda System of a Down que, a partir de suas performances, busca conscientizar os fãs sobre o genocídio sofrido pelo povo armênio, em 1915, atribuído ao Império Otomano, que provocou pelo menos 600 mil mortes. Uma potente união entre música e história. Acompanhe a programação completa da 31.ª Mostra ''''Não posso negar que minha herança armênia pesou na escolha do tema'''', comentou Carla ao Estado, durante sua passagem por São Paulo. ''''Foi a primeira vez que tratei de um fato histórico e, na verdade, não pensava em lidar com esse assunto que já havia sido bem documentado por outros diretores. Mas, quando conversei com o vocalista do System of a Down, Serj Tankian, que também é de origem armênia, percebi seu interesse em divulgar seu ponto de vista político.'''' Era a chave que faltava para iniciar o processo sobre um assunto delicado e ainda conturbado. A lembrança da tragédia ainda provoca mal estar na Turquia, cujo povo é acusado de, no início do século passado, ter causado tal matança. O escritor Orhan Pamuk, por exemplo, foi preso no ano passado por declarar a um jornal suíço que 1,5 milhão de armênios morreram na Turquia durante a 1ª Guerra Mundial. Alguns países, como a França, reconheceram oficialmente que se tratou de genocídio. Outros, como os Estados Unidos, ainda não tomaram tal decisão. Para não se ater apenas à turnê da banda, que se apresentou na Europa e Estados Unidos durante o período de filmagem, Carla Garapedian baseou-se também no livro A Problem from Hell: America and the Age of Genocide (Um Problema do Inferno: América e a Era do Genocídio), da ganhadora do prêmio Pulitzer Samantha Power. Foi dali que a diretora tirou o título do documentário - ''''screamers'''', no entender de Samantha, são as pessoas que denunciam ações caracterizadas como genocidas. ''''Havia ainda outro motivo'''', comenta Carla. ''''Serj me contou que, quando a banda iniciou sua carreira, muita gente dizia que eles eram muito talentosos mas, se continuassem gritando daquele jeito, talvez não conseguissem ir muito longe.'''' A documentarista lembra que o vocalista agradeceu o conselho, mas manteve a atitude no palco. ''''Quando eu o estava entrevistando, Serj me disse que aquela era a atitude certa e que, em política, todos deveríamos ser screamers (gritadores).'''' Carla confessa não ser admiradora do estilo pesado das apresentações da banda, mas foi extremamente bem recebida pelos quatro integrantes. ''''Eram de uma gentileza única, buscando facilitar meu trabalho além de sempre se preocuparem com meu conforto.'''' Screamers comprova que a intenção da documentarista se realizou plenamente. Além de exibir cenas da época do genocídio, surpreende ao revelar o grau de entendimento político dos fãs da banda - entrevistas realizadas durante a entrada do público antes dos shows mostram jovens de 15 e 16 anos discutindo não apenas sobre o genocídio armênio como outros massacres acontecidos ao longo da História. ''''Fiquei impressionada com o poder de persuasão que a banda tem ao passar sua mensagem'''', conta ela. O documentário mostra ainda como a morte dos armênios não foi um caso isolado, comprovando que genocídios são inerentes à história do homem. ''''Logo depois, durante a 2.ª Guerra Mundial, houve o Holocausto contra os judeus e, mais recentemente, os assassinatos em Ruanda'''', observa Carla. ''''Sempre dizemos ''''nunca mais'''' quando isso acontece, mas a história se repete. Assim, devemos gritar, sempre, contra isso.''''

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