O padrinho eletrônico de Alan Pauls

Autor argentino fala da amizade mantida à distância, pela internet, com Bolaño

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

O escritor argentino Alan Pauls, autor de O Passado (Cosac Naify), livro transformado em filme por Hector Babenco e que deve estrear em outubro, manteve com Roberto Bolaño uma amizade à distância, por correio eletrônico. O chileno o considerava a grande revelação da literatura argentina contemporânea e escreveu críticas sobre os livros de Pauls, que concedeu uma entrevista ao Estado falando de seu amigo internético, reproduzida a seguir. Há quatro anos Roberto Bolaño morria de um ataque hepático. Como você reagiu à notícia da morte? Continuo sem poder acreditar. Creio que é a morte mais prematura de que jamais ouvi falar... Bolaño sabia que nada perdura e duvidava até mesmo da perpetuidade literária, embora tivesse ambição e identificação com escritores como você. Você deu valor ao fato de Bolaño ter mencionado que seu primeiro texto lido por ele, O Caso Berciani, era o melhor conto da antologia Buenos Aires e sobressaia entre os de Aira, Fresán e Piglia? Foi importante para mim, porque não conhecia Bolaño quando escreveu sobre mim. Foi um elogio que parece ter vindo de outro planeta, inesperado, desinteressado, de uma generosidade inaudita, como tudo que falou depois de meu trabalho. Dele só conhecia Estrella Distante, que havia me impressionado muito. Porém, ainda não tinha consciência da verdadeira dimensão do papel de Bolaño na literatura latino-americana. Num texto de Bolaño, Ese extraño senõr Alan Pauls, ele definiu uma carta que você escreveu para ele, em que relatava uma viagem de carro com sua filha, como de uma "secura" impressionante. Como foi sua relação com o escritor? Foi uma relação à moda antiga, anacrônica. Nunca nos vimos pessoalmente. Conhecemos um ao outro pelo correio eletrônico e por meio de nossos livros, um pouco como se comunicavam os escritores do século 19. Não foi uma relação intermediada por imagens. O contato mais pessoal que tivemos foi uma chamada telefônica. Estava trabalhando no Página 12 e meu amigo Rodrigo Fresán, também colaborador do diário, me chamou de Barcelona e passou o telefone para Bolaño, que estava a seu lado. Falamos um monte de bobagens. Como não ouvia bem, não estava certo de quem estava falando, se era Fresán imitando a voz de Bolaño com sotaque chileno ou o próprio a falar de futebol, um tema em que sou completo incompetente. Perdemos contato logo depois, não me lembro bem. Foi a amizade mais fulminante que tive. Uma intimidade não pessoal, puramente literária, algo que, no entanto, ainda hoje me assombra. Quando leu Bolaño pela primeira vez? Como vê sua prosa e poesia? Li Estrella Distante, creio, em 1997 ou 1998. Fresán recomendou o livro e fiquei deslumbrado, como me deslumbrariam depois suas grandes novelas, Os Detetives Selvagens e 2666. Gosto muito do andamento da escritura de Bolaño: o modo magistral, nunca forçado, em que tem um pé na espessura mais literária e outro nas entonações e ritmos da oralidade, na conversação, na anedota. Enfim, gosto dessa prosa maior e menor encadeadas. E admiro muito seu talento para a digressão, a distração, a busca das raízes sem perder jamais de vista o tronco de sua aventura. Quanto à sua obra poética não posso me manifestar. Não sou leitor de poesia. Qual é sua opinião sobre a obsessão de Bolaño pela cultura da extrema direita na América Latina, quando fala de escritores nazistas como se fizesse uma caricatura da esquerda? Creio que Bolaño era mais obcecado pela relação entre arte e política e, em particular, pelo modo que a arte, estetizando tudo, pode transformar o signo de qualquer idéia ou projeto político. Estrella Distante é para mim um grande tratado sobre a arte como máquina de produzir ambivalências e duplos sentidos políticos. Bolaño queixava-se da carência de uma literatura humorística. Borges e Bioy Casares, dizia, escreveram os melhores livros do gênero, mas os demais escritores latinos são sempre marcados, segundo ele, por uma narrativa seca. Como você vê essa observação e como analisa o humor na literatura de Bolaño? "Humor" é demasiadamente burguês. Prefiro falar de riso em se tratando de Bolaño, essa espécie de gargalhada histórica que atravessa Os Detetives Selvagens e tinge a novela de uma melancolia incurável. Em Os Detetives Selvagens, Bolaño traça um panorama pessimista da literatura latino-americana, assim como em Noturno do Chile. Você vê equivalência entre as novelas? Minha novela preferida continua sendo Estrella Distante, mas Os Detetives Selvagens e 2666 definem un horizonte estético assombroso. Não li Noturno de Chile, mas entendo que o pessimismo de Bolaño era mais artifício polêmico que outra coisa. Além de grande escritor, Bolaño era un agitador profissional, um artista do inconformismo, um inimigo dos remansos. Prova disso foi o talento genial que demonstrou para os discursos institucionais: agradecimentos de prêmios, etc. Algum dia alguém terá de se dar ao trabalho de analisar a versão de Bolaño, polêmica e política, desse gênero que criamos destinado à sonolência. bolaño, de A a z Às vezes, vítima de irrefreáveis ataques otimistas (que lhe provocavam "alergias espantosas"), Roberto Bolaño imaginava-se confortavelmente instalado e escrevendo num castelo medieval ou num loft nova-iorquino. Em transe, esquecia sua pobre cozinha literária, vazia e sem janelas, e entregava-se ao mais despudorado desequilíbrio, imaginando-se imortal. Bem, o fato é que Bolaño morreu. Sua cozinha literária desapareceu no ar e agora tudo é silêncio. Ou quase. A seguir, algumas frases escolhidas entre as entrevistas concedidas por Bolaño ajudam a construir, de A a Z, uma nova e barulhenta cozinha literária, agora enorme como três estádios de futebol, justamente como sonhava com ela o escritor em noites delirantes. (Antonio Gonçalves Filho) Autobiografia "As únicas autobiografias interessantes, na verdade, são as biografias dos grandes policiais e assassinos (estas últimas, claro, publicadas sob pseudônimo, anonimamente ou post-mortem), porque, de alguma maneira, rompem com o modelo que determina ser o destino do ser humano respirar e deixar um dia de o fazer." Beleza "Vi beleza em todos as partes, inclusive em lugares onde evidentemente ela não se encontrava, mas também ali, na sua ausência, havia algo, um oco, um vazio infinitamente triste que testemunhava uma presença perdida e que, com seu testemunho, digamos, com sua psicofonia, voltava a tornar visível o fantasma da beleza." Crítica "Cada vez que leio críticos falando mal de mim me ponho a chorar, me arrasto pelo chão, me arranho, deixo de escrever por algum tempo, perco o apetite, fumo menos, faço esporte, saio a caminhar pela praia (que está a menos de 30 metros de minha casa) e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses: Por que eu, que nenhum mal fiz a eles?" Derrota "O ser humano está condenado de antemão à derrota sem apelação, mas é preciso lutar de cara limpa e da melhor forma possível sem pedir clemência (mesmo porque não te darão), tentando cair como um valente. Esta é a nossa vitória." Esquerda "Sempre quis ser um escritor político de esquerda, mas os escritores políticos de esquerda sempre me pareceram infames. A América Latina, entre muitas desgraças, conta com um plantel de escritores de esquerda verdadeiramente miseráveis. Quero dizer, miseráveis como escritores." Futuro "Sou o escritor latino-americano de menos futuro. Sou dos que têm mais passado, o que, no final das contas, é o que conta. Em 1962, vivia em Quilpué, a 50 metros do lugar onde estava alojada a seleção brasileira. Conheci Pelé, Garrincha e Vavá. Lembro, por exemplo, de ter cobrado um pênalti de Vavá. Esse foi meu maior feito." Guerreiro "Em minha cozinha literária ideal vive um guerreiro a quem algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam escritor. Este guerreiro está sempre lutando. Sabe que, no final, faça o que faça, será derrotado. Mesmo assim, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta seu opositor sem lhe dar trégua." Humor "Já imaginei estar ficando louco, mas me salvou o sentido do humor. Contava para mim histórias que me deixavam louco de rir ou recordava situações que me faziam rolar no chão de tanto gargalhar." Imortalidade Não sei como existem escritores que acreditam na imortalidade. Entendo que alguém possa crer na imortalidade da alma e, inclusive, posso entender os que acreditam no paraíso e no inferno, mas, quando escuto um escritor falar da imortalidade de obras literárias, tenho ganas de lhe dar umas bofetadas, como aquelas que, no cinema, alguém dá nos histéricos para que reajam, deixem de gritar e salvem suas vidas." Jovens "Todos os grandes poetas aparecem no imaginário dos leitores como adolescentes eternos, salvo dois que são os meus favoritos, Homero, o qual nos custa imaginá-lo jovem, e Borges, que escreveu seus melhores poemas na velhice." Kafka "Não me importa ser reconhecido, nem no Chile nem no estrangeiro. O narrador mais importante do século que passou se chamava Kafka e não o reconheceram na própria casa." Literatura "A literatura é uma selva em que a grande maioria dos escritores é formada por plagiários. Existem alguns jovens com voz própria, mas não sabem escrever. Então, freqüentam a universidade para aprender e, quando já sabem, não têm mais voz própria." Mecenas "Nunca tive um mecenas, jamais ganhei uma bolsa de estudos, governo algum me ofereceu dinheiro, nenhum cavalheiro ou senhora elegante sacou seu talão de cheques. Meu verdadeiro mecenas não é o diabo nem o Estado. É o vazio." Natureza "Também na natureza notamos o mal. Você já se perdeu num bosque? Em todo caso, o único mal que eticamente nos deve preocupar é o proveniente dos seres humanos, o mal que se serve da vontade e do poder, sobre o qual nós, chilenos, temos uma grande experiência." Otimismo "Por sorte, ou desgraça, todo ataque de otimismo tem um princípio e um fim. Se não tivesse fim, o ataque de otimismo se converteria em vocação política. Ou em mensagem religiosa. Daí para queimar livros seria um passo." Pátria ''''Não creio que minha pátria seja minha língua nem minha literatura. Diria que minha pátria é a minha vida, frágil, débil e insignificante. Também poderia dizer que vivo exilado como um emigrante em pátria alheia." Quadrinhos "O Super-Homem e o Homem-Aranha são meus heróis de quadrinhos favoritos ao lado de meus heróis de ficção: Julien Sorel, Drácula e Sherlock Holmes." Reencarnação "Se, depois de morto, retornasse à Terra, gostaria de voltar como um colibri, que é o menor dos pássaros, ou como a mesa de um escritor suíço, ou ainda como um réptil do deserto de Sonora." Sucesso "Não acredito no sucesso. Creio no tempo. Isso é algo tangível, ainda que não se saiba ser real ou não, mas o sucesso, não. No campo dos triunfadores se pode encontrar os seres mais miseráveis da terra e não tenho estômago para chegar lá." Trabalho "Viver sem trabalhar, para mim, é algo que se parece com a felicidade. Assim, procuro, quando possível, evitar qualquer esforço." União "União? Não, não vi muitos casais felizes. O poder e o cotidiano são dois muros em que o amor se arrebenta." Vergonha "A única novela da qual não me envergonho é Amberes, talvez porque continue ininteligível. O restante de minha obra não é de todo mal, são novelas engraçadas, mas o tempo dirá se há algo mais. A verdade é que não dou muita importância a meus livros." Wargames "Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames para computador são minhas maiores extravagâncias." Xenofobia "Não me interessa a definição de chilenidade. A natureza das fronteiras é naturalmente difusa. Creio que já temos problemas suficientes com o mistério do ser humano e suas construções mentais, isso para não falar de suas construções reais, tangíveis." Yo "Yo básicamente soy poeta (Eu sou basicamente um poeta). Comecei como poeta. Quase sempre acreditei, e continuo acreditando, que escrever prosa é de um mau gosto bestial. E digo isso a sério." Zé- Ninguém "Não há nada escrito por mim que me faça sentir seguro. A minha foi uma vida medíocre e isso sempre te salva no último minuto, ainda que, em certas ocasiões, nem isso. Vale dizer, a memória te salva, te exclui dessa turba infame de esritores medíocres que duvidam pouco e pisam forte."

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