O nazismo visto por olhos inocentes

Em O Menino do Pijama Listrado, o irlandês John Boyne conta a história de Bruno, de 9 anos, filho de um oficial de Hitler

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Desde que a escritora alemã Christa Wolf lançou há 31 anos o autobiográfico Kindheitmuster, que narra a história de uma garota criada numa família pró-nazista, não se ouvia falar de um autor interessado em contar a história do Holocausto do ponto de vista alemão. Nada comparável a livros escritos pelas próprias vítimas do nazismo, como É Isto um Homem?, de Primo Levi, mas é preciso dizer que o best seller O Menino do Pijama Listrado (Companhia das Letras, 190 págs., R$ 31), do escritor irlandês John Boyne, de 35 anos, surpreende. Nele, Boyne conta a história de um garoto de 9 anos, Bruno, filho do comandante do campo de concentração de Auschwitz, que secretamente se torna amigo de um pequeno prisioneiro judeu com a mesma idade. Bruno quer descobrir a verdadeira identidade do pai, convocado pelo próprio Führer, e aos poucos vai entendendo a realidade da Alemanha em 1942. O livro já vendeu 350 mil exemplares e foi transformado em filme pelo diretor Mark Herman (de Little Voice/ Laura, a Voz de Uma Estrela), que estréia no início de 2008. Sobre o livro, publicado em mais de 30 países, Boyne fala nesta entrevista ao Estado. Está claro que um livro sobre o Holocausto vendido como fábula e narrado pelo filho de 9 anos de um comandante nazista está destinado a provocar polêmica, lembrando as palavras do Nobel sobrevivente Eli Wiesel, que recomenda a ''''quem não esteve lá'''' que não escreva sobre o assunto. O que o levou a escrever sobre o genocídio e por que classificou seu livro de ''''fábula''''? O que me levou ao livro foi o único motivo que leva alguém a escrever : uma boa idéia. Estudei por muitos anos a literatura do Holocausto, não com o intuito de escrever uma novela ambientada na época do nazismo, mas para me educar sobre um assunto que considero tocante. Quando surgiu a idéia - e, inicialmente, essa idéia era pouco mais que a imagem de dois meninos conversando, sentados em lados diferentes de uma cerca - senti que poderia sugerir uma nova perspectiva para a literatura do gênero. Chamei-o de fábula por ser um trabalho de ficção com moral transparente. Como sabia que teria de alterar alguns aspectos da vida num campo de concentração em função da história, decidi não usar a palavra Auschwitz em nenhuma página do livro. Com isso, o livro acabou se parecendo com uma fábula, mais que com qualquer outro gênero. A inocência de Bruno, o filho do comandante nazista do campo, faz lembrar muito o ingênuo filho de Roberto Benigni no filme A Vida É Bela. Em que medida ele serviu de inspiração para criar o personagem Bruno e por que você escolheu uma alegoria histórica em vez de recontar o Holocausto segundo relatos de sobreviventes do genocídio? O filme de Benigni não inspirou meu livro de maneira nenhuma. Jamais pensei nele em qualquer estágio de produção da novela. Escolhi a alegoria histórica por sentir que, como um escritor de 30 anos, não-judeu, não poderia reproduzir a experiência dos judeus no Holocausto. Contudo, o que poderia fazer era criar um personagem como Bruno, que anda até a cerca todos os dias, olha através dela, vê pessoas e começa a questionar o que elas fazem do lado de lá. Acho que qualquer estudioso do Holocausto hoje enfrenta esse processo de tentar olhar e entender o que vê. A avó de Bruno representa a voz da razão na sociedade alemã, ao criticar o arbítrio e a prepotência do regime hitlerista, mesmo correndo riscos e colocando seu filho, um oficial nazista, em situação perigosa. Mas ela morre no meio do livro. Essa foi a forma alegórica que encontrou para dizer que milhões de pessoas foram mortas na Alemanha sob os olhos de alemães diferentes da avó de Bruno, que não fizeram o menor esforço para salvar inocentes? Queria ter no livro uma voz com autoridade moral e decência humana. A avó faz esse papel por ser o único personagem capaz de dizer, corajosamente, desafiando os demais, que as coisas andam erradas na Alemanha. Naturalmente, com seu filho sendo um membro destacado na hierarquia nazista, ela o coloca em risco e a ela própria cada vez que abre a boca. Mas a avó não liga para as conseqüências. Sabe que é mais importante não calar, pois estaria dando aprovação tácita ao genocídio. Naturalmente, sua voz é silenciada cedo na novela porque é o que acontece a essas vozes. Elas param de ser ouvidas. Leitores adultos não devem ter maiores problemas para entender todas essas metáforas ou decifrar nomes como o do Führer, que Bruno entende ser Fúria, mas é uma tarefa difícil exigir dos pequenos leitores que considerem o duplo significado desse nome. Você escreveu um livro infantil para ser lido por adultos, como O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry? Sim, inicialmente escrevi uma história para crianças, mas, após concluí-la, não vi razão para não ser lida também por adultos. Na verdade, a novela foi publicada em 30 países e classificada ora como livro adulto ora como infanto-juvenil. Temo que muitos leitores sejam realmente muito jovens para entender a conexão entre Führer e Fúria, mas, mesmo isoladamente, a palavra fúria tem uma imagem metafórica atada a ela, que considerei muito apropriada para descrever o personagem central do nazismo. Sou fã de O Pequeno Príncipe e sempre gostei de livros que escapam a classificações apressadas, do tipo literatura infanto-juvenil ou literatura para adultos. Tanto que Bruno, um explorador nato, lê A Ilha do Tesouro em meu livro. A novela de Stevenson é um desses livros que resistem à classificação, como toda a boa literatura deveria ser. A literatura do Holocausto, de modo geral, é feita do testemunho dos sobreviventes, mas você oferece uma outra perspectiva, observando Auschwitz com os olhos de uma criança inocente que, casualmente, é filho do comandante do campo. Como fez para tomar o lugar de Bruno e olhar para o horror de Auschwitz com olhos infantis? Não poderia me colocar no lugar de um judeu, o que, de resto poderia ser muito desrespeitoso. Bruno tampouco é nazista. Fica entre a vítima e o carrasco, testemunhando os fatos e participando involuntariamente deles. Queria colocá-lo perto do horror para que começasse a questionar o que se passava do outro lado da cerca. Sua amizade com Shmuel, o garoto judeu, permite que ele se torne um personagem mais decente que seu pai, pois Bruno não se importa quem ou o que é Shmuel. Ele apenas o vê como um amigo. Você parece fascinado pela idéia de manipular o tempo e a história, considerando os personagens de seus livros anteriores. Por que recontar a história de personagens conhecidos como Buffalo Bill, por exemplo? Sempre fui fascinado por história e personagens mitológicos como Buffalo Bill, o doutor Crippen (médico homeopata inglês que matou a mulher em 1910) e o capitão Bligh (oficial da Marinha britânica que enfrentou um motim a bordo). A ficção talvez ofereça uma perspectiva mais interessante que a história real sobre o que se passou, mas não é minha intenção escrever só sobre o passado. Trecho Bruno já havia lido muitos livros sobre exploradores, o suficiente para saber que nunca se sabia o que se poderia encontrar. Na maioria das vezes eles encontravam alguma coisa interessante que estava lá, cuidando da própria vida, esperando para ser descoberta (como a América). Outras vezes descobriam algo que deveriam deixar em paz (como um rato morto no fundo do armário). O menino pertencia à primeira categoria. Ele estava lá, cuidando da própria vida, esperando para ser descoberto. Bruno diminuiu o ritmo quando viu....

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