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O futurismo do italiano Fortunato Depero chega ao MAC

- Atualizado: 01 Fevereiro 2016 | 20h 25

Artista que antecipou o cromatismo pop e procedimentos da arte povera ganha mostra com 65 obras

A despeito de sua importância para o advento do movimento modernista brasileiro, o futurismo foi visto com desconfiança pela ligação de seu mentor, o poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), com o fascismo de Mussolini. O futurismo, em seu desprezo pelo passado e fixação na velocidade, marcou definitivamente a arte brasileira dos anos 1920. Há exemplos disso no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC), como o pintor e escultor Umberto Boccioni (1889-1916), o mais importante teórico do futurismo. Com a exposição Depero Futurista e Artista Global, até março, no MAC, o movimento pode ser visto por outro ângulo, o de sua ligação com a propaganda e a construção da vida moderna.

Fortunato Depero (1892-1960), um artista nascido em Rovereto, norte da Itália, aderiu ao movimento futurista em 1914, justamente quando o planeta enfrentava sua primeira guerra mundial. O fervor patriótico do artista está registrado no trabalho mais antigo da mostra, uma collage de 1915 em que Depero, simbolicamente, atira uma bomba na Áustria. No mesmo ano, ele e Giacomo Balla (1871-1958) lançaram o manifesto Reconstrução Futurista do Universo, em que defendiam a ideia da produção artística como um campo expandido. A rua seria o museu do futuro, a arte reinaria onipresente no cotidiano. Caberia ao artista idealizar móveis, tecidos e cartazes publicitários para concretizar o ideal futurista. Depero fez sua parte. 

 Obra de Fortunato Depero, artista italiano futurista que antecipou o serialismo pop de Andy Warhol, como mostra a imagem

 Obra de Fortunato Depero, artista italiano futurista que antecipou o serialismo pop de Andy Warhol, como mostra a imagem

E não foi pouco, lembra o curador da mostra, o arquiteto e historiador italiano Maurizio Scudiero, que propõe uma revisão da historiografia do futurismo italiano com a exposição de Depero. “Há dois anos, quando o Guggenheim de Nova York organizou a retrospectiva sobre o movimento, Depero ganhou projeção, sendo reconhecido como um precursor da arte pop e da arte povera”, lembra Scudiero, classificando o insurgente artista como um vanguardista avant la lettre.

O apoio dos futuristas para que a Itália entrasse na guerra, em 1915, destruindo a ordem tradicional e envolvendo todos num cenário caótico de ficção, foi decisivo para o avanço do fascismo na Itália, mas Scudiero chama a atenção para as diferenças entre Marinetti, que usou Mussolini para ingressar na Academia, e Depero, cuja ambição artística, segundo ele, era legítima. Tanto que Depero foi o único futurista, ainda de acordo com o curador, a “enfrentar aquele futuro apenas imaginado por seus colegas italianos”. 

Depero foi para Nova York em 1928, ficou fascinado pelos arranha-céus, o metrô e ainda colaborou com seu desenho publicitário na criação de capas para revistas como Vogue e Vanity Fair, também na mostra. Scudiero aponta um cartaz feito nesse mesmo ano, 1928, para a Campari, collage reeditada recentemente pela empresa de bebidas para mostrar a atualidade de Depero. “Veja, a primeira letra de Campari se parece com a figura do jogo eletrônico Pacman, que seria criado só nos anos 1980”, observa o curador, que destaca ainda a ousadia cromática do artista italiano. “Só mesmo os artistas pop teriam a coragem de usar essas cores.”

Peça publicitária desenhada em 1928 por Fortunato Depero, artista italiano futurista homenageado com uma retrospectiva no MAC

Peça publicitária desenhada em 1928 por Fortunato Depero, artista italiano futurista homenageado com uma retrospectiva no MAC

A arte pop, especialmente Andy Warhol, que passou igualmente pela publicidade, aproveitou de fato essa e outras lições de Depero. Exemplo disso é a obra Gondoleiros, de 1924/25, uma das maiores na exposição, que dialoga com o serialismo pop de Warhol. Nela, Depero emoldura a peça com um desenho de padrão matissiano, mas, no lugar do óleo, usa feltro. “Em 1921, ele já considerava que a pintura havia acabado”, diz o curador. Recorrendo a materiais menos nobres, como tecidos baratos, ele antecipou procedimentos posteriormente adotados pela arte povera nos anos 1960, para eliminar a fronteira entre a arte e o cotidiano. Além dessas obras, destaca-se na mostra o conjunto de figurinos que Depero desenhou para a ópera de Stravinski (O Rouxinol, 1916). A exposição se encerra com uma obra dos anos 1950, Íris Nuclear de Galo, que explora conceitos teóricos sobre arte “nuclear”.

DEPERO FUTURISTA E ARTISTA GLOBAL MAC

Av. Pedro Álvares Cabral, 1.301, tel. 2648-0254. 3ª a dom., 10h/18h. Grátis. Até 27/3.

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