O conto de fadas malcomportado

Stardust traz De Niro como pirata gay que sai do armário e Michelle Pfeiffer como bruxa disposta a matar para recuperar a beleza

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Uma estrela cai - a caçada começa. É bom lembrar que esta semana é a do Dia da Criança. Para festejar a data, exibidores e distribuidores estão lançando Stardust - O Mistério da Estrela, que vem se somar a outros dois filmes com Michelle Pfeiffer em cartaz nas telas de todo o Brasil. Michelle já estava em Hairspray, a versão musical do cult de John Waters, e Nunca É Tarde para Amar, comédia romântica de Amy Heckerling em que faz a coroa apaixonada por garotão. O grande mistério talvez seja tentar descobrir por que, nos últimos anos, Michelle havia nos privado de seus encantos. Ela está de volta - é o que importa. Volta com filmes que, de alguma forma, discutem a imagem feminina.   Veja trailer do filme Stardust - O mistério da estrela Há um conceito de beleza em discussão em todos esses filmes. A garota gordinha de Hairspray não é o que Michelle sonha para o sucesso de seu programa. A coroa demora para descobrir a obviedade contida no título do filme de Amy Heckerling - que nunca é tarde para amar. E a bruxa de Stardust persegue a juventude perdida, correndo atrás da estrela que precisa destruir para recuperar a beleza e virar imortal. Cada um desses filmes tem qualidades e defeitos. O mais simpático talvez seja mesmo Stardust. A distribuidora Paramount engenhosamente acrescentou uma chamada ao pôster do filme. O conto de fadas malcomportado. Desde que Bruno Betleheim fez a psicanálise dos contos de fadas, todo mundo sabe que essas histórias de fadas e bruxas, príncipes e princesas estão longe de ser ingênuas e permitem camadas de leituras. Mas é preciso um tom para torná-las atraentes para o público que, neste começo de século 21, vai ao cinema. Há todo tipo de jogos que estimulam a interatividade e o cinema já levou ao limite a estética dos efeitos especiais. Uma maneira de conquistar o público jovem é investir nesses defeitos. Outra pode ser a subversão interna dos próprios códigos. O conto de fadas ficou malcomportado. Logo na abertura de Stardust, o espectador fica sabendo da existência do Muro. Ninguém pode cruzar o muro, mas um habitante do vilarejo não apenas desobedece à regra número um como, cruzando os limites do seu mundo, vai ao outro lado para engravidar uma princesa. De cara, ele já está recebendo um embrulho, contendo um bebê - é Tristan, o herói da história. Tristan, e ele não tem o nome do herói mitológioco por acaso, apaixona-se por uma garota do vilarejo. Por amor a ela, promete trazer-lhe a estrela que caiu lá do outro lado do muro. A estrela assume a forma de mulher (e é interpretada por Claire Danes). De repente, está todo mundo caçando a estrela - Tristan para dá-la à sua amada, o aspirante ao trono para poder virar rei e Michelle, a bruxa, para voltar a ser jovem. Parecendo uma súmula de todos os contos de fadas, Stardust soma elementos de várias tramas clássicas e ainda surpreende ao mostrar Robert De Niro na pele de um pirata durão que leva a extremos os trejeitos de Jack Sparrow em Piratas do Caribe e sai do armário, assumindo que é gay, sem perder o respeito da tripulação. O resultado dessa extravagância toda é pura diversão.

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