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Museu do Prado, em Madri, enfrenta a crise investindo no essencial

Mila Trenas - EFE

08 Junho 2014 | 20h 17

Diretor da instituição, Miguel Zugaza descarta exposições em excesso, ajustando seu programa de mostras e focando no acervo

 Há 12 anos à frente do Museu do Prado, em Madri, Miguel Zugaza considera que, de alguma maneira, “a crise fez bem à instituição”. É preciso contextualizar sua afirmação. Segundo o diretor, “havia uma sobreação do museu, um excesso de atividades derivado da ampliação de seu espaço”.

A crise espanhola e a queda “tão brutal” do aporte público, indica Zugaza, “obrigaram a pensar no que é essencial, em quais são as prioridades e qual é a missão central do museu”. Nesse sentido, ele completa, o importante seria trabalhar mais em torno da coleção da instituição, o que inclui o estudo de seu acervo (com obras de Velázquez, Goya e outros mestres), restauração e difusão de suas peças. “Esta cadeia de valores é uma aposta muito estratégica”, afirma Zugaza. Ele ressalta que seria uma forma de “tomar certa distância do campeonato de exposições que estávamos celebrando”.

Entretanto, esse plano anterior ao qual o diretor do Prado se refere foi uma ação-chave no momento de “vacas magras”. “Graças a isso, fizemos todos os ajustes necessários, incluindo o programa de mostras.” Por exemplo, a realização intensa de exposições permitiu que o museu combatesse a queda de venda de ingressos e o corte de verbas públicas em 2013, conjuntura econômica que se espera que melhore a partir de 2015.

Mecenato. O aporte de benfeitores, importante, só que complementar, tem sido fundamental para a gestão da instituição museológica espanhola, até agora. Mas em termos financeiros, corresponde “à sexta parte do orçamento”, define o diretor. Ele conta que a associação Amigos do Museu do Prado reúne, atualmente, 27 mil doadores.

É um número expressivo, que contribui para se refletir sobre a futura Lei de Mecenato da Espanha, entretanto, Miguel Zugaza teme pela orientação que a legislação tomará. “Não acredito que vão mudar grandes coisas”, diz. “A única mensagem que tanto o Ministério da Fazendo quanto o de Cultura mandaram é a de que a nova lei reconhecerá as contribuições de âmbito privado ao âmbito público, que é o nosso caso”, considera.

Os doadores do Prado se beneficiam da mesma renúncia fiscal que fundações como a Mapfre e isso, na opinião do diretor do museu, “desmotiva”, uma vez que “é mais interessante para uma empresa ter a própria fundação e sua imagem como marca, gerando a própria atividade, no lugar de dar dinheiro para o Prado, onde tem que dividir essa imagem”.

Zugaza recorda que em épocas douradas, criaram-se museus, bibliotecas e instituições, mas “sob a estrutura pública”. Essa especificidade, afirma o diretor do museu, tem que ser reconhecida quando se discute a criação da Lei de Mecenato, já que “quem aporta a estrutura da cultura, que é pública, tem de ter vantagens maiores dos que patrocinarão livremente uma fundação com os próprios objetivos”.

Uma das estratégias defendidas por Zugaza é a itinerância do Prado para lugares como a Austrália, país que organiza, pela segunda vez, uma exposição aproximando a coleção do museu espanhol de públicos que “dificilmente poderiam ir a Madri”. Mas, por outro lado, não se vê o Prado abrindo sucursais da instituição em outras localidades, como o Louvre, de Paris, ou o Hermitage, da Rússia.

Bicentenário. Apesar da situação econômica, o museu não tem renunciado à compra de obras de mercado. “O difícil é que surjam para o Prado grandes oportunidades de aquisição”, afirma o diretor. Ele exemplifica que a instituição perdeu, recentemente, para outros colecionadores, quadros importantes, como Vinho na Festa de São Martín, de Bruegel, o Velho, e Oração na Horta, peça francesa do século 15.

Fala-se, desde sua nomeação, que Miguel Zugaza deve deixar seu cargo “quando não tenha nada que fazer no museu”, mas, neste momento, ele e sua equipe começam a pensar no bicentenário do Museu do Prado, em 2019. “Não temos de somente planejar as celebrações do aniversário, como também o futuro da instituição nas próximas décadas”, defende.

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