SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Museu de Arte de São Paulo passa por mudanças

Instituição pensa seu papel em meio a críticas e dívidas

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2015 | 05h00

Em outubro, quando o Masp abrir a mostra de seu acervo com as obras expostas nos cavaletes de vidro criados pela arquiteta Lina Bo Bardi para a Pinacoteca original do museu, de 1968, a instituição marcará um ano de atuação de seu novo diretor artístico, Adriano Pedrosa. Até agora, 110 pinturas foram selecionadas para a exposição, orçada em R$ 2 milhões. “É mais um momento de volta para a história”, afirma Pedrosa, referindo-se ao fato de ter tomado como partido de trabalho “descobrir e redescobrir” o Masp, inaugurado em 1947, por meio da pesquisa de suas 10.695 peças, seu arquivo de 200 mil itens e de sua arquitetura. “São muitas histórias. Profundas, longas, complexas, contraditórias”, define, completando que muitas delas seriam “incontestes”.

Em setembro de 2014, o empresário Heitor Martins foi eleito presidente do Masp para promover uma reestruturação total da instituição. “Captamos no ano passado algo como R$ 30 milhões e com isso pagamos boa parte da dívida e iniciamos as ações no museu”, diz o empresário. Entretanto, a maior pendência monetária do Masp está relacionada ao edifício ao lado do museu, na Avenida Paulista, comprado pela empresa Vivo para tornar-se anexo do museu.

“Estamos falando em valores corrigidos de uma dívida de algo como R$ 23 milhões. Os recursos foram aportados com a expectativa de entrega do prédio com a torre com a marca da Vivo e essas coisas não aconteceram. Precisamos equacionar”, explica Martins. Segundo ele, também será necessário captar “talvez mais R$ 30 milhões” para terminar as obras do “Masp Vivo” – e não há previsão ainda de o caso ser resolvido.

Uma medida orçamentária foi o reajuste, em janeiro, do valor do ingresso para R$ 25 (às terças-feiras e às quintas, das 17h às 20h, a entrada é gratuita). “Tem sido uma fonte importante de receita, devemos arrecadar cerca de 15% do orçamento pela bilheteria”, diz o presidente, comparando o valor ao “preço médio do cinema na cidade”. A Pinacoteca, porém, cobra R$ 6.

Outra questão é o setor educativo do Masp, ainda sem um coordenador desde que Paulo Portella Filho desligou-se da instituição. “Queremos realizar um seminário para debater o papel do educativo do museu para desenhar uma política de médio prazo que seja coerente e que agregue valor à sociedade”, conclui o presidente.

Críticas. “Heitor chegou com um discurso conciliatório, mas, de repente, caiu na curadoria um diretor arrogante, narcisista, inculto e siderado por propostas vazias: além de inventar a ‘Lina Light’ (só de fachada e cavaletes), ele intenta transformar o Masp em fait divers”, afirma Denis Molino, que pediu demissão da instituição em dezembro. “É sabido que os últimos anos do museu foram difíceis: funcionários destratados, salários depreciados. Muitos resistiram, utópicos; poucos resistem. Porém de que serviu a travessia do deserto julio-nevista se não para continuar num pior?”, completa o historiador, que foi, por seis anos, curador-assistente do ex-curador do Masp, Teixeira Coelho.

“Tenho um interesse genuíno pelas expografias permeáveis, suspensas e amplas de Lina e o papel que podem desempenhar numa percepção mais plural e fluida da arte. Não é uma questão de marketing”, afirma o diretor artístico Adriano Pedrosa. Reconhecendo não ser um historiador de arte, Pedrosa diz que sua aproximação com o acervo do museu tem sido um processo de pesquisa. “As exposições estão permitindo fazer isso.” Sua estratégia foi convidar curadores-adjuntos para sua equipe (atualmente, a instituição procura um estrangeiro para cuidar de arte europeia). O diretor artístico também destaca o abrir das janelas do Masp para os espaços exteriores do prédio como um procedimento de “transparência” e “abertura”.

Por sua vez, o público que chega agora ao Masp (e muitas vezes nem sabe de sua nova fase) encontra duas exposições concebidas pela nova equipe curatorial do museu – Arte do Brasil até 1900, com curadoria de Tomás Toledo, e Arte do Brasil no Século 20, organizada por Pedrosa, Luiza Proença e Fernando Oliva. A primeira, no segundo subsolo, resgata outra expografia de Lina Bo Bardi (1914-1992) para o acervo da instituição, os painéis criados para o então Instituto de Arte Contemporânea na Faap, de 1957 a 59. A segunda mostra, no primeiro andar, reconstrói a apresentação desenhada pela arquiteta para a primeira sede do Masp, na Rua 7 de abril.

“O museu é clean, limpo, e assim você pode prestar atenção nas obras”, diz a engenheira carioca Cecilia Carvalho, de 24 anos, que visitava o museu pela primeira vez, na semana passada. “Me chamou a atenção o Masp fazer exposições de artistas nacionais, não só de estrangeiros”, opinou o agricultor mineiro Mario Cesar Oliveira, de 54 anos. Para 2015, ainda, estão programadas outras mostras do acervo: Histórias da Loucura: Desenhos do Juquery; Arte da Itália, Arte da França, León Ferrari, Coleção Rhodia e Foto Cine Clube Bandeirante.

Lina Bo Bardi é tema de festa - O museu realizará em 11 de junho evento beneficente com jantar, festa com DJs (há convites disponíveis) e pocket show de Gilberto Gil para arrecadar R$ 1 milhão. “Nossa ideia é gerar oportunidade para as pessoas participarem do Masp”, diz a diretora Flavia Velloso. Na cenografia, móveis criados por Lina Bo Bardi.

Embaixador revê comodato de sua coleção asiática

Atualizada às 15h10

Fausto Godoy explica que atual diretoria propôs que ele não fosse mais curador do acervo

Outro problema surgido na nova fase do Masp está relacionado ao contrato de comodato da coleção de arte asiática do embaixador Fausto Godoy, assinado em 2011. “A nova diretoria me propôs coisas que não posso aceitar”, diz o colecionador, que revê seu acordo com a instituição.

O acervo compreende cerca de 2,5 mil peças datadas de 3.500 a.C até a atualidade, colecionadas pelo diplomata desde que assumiu a embaixada do Brasil na Índia, em 1984 – Godoy viveu em 11 países da Ásia. “Na realidade, não doei 2.500 obras, mas também 1.800 livros, CDs, DVDs. Minha coleção é um arco etnológico, um conceito”, afirma. Como conta o embaixador, os itens foram transferidos de sua casa em Brasília para o museu em 2013.

“O comodato previa a conclusão do prédio anexo em tempo curto e a criação de um espaço permanente para a coleção. Estamos discutindo com o embaixador sobre as obrigações do museu”, afirma Heitor Martins. Entretanto, o diplomata, que “tinha uma sala no Masp”, cita outras graves questões.

“Vieram (a nova diretoria) com uma conversa de que queriam apenas algumas peças da coleção, que algumas coisas eram de mau gosto”, diz Godoy. “E não queriam que eu fosse mais o curador (como previsto pelo contrato), mas um adviser da coleção”. A nova diretoria do Masp, ainda, não renovou o contrato de prestação de serviços com a pesquisadora Cibele Aldrovandi, que auxiliava o embaixador na catalogação do acervo.

A preocupação do diplomata quanto à preservação das peças também foi mencionada. Segundo Heitor Martins, foi construída no final de 2014 uma reserva técnica dedicada à coleção. 

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