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Mostra tem 100 artistas nas ruínas de um prédio erguido por Matarazzo

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 03h 00

'Made by...Feito por Brasileiros' será aberta em 9 de setembro

Nascido em Washington há 45 anos, o empresário de origem francesa Alexandre Allard criou um império ligado às tecnologias de comunicação e marketing, fundando há 19 anos o Consodata, maior banco de dados comportamental do mundo.

Há 14 anos, Allard, já milionário, decidiu se dedicar às suas duas grandes paixões: arte e arquitetura. Seu grupo investiu pesado para salvar a revista L'Architeture d'Aujourd’hui e dar uma nova destinação para o hotel Royal Monceau, sinônimo do luxo parisiense. Atualmente empenhado em restaurar o antigo Hospital Matarazzo perto da Avenida Paulista, que vai se transformar num misto de centro de criatividade, hotel de luxo (assinado por Jean Nouvel) e complexo de lazer, Allard resolveu abrir para o público os prédios abandonados (desde 1993) que seu grupo comprou - e deve entregar renovados à cidade em 2018. Ele empenhou mais de R$ 1 milhão na montagem de uma exposição temporária, Made by...Feito por Brasileiros, que será aberta na sexta para 800 convidados (e a partir do dia 9 para o público).

É apenas a milésima parte do valor que o grupo Allard vai investir na recuperação dos 35 mil m² de área construída no quadrilátero formado entre a Alameda Rio Claro e as ruas São Carlos do Pinhal, Itapeva e Pamplona: R$ 1,2 bilhão, segundo os cálculos do animado Alexandre. Fascinado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, lançado em 1928, o empresário faz o caminho inverso proposto pelo escritor, que, baseado nas ideias dos surrealistas franceses, propôs a deglutição do legado cultural europeu para construir uma arte brasileira canibal. "Não há evolução sem confronto", sentencia Allard, propondo um 'takeover' reverso, a apropriação da cultura de raiz afro-ameríndia ao organizar a exposição Made By... Feito por Brasileiros.

Simbólico. Barco de Nuno Ramos (a obra "Dádiva")

A mostra, ambiciosa, reúne 100 artistas (50 brasileiros e 50 estrangeiros), que vão ocupar todos os prédios da Cidade Matarazzo - nome do complexo. Ela abriga nomes consagrados, como os brasileiros Tunga e Nuno Ramos e o grafiteiro norte-americano Kenny Scharf, além de artistas emergentes, como Sofia Borges e Nino Cais, além de coletivos como os nativos da tribo warli, da Índia, passando por criadores polêmicos como a portuguesa Joana Vasconcelos, que se viu catapultada à condição de superstar ao apresentar um lustre de cristal com absorventes higiênicos na Bienal de Veneza de 2005 (exposto na mostra Ciclo, em cartaz no CCBB). No Hospital Matarazzo, ela exibe um piano revestido de bordados.

A intenção do trio de curadores responsável pela mostra - os franceses Marc Pottier e Pascal Pique e o canadense Simon Watson - não é, porém, a de causar polêmica. Eles querem integrar esses artistas à comunidade imaginada por Allard como alternativa à uniformização cultural ditada pela globalização. "Estou convencido de que grandes ideias e novos conceitos artísticos, aliados ao respeito pelo passado, podem revitalizar espaços como o do hospital Matarazzo", justifica Allard, que, "fascinado pela imaginação dos brasileiros", fixou residência no País.

A criatividade do Norte, diz ele, está ligada à tecnologia. Abaixo do Equador estão os visionários, os artistas, que, segundo o empresário, são os profetas da nova era, o que o fez apostar na criação de um centro de criatividade na Cidade Matarazzo. “O mundo contemporâneo é dominado pelo virtual, há uma desmaterialização em curso e essa exposição é uma maneira de mudar o paradigma”, analisa. “São Paulo tem de se reinventar”, conclui. Allard argumenta que a França trata seus monumentos históricos com naftalina, o que o fez trocar Paris por São Paulo, instalando aqui seu laboratório arquitetônico e artístico. Já enfrentou quatro diretores do Condephaat para aprovar seu projeto de restauração do Hospital Matarazzo, mas falta pouco para a aprovação, garante.

Entre os projetos dos curadores da mostra, um, em especial, vai servir de plataforma para a divulgação de seu projeto, o Labcidade. Quatro artistas e uma equipe de apoio vão produzir intervenções digitais em um contêiner que funcionará como estúdio de filmagens, coletando depoimentos dos paulistanos sobre o antigo hospital, cujos prédios, hoje ruínas urbanas, Allard promete transformar em ponto de referência turística e artística.

Alguns dos projetos apresentados na exposição têm, por via transversa, uma relação analógica com o sofrimento dos pacientes que passaram pelo hospital. Os autorretratos da americana Francesca Woodman (1958- 1981), que se matou aos 22 anos, são metáforas poderosas do desamparo e da solidão, ao fundir corpos femininos ao ambiente, característica marcante de suas fotos. Alguns dos artistas brasileiros convidados metaforizaram igualmente essa dor, como Lia Chaia, que usou, na intervenção Transfusão, cabos e fios vermelhos que saem dos encanamentos do Matarazzo como sangue das veias. Henrique Oliveira usa uma cama do hospital como base de sua escultura feita de compensado e revestida com gaze. Nino Cais mostra sua visão particular da Anunciação e da maternidade, substituindo o sexo feminino por figos.

Abrindo a mostra domina o hall um trabalho da artista mineira Lygia Clark (1920-1988), Baba Antropofágica (1973), cuja relação íntima com os fluidos corporais a levou a conceber uma festa dionisíaca em que fios de linha fazem o papel de uma baba que une os participantes - como o vinho das festas bacantes. A baba é antropofágica por consumir quem participa desse encontro orgiástico e ser consumida como a saliva que mantém o corpo vivo. O culto a Baco não termina por aí.

O grafiteiro Kenny Scharf decorou sua sala com restos do carnaval paulista, num ato canibal de apropriação da maior festa popular do Brasil. Naturalmente, a instalação mais parece a decoração de um trem fantasma, o que combina com as ruínas dos filmes da Hammer em que se transformou o hospital , a tal ponto que convidaram até Zé do Caixão para compor o ambiente. Inspirada nesse cenário, a artista Dora Longo Bahia revisita em sua obra o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick: nela, dois triciclos estão à disposição de crianças corajosas para rodar nos escuros corredores da Cidade Matarazzo.