Ricardo Miyada
Ricardo Miyada

Mostra reúne em São Paulo obras-primas brasileiras e do Centre Pompidou, de Paris

Exposição 'Alucinações Parciais', no Instituto Tomie Ohtake, traz obras de artistas como Picasso, Miró e Dalí para espaço educativo

Pedro Rocha, Especial para o Estado

06 Abril 2018 | 06h00

“Foi difícil para mim.” O curador do Centre Pompidou, de Paris, Frédéric Paul, ainda se acostuma com a ideia de ver alguns dos seus quadros mais célebres exibidos num espaço não muito usual, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. A partir desta sexta-feira, 6, o público vai poder não só conferir de perto 10 obras da coleção do Pompidou, como ainda 10 obras-primas brasileiras e participar de uma série de atividades dentro do próprio espaço expositivo da mostra Alucinações Parciais.

A ideia partiu do instituto brasileiro, com o objetivo de deixar educação sobre arte no mesmo patamar das obras. Com o espaço de atividades em meio a quadros do Pompidou como Arlequim, de Pablo Picasso, e A Siesta, de Joan Miró, o público vai ter acesso gratuito a cursos de história da arte, debates e até sessões de música – tudo ao lado das obras-primas. “Quando vi o espaço parecia grande, mas assim que as obras chegaram, o lugar encolheu”, brinca o francês. 

“Os trabalhos são muito fortes e requerem espaço, ter essa estrutura no meio é um pouco demais, com certeza, mas é uma necessidade para o Brasil”, explica o ainda receoso Paul. A ideia partiu do Tomie Ohtake, que quis fazer parte das comemorações dos 40 anos do Pompidou, celebrados no ano passado. O centro gostou da ideia e o próprio Frédéric Paul lutou por meses para conseguir liberar o empréstimos de quadros – alguns raramente deixam as paredes da sede, em Paris. O empenho em trazer as obras é para aproximar os brasileiros de grandes cânones e foi um papo com a artista brasileira Beatriz Milhazes que o incentivou. “Ela me disse que só viu seu primeiro Matisse já com mais de 20 anos. Portanto, entendo que é especial construir uma relação mais próxima com as obras.”

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São apenas 10 quadros do Pompidou, todos, porém, importantes. Ponte Saint-Michel, de Matisse, é anterior ao seu período fauvista; Natureza-Morta com Violino, de Georges Braque, representa o cubismo analítico; Quadro com Mancha Vermelha, de Vassily Kandinsky, é do início da sua abstração. “Não são apenas obras de artistas importantes, mas sim obras com densidade para entender o trabalho desses artistas”, explica o curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada. Pelo número restrito de obras, mais duas parcerias com o Pompidou no mesmo formato são planejadas – uma com foco no pós-guerra e outra em arte contemporânea. Além de um Salvador Dalí que dá título à exposição, quadros de Paul Klee, Man Ray e Robert Delaunay também são exibidos. 

Adeus, Nova York é talvez a principal conexão com as obras brasileiras. Fernand Léger foi mestre de Tarsila do Amaral, lembrada com o quadro A Feira II. Entre os brasileiros, há ainda obras-primas de Anita Malfatti, Cândido Portinari, Cícero Dias, Maria Martins, Vicente do Rego Monteiro, Flávio de Carvalho, Alberto da Veiga Guignard, Lasar Segall e Ismael Nery. “Confesso que não conhecia o trabalho de Nery, foi uma descoberta para mim”, afirma Paul. “Ensinamento também para mim.”

Miyada explica que a conexão do Brasil com cânones mundiais foi fundamental para a construção do modernismo no País. “A própria geração dos artistas modernos brasileiros é muito exemplar de como é importante você ter contato com o cânone.” O contato com os artistas, para além das obras, é complementado na exposição por uma série de documentos. Os do Pompidou vieram da biblioteca Kandinsky, do museu, e trazem publicações, fotos e cartas. “É importante trazer aspectos da figura humana”, explica Paul. “Ver Matisse ou Miró em carta é uma oportunidade de entrar em seus trabalhos também.” 

Educativo. Ao todo, o Tomie Ohtake vai realizar 150 atividades em 65 dias de exposição. “A programação é diversa, para bebês, jovens, idosos, pessoas com deficiência, conhecedores ou do mundo da arte”, diz Felipe Arruda, responsável de Cultura e Participação do instituto. “Criamos uma programação que estabelecesse a relação entre público e obras. Menos quantidade, mas mais profundidade.” 

A ideia é contrapor as grandes exposições que o próprio Tomie Ohtake faz, e que fez seu público subir de 400 mil para algo próximo de um milhão de visitantes por ano. A programação é gratuita e pode ser acessada no site da instituição.

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