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Masp volta a usar os cavaletes de Lina Bo Bardi em sua pinacoteca

Removidos do espaço em 1996, eles voltam com algumas adaptações, como calços em neoprene para amortecer vibrações

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2015 | 04h00

Como anunciou em 2014, ao assumir o cargo, o diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Adriano Pedrosa, cumpriu a promessa de trazer de volta os cavaletes de vidro (agora de cristal) criados pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) para a atual sede do museu, inaugurada em 1968. Em versão que mantém o desenho original com ligeira modificação no sistema de fixação das obras ao vidro, desenvolvido pelo escritório Metro Arquitetos Associados, o cavalete – um cubo em concreto com cunha de madeira e calços de neoprene para nivelar as peças e amortecer vibrações – volta a ser usado a partir do dia 11, na pinacoteca do Masp, que ocupa o segundo andar do museu.

Em quatro tamanhos, conforme os desenhos de Lina Bo Bardi (um deles nunca construído), os vidros possuem furos em alturas padronizadas. Por meio de barras metálicas, é possível ajustar as obras aos cavaletes, uma diferença do original, em que cada obra tinha seu respectivo vidro com furação própria. Na mostra inaugural, 119 obras serão expostas ao público na pinacoteca do museu, de pinturas de Mantegna a obras de contemporâneos como Marcelo Cidade, passando por óleos de Velázquez, Rembrandt, Ingres, Delacroix, Cézanne, Renoir, Manet, Matisse, Volpi e Portinari, entre outros.

Concomitantemente à exposição, o Masp lança o catálogo bilíngue Concreto e Cristal: o Acervo do Masp nos Cavaletes de Lina Bo Bardi, organizado pelos curadores Adriano Pedrosa e Luiza Proença (Editora Cobogó, 305 páginas, R$ 150). Por coincidência, a Editora da Cidade lança, sem vínculo com o museu, o primeiro estudo feito por um especialista estrangeiro em arquitetura sobre a instituição,  Masp – Estrutura, Proporção e Forma (148 páginas, R$ 90), tese de mestrado da professora equatoriana Alexandra Silva Cárdenas.

De Cuenca, a autora falou ao Estado sobre o livro, afirmando que jamais testemunhou um modo tão radical de expor obras de arte como o dos cavaletes de Lina. “Ela rompeu com todos os parâmetros conservadores, revolucionando o design de exposições com uma ideia simples, inovadora.”

O curador Adriano Pedrosa, ao tomar posse do cargo, destacou as mesmas qualidades do projeto, afirmando que voltar aos cavaletes não é um gesto de marketing, mas o reconhecimento dessa radicalidade, do poder de subversão da hierarquia que têm esses cavaletes, ao colocar lado a lado obras de diferentes períodos e escolas.

O Masp, segundo sua diretoria, tem 92 bases de concreto originais dos cavaletes. Eles são tombados, mas seu uso, ainda de acordo com os diretores do museu, “é apenas recomendável no documento de tombamento, não imposto”. Isso explica a decisão dos ex-curadores de usar a pinacoteca, depois de 1996, subdividindo a área em pequenas salas de exposição.

Duas gerações não viram os cavaletes de Lina Bo Bardi na pinacoteca do Masp. A partir de sexta-feira da próxima semana, dia 11, os mais jovens vão ter a oportunidade de ver as obras-primas do museu não mais em salas com divisórias de quatro metros de altura, como era sua pinacoteca até recentemente, mas na forma como foi originalmente concebido o espaço. Com a interferência das divisórias, segundo a professora de arquitetura equatoriana Alexandra Silva Cárdenas, autora do livro Masp: Estrutura, Proporção, Forma, “ficou amesquinhada a intenção original do museu quanto à concepção de um grandioso espaço, que era lido com um todo, e foi reduzido a uma simples galeria como qualquer outra, de qualquer lugar do mundo”.

Por sua transparência, os cavaletes, argumenta a professora, rompem com a hierarquia sugerida pelas exposições dos museus mais conservadores. “A impressão que o visitante tem é de se integrar de forma plena à obra e, ao mesmo tempo, participar ativamente da organização da mostra, à medida que ele mesmo se encarrega de estabelecer um diálogo entre as peças, subvertendo o tempo linear para criar conexões entre artistas e culturas distintas”.

A especialista do Equador, que se apaixonou pelo Masp, estudando sua história e arquitetura, investigou, inclusive, sua estrutura interna por meio de computação em 3D, estudo pioneiro que faz uso de um modelo eletrônico para explicar aos estudantes de arquitetura como funciona o sistema de protensão criado pelo engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz. O “sistema Ferraz” permite a ancoragem dos cabos lançados no interior das vigas que sustentam aquele que já foi o maior vão livre da América Latina.

O Masp, além de reativar o uso dos cavaletes, também promove a recuperação de sua fachada, começando pela repintura das colunas vermelhas, que nem sempre foram dessa cor. A própria arquiteta Lina Bo Bardi aprovou a mudança em 1989, segundo o arquiteto Marcelo Ferraz, que foi seu assistente. Ele conta que a cor vermelha havia sido pensada desde o início do projeto, “mas, em 1968, não havia clima para usá-la por causa do regime ditatorial” (que poderia associar a cor a um manifesto ideológico).

Removidas as paredes cenográficas da pinacoteca, ela volta a ser um salão único de 2.100 metros quadrados. As persianas foram mantidas e, segundo a diretoria, vão permanecer fechadas para controlar a luz e proteger as obras. O museu ainda avalia a possibilidade de abrir as persianas à noite, embora o manejo (em razão dos 5,3 metros de altura) dificulte o processo. O piso original de borracha industrial, uma ousadia para a época, continua lá.

“Lina Bo Bardi imaginou essa pinacoteca como um salão que permitiria a quem estivesse fora, a partir de vários pontos próximos, observar seu interior, com exceção das quatro faces dos pilares e interrupções causada pelos elevadores e pelo hall da escadas”, observa a professora Alexandra Silva Cárdenas, para quem “a forma do Masp é princípio e resultado, causa e consequência de sua estrutura”. Ou seja, é sua estrutura o princípio gerador da forma.O Masp tem um acervo de 8 mil obras, das quais a mais antiga é do século 4 a.C. Ele integra o “Clube dos 19”, que congrega os museus com as coleções mais representativas da arte europeia do século 19 (como o Metropolitan de Nova York). Embora esse segmento seja sua espinha dorsal, o museu recebeu ainda a coleção do diplomata Fausto Godoy com 2 mil peças asiáticas, ainda não expostas.

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