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Masp exibe preciosidades do acervo de Sylvio Perlstein

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h 07

A exposição 'A Inusitada' reúne 150 obras experimentais de todas a vanguardas do século 20, que vai de Man Ray e Roy Lichtenstein

Não foi a intenção do diamantier-bijoutier de origem belga Sylvio Perlstein criar uma coleção que resumisse a história da arte do século 20, mas acabou acontecendo. De certo modo, as 150 obras de sua coleção particular exibidas na exposição A Inusitada, no Masp (aberta hoje para convidados e amanhã para o público), sintetizam o pensamento das vanguardas artísticas do século passado, dos dadaístas aos pioneiros da land art, passando pelos novos realistas franceses, os minimalistas, os artistas pop e os expoentes da arte povera – todos, enfim, que lançaram um olhar desconfiado para a arte institucionalizada.

Sylvio Perlstein
Divulgação

Exposição "A Inusitada", no Masp (que abre nesta sexta-feira, 6, para o público) reúne 150 obras experimentais de todas as vanguardas do século 20, que vai de Man Ray e Roy Lichtenstein. Na foto, paródia da tela clássica de da Vinci, "Mona lisa", pelo artista Marcel Duchanp, feita em 1919, uma das primeiras obras dadaístas.

Pela primeira vez, essas obras, que representam apenas um décimo do acervo de sua mansão em Garches, próximo a Paris, são mostradas no Brasil, país onde Perlstein passou a juventude. Ele partiu para a Bélgica nos anos 1960, mas volta sempre para visitar o lugar onde cresceu e aprendeu a profissão – com o pai e o avô, que lapidavam diamantes. 

Perlstein não se lembra qual foi a primeira obra que comprou, mas guarda na memória sua luta para incorporar obras-primas à coleção (como duas telas de Albers) e o convívio com o surrealista Man Ray e o minimalista Sol LeWitt.

Concebida especialmente para o Brasil, a mostra A Inusitada Coleção de Sylvio Perlstein esteve no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro até o dia 25, atraindo mais de 200 mil visitantes. Justificável. As 150 obras da exposição foram garimpadas pelos curadores Teixeira Coelho, do Masp, Luiz Camilo Osório, do MAM carioca, e o produtor Leonel Katz como peças preciosas numa coleção com mais de mil obras antológicas. E são preciosas não só porque algumas foram trocadas por diamantes com Man Ray, por exemplo. O pioneiro surrealista está representado na mostra por 14 trabalhos, entre eles os 63 cabides da instalação Obstruction e fotografias históricas que aparecem com frequência nos livros de história da arte, como Violon d'Ingres (1924), de Man Ray, a imagem de uma mulher com as costas nuas pintadas como um violino. 

Man Ray é uma das estrelas da coleção Perlstein, organizada longe dos critérios que norteiam outros acervos particulares. Primeiro, muitas das obras foram adquiridas pelo colecionador dos próprios artistas, sem a intermediação de um marchand ou galerista. Vale dizer: Perlstein foi guiado pela intuição e teve a sorte de encontrar alguns deles por acaso. Seu conterrâneo René Magritte, um dos grandes nomes do surrealismo, foi reconhecido dentro de um elevador. Sol LeWitt ficou amigo do colecionador nos anos 1960, quando o minimalismo era visto com reservas. O grafiteiro Keith Haring ainda não era um nome reconhecido pelo mercado de arte quando Perlstein comprou seu Mickey Mouse (1981) com focinho em forma de vagina.

São 70 os artistas representados na mostra, das mais variadas escolas e tendências. Embora na mansão francesa de Perlstein as obras estejam espalhadas pelas paredes, e não agrupadas segundo princípios museológicos, no Masp elas foram divididas em seis salas: dadaísmo/surrealismo; fotografia vintage; pintura americana e minimalismo; arte pop e novo realismo; arte conceitual/land art e arte povera; contemporâneos.

Na primeira sala destacam-se as obras de Man Ray e Marcel Duchamp com sua icônica releitura da Mona Lisa de Da Vinci. Perlstein tem as duas versões da paródia feita por Duchamp: a de 1919, da Gioconda com bigode, e outra com a barba raspada (de 1965). Há na mesma sala uma collage do principal teórico e mentor do surrealismo, André Breton, que também assina outra obra - conjunta - com Yves Tangy e Jacqueline Lamba (Cadavre Exquis, 1938). Dalí, Max Ernst e Magritte fazem companhia à turma fora do eixo que seduziu o olhar do colecionador. Ele definiu como 'esquisita' a sua coleção, por falta de palavra melhor, segundo o produtor Leonel Katz. E, de fato, são obras insólitas que compõem o acervo, entre elas uma lista telefônica e uma máquina de escrever embrulhadas pelo artista búlgaro Christo no começo de carreira (anos 1960).

O acervo de Perlstein reflete, enfim, seu gosto pela ironia e o inaudito. Ele já afirmou desconhecer o significado da arte, comprando apenas objetos bizarros que o perturbam, sejam as telas rasgadas do argentino Lucio Fontana, os excessivos objetos do novo realista Arman ou uma instalação como Rio Fundo (2004), do brasileiro Marepe, construída com três câmaras de ar, uma mesa, copos e três garrafas de bebida. Nesse segmento estão outros contemporâneos ativos dos anos 1980 em diante, como Basquiat, Nan Goldin, Andy Warhol, Mapplethorpe, Barbara Kruger e Tunga.

Teixeira Coelho define esse trânsito pela história da arte como livre de compromissos com escolas ou rótulos. "Em sua coleção, surrealistas não estão separados dos artistas conceituais ou dos minimalistas", observa. O produtor Leonel Katz conclui que Perlstein foi "na contramão do mercado" ao fazer escolhas só legitimadas anos depois da aquisição de obras hoje consideradas referenciais, como as de Ad Reinhardt, Brice Marden ou Agnes Martin, todas produzidas nos anos 1960, quando esses nomes ainda não eram tão conhecidos.

Pode-se argumentar que a coleção é eclética, conduzida pelo humor do dono, mas é impossível não reconhecer que esse conjunto é marcado pelo experimentalismo. Do pioneiro abstracionista russo Kandinski ao norte-americano Bruce Nauman, todos eles se arriscaram ao extremo - inclusive suas reputações - para andar na contracorrente. Hoje, claro, todos apreciam as distorções do corpo pelo fotógrafo húngaro André Kertész (1894-1985), mas, em 1933, quando a Europa ficou intolerante e racista, elas eram vistas como arte degenerada.

"Perlstein foi um dos primeiros a incorporar obras em néon e vídeos em sua coleção, como os de Bruce Nauman", lembra Leonel Katz. "Ele se deixou infectar pela arte, num jogo que não é o da compra anônima pelo telefone num leilão, mas o de uma relação afetiva com os artistas com os quais conviveu e convive", conclui Teixeira Coelho.

A INUSITADA COLEÇÃO DE SYLVIO PERLSTEIN

Masp. Av. Paulista, 1.578, 3251-5644.

3ª a dom., 10 h/ 18 h (5ª, 10 h/ 20 h).

R$ 15 (3ª grátis). Até 10/8.

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