Livro reúne as cartas de Machado

Endereçada ao filho de José de Alencar, correspondência revela suas angústias

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

25 Março 2009 | 00h00

Machado de Assis costumava dizer que, de sua correspondência a amigos e estranhos, não poderia surgir algo interessante, salvo recordações pessoais. De fato, em parte, suas cartas são recheadas de mensagens, mas basta um olhar mais arguto para se descobrir pequenos tesouros. É o que escondem as 22 cartas contidas no livro Empréstimo de Ouro, bem cuidado lançamento da Editora Ouro Sobre Azul (128 páginas, R$ 75). Organizada por Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira, o livro será lançado hoje no Rio de Janeiro e traz a correspondência trocada entre o autor de Dom Casmurro e Mário de Alencar, filho do escritor José de Alencar, seu amigo fraterno. Dois homens vivendo momentos distintos - um escritor consagrado aos 63 anos e um jovem de 30, ainda no início do caminho. A primeira carta traz a data de novembro de 1902 e a última, agosto de 1908, um mês antes da morte de Machado. Nesse período, entre reclamações de dores e solidão, o escritor faz, entre outros assuntos, comentários sobre sua derradeira obra, Memorial de Aires. Um tom prenhe de melancolia está presente nas cartas de Machado e, de alguma forma, espelha sua última criação literária. "Nele vemos a sombra do Conselheiro Aires, protagonista do romance que concluía", observam os organizadores no prefácio do livro. "É um Machado nostálgico, triste, irônico, discreto e exaurido." Recolhido ao Cosme Velho e com a mesma idade do Conselheiro, Machado faz um balanço da vida e, diante do fim inevitável, filosofa: "Papel não comporta tédios", escreve em 23 de fevereiro de 1908. Desde a morte da mulher Carolina, em 1904, o autor vivia sob forçada reclusão, ainda que tentasse manter as aparências para os amigos. "É este Machado, contaminado pelo espírito do personagem Aires, ou melhor, fazendo de Aires uma espécie de projeção de seu momento de vida, que dá o tom a essas cartas", escrevem os organizadores. "A própria forma, escolhida por Machado para a confecção de seu último livro - um memorial, que equivale a um diário -, aproxima-se, por várias razões, do gênero epistolar, incluindo-se a datação explícita dos episódios narrados e o tom intimista que tanto um diário quanto uma carta comportam." Machado, de fato, não consegue esconder seu estado de espírito, ainda que tente. "Estes meus últimos dias têm sido de enfado e naturalmente não é assunto que procure o papel", escreveu em 18 de março de 1907. "Eu, que tenho mais direito a enfermidades, não lhe digo senão que as vou espiando com olhos cansados", acrescentou em 11 de abril do mesmo ano. A rabugice e a melancolia, no entanto, não dominam totalmente as missivas - Machado encontra momentos de força, especialmente para animar a carreira de Mário de Alencar. O velho escritor dedicava um carinho especial pelo filho do grande amigo, referência intelectual na trajetória dos autores de sua geração. Apesar da diferença de idade, os dois se tratam com camaradagem, permitindo momentos de desabafo e confiança recíproca. Naquele momento em que ambos trocavam correspondência, Mário de Alencar trabalhava sobre o mito de Prometeu, que talvez inspirasse uma possível publicação. Presente em diversas cartas, esse personagem se torna emblemático - Coutinho e Teresa Cristina observam que Prometeu se transforma em um símbolo de audácia, heroísmo e suplício, qualidades observadas em um criador. Como bom conselheiro, Machado incentiva o jovem amigo a enfrentar as adversidades para concluir seu projeto literário: "Veja se exclui todo o presente, passado e futuro, e fixe um só tempo que compreenda os três: Prometeu." O ânimo de Machado também se exalta quando o assunto envereda por uma de suas grandes criações: a Academia Brasileira de Letras, fundada por ele em 1897 e seu presidente desde então. Já na primeira carta, Machado pede a intercessão do amigo para a alocação da sede da instituição. Em outras, o escritor sempre faz uma referência, ainda que mínima, à instituição que o tem hoje como patrono: são menções aos novos eleitos e comentários sobre os possíveis candidatos, o que permite uma relação de nomes conhecidos ser citada, como Euclides da Cunha, José Veríssimo, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e Miguel Couto. A aceitação da instituição, aliás, é uma preocupação constante de Machado que, na carta de 26 de dezembro de 1906, escreve com indisfarçável alívio: "A Academia pegou, como dizem alguns, e parece que sim." Apesar de a escassa correspondência de Machado de Assis não se constituir numa obra (como bem o é a de Mario de Andrade, por exemplo), aspectos preciosos de sua personalidade são ressaltados nessas cartas. Autor de uma Nota Inicial, o estudioso Antonio Candido observa que chamam a atenção nessas cartas "a solicitude e o carinho com que o escritor muitas vezes ácido e desencantado revela tanto afeto por um correspondente cuja fragilidade psicológica percebemos". Viúvo, solitário e ciente da proximidade da morte, o Bruxo do Cosme Velho parecia concentrar sua vida afetiva na ABL e em alguns companheiros, bem representados por Mário de Alencar.

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