''''Kafka ensinou a suportar horror que temos em nós''''

O poeta Armando Freitas Filho, autor de 14 livros, conviveu com Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto. Acabou de escrever o prefácio do primeiro volume da obra de João Cabral que a editora Objetiva vai lançar. Aos 67 anos, procura em um personagem de Machado de Assis um alento para a chegada da velhice. E lê o tempo todo. De tudo. Jornais, revistas e muitos livros. "Eu me sinto como a querida Clarice Lispector, que certa vez disse que era muito ocupada porque tomava conta do mundo. Eu também, em nível menor, tomo conta do mundo." Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras? Eu acho que a literatura boa, você não acaba de ler nunca. É infinita mesmo. Eu leio e releio a obra de Carlos Drummond de Andrade. Comecei a ler em 1955, aos 15 anos, e leio até hoje. São obras que pelo texto rico oferecem uma gama de interesse enorme. Alguns poemas mudam com o tempo, como a gente muda. O poema que funcionou quando eu era muito moço hoje funciona de uma outra forma. É como um leque que vai abrindo suas varetas, de grau em grau. No velório de Drummond entrei de braços dados com Hélio Pellegrino. Um repórter perguntou nossa opinião sobre o poeta. Hélio disse que não se entenderia como ser humano sem os livros de Drummond. Eu disse que a obra dele era maior do que o Brasil. Nós dois tínhamos estado com Drummond 12 dias antes, quando a filha dele tinha morrido. Drummond era tão perfeito que conseguiu morrer quando quis, sem precisar se matar. Nos textos dele, tem sempre uma coisa que você está vivendo. Aquilo te explica e ao mesmo tempo te complica. Muitas vezes consulto os poemas dele, como quem consulta uma bula para a vida. E na prosa, tem algum livro que você releia com mais freqüência? A obra de Machado de Assis. O que é fantástico com os livros de Machado é que você tem a impressão que os personagens estão vivos ali dentro do livro. Quando você vira as páginas, eles começam a viver. Já li, reli e continuo lendo Memorial de Aires, o último livro dele. É um conforto. Quando eu estou aborrecido, angustiado, eu procuro Machado de Assis. Eu me refugio. Nada me tira tanto deste estado do que o livro. É uma coisa tão íntima. Quando você vira a página, é o pensamento que vira. Releio sempre Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, meu ensaísta favorito. Ele está no mesmo nível de Drummond. Eu não fiz faculdade. A obra dele foi a minha faculdade. Leio até hoje como quem lê poesia. Antonio Candido é a poesia. A formação da literatura brasileira é fundamental. Não se passa sem ele. Toda a obra dele está sendo reeditada pela filha, Ana Luiza Escorel. São edições lindas, sóbrias. Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor? O conselheiro Aires, do livro de Machado de Assis. Eu converso com ele, tenho um compromisso com ele. Ele me ensina a aceitar a velhice com uma ponta de humor, que eu, com 67 anos, não tenho. Eu acho que piorou tudo com a idade. Todo espelho é ingrato. Seu corpo conspira contra você. Dói aqui, dói ali. É uma humilhação para mim ter que fazer acupuntura por causa de uma dor no braço. É humilhante na minha idade, ficar deitado, seminu, com uma moça com cara de anjo enfiando agulhas em mim. O conselheiro Aires está resignado com a velhice. Mas é um resignado com a cabeça alta. Quero que ele me ensine isso. Ele já está conseguindo me dar humor. Dê exemplo de um livro bom injustiçado, pelo público ou pela crítica. Claro Enigma, de Drummond, tem grandes poemas, como a Máquina no Mundo. E foi muito criticado porque parecia que Drummond estava retrocedendo para uma poesia clássica, que estava perdendo o tom provocativo, o tom difícil. Ele estava era multifacetando aquela obra dele. Cite um livro que frustrou as suas melhores expectativas. Não lembro. Acho que como eu tenho um conhecimento prévio da obra, eu vou na certa. Não costumo errar. Tem livros que você vai e volta e não consegue ler. Isso já me aconteceu e com uma obra-prima. Foi com A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo. Já tentei duas vezes. Eu estou aqui olhando para ele na minha estante. Pensando bem, acho que vou dar mais uma chance a ele. Tem livro que te ataca e você não segue ir em frente. Nesse caso, eu esmoreci. É quando você está mais fraco do que o livro. Isso já me aconteceu outras vezes. Quando moço, tentei, e não consegui, ler Guimarães Rosa, Mas na segunda vez, tentei e e li todos os livros. E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada. Não sou um grande leitor de literatura em prosa e estrangeira. Mas uma obra que me deixou surpreso e encantado é a do austríaco Thomas Bernhard. Um livro chamado O Náufrago. Fiquei encantado. Li há uns dez anos. Bernhard é um autor encrencadíssimo. Tanto quanto Guimarães Rosa. Um autor encrencado quer dizer difícil de entender? É. A gente entra nos livros de Machado de Assis com a roupa de casa, de pijama. Para ler Guimarães Rosa é preciso se vestir bem, se encourar bem. Graciliano Ramos você entra com a roupa de casa. Aliás, acho que Graciliano e João Cabral de Melo Neto se parecem muito. Eles escreveram apenas o necessário. Parece que os dois, num dia de inspiração insuportável, sentaram e escreveram a obra inteira. Todos os textos têm a mesma qualidade. Clarice também é assim. Você entra nos seus livros como quem está em casa. E mergulha naquele abismo. Que mulher. E com aqueles olhos. Quando jovem, fui à casa dela. Foi logo depois do episódio do incêndio (Na madrugada de 14 de setembro de 1966, Clarice dormiu com um cigarro aceso, provocando um incêndio que destruiu seu quarto. Ela ficou dois meses no hospital.) Ela estava com queimaduras no rosto e na mão. Tinha um olhar penetrante, mas as marcas da queimadura pareciam ter puxado a sua sobrancelha, o que deixou ela com um olhar mais penetrante ainda. O fogo queimou a doçura. A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Pode citar algumas de sua antologia pessoal? O conto Amor, do livro Laços de Família, de Clarice Lispector. Aliás, é um dos livros de contos mais perfeitos em qualquer idioma. Neste conto, uma mulher entra no bonde carregando uma bolsa com ovos. Os ovos se quebram, escorrem. Isso representa um pequeno desastre íntimo que desencadeia as malhas do pensamento. E Clarice divaga a partir daí. É genial. Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador? Aos 18 anos li Kafka pela primeira vez. Comecei por Metamorfose, talvez a maior novela escrita no tempo moderno. Foi um livro fascinante e ao mesmo tempo perturbador. Eu me sentia como que preso. Eu me sentia aquele inseto. Kafka me fez bem e mal. Ele me ensinou a suportar o horror que a gente tem em nós. O horror que nós somos capazes de fazer ou de ser. Eu me sentia um horror. Você considera a literatura policial um gênero menor? É menor, mas interessante. Que me valeu muito. É uma introdução e tanto ao mundo dos livros. Na infância, eu tinha uns primos exemplares. Eles liam Monteiro Lobato, Jules Verne e depois mandavam para eu ler. Eu tinha ódio daqueles livros, porque eram impostos. Eu odeio autoridade. Eu ia escolher os meus livros. Comecei pelos policiais. Li os livros com Arsène Lupin, de Maurice Leblanc, e as histórias de Sherlock Holmes, de Conan Doyle. Eu preferia Arsène Lupin, o ladrão charmoso e galante, um Robin Hood de fraque, que adorava mulher. O Sherlock Holmes ficava lá só tratando mal o amigo Watson. Cite um vício literário que você considera abominável. Eu não considero nenhum vício abominável. Eu considero certas virtudes abomináveis. As pessoas que visam a entender a literatura como uma corrida de cavalos, que fazem sempre questão de enaltecer um poeta só e ser edulcorado como o máximo. Eu sou pelo coletivo em literatura. Antonio Candido ensina isso. A literatura é feita por um conjunto de personalidades. É como ele escreveu: "Comparada a grandes, a nossa literatura é pobre e fraca, mas é ela, e não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem e se não a amarmos ninguém o fará por nós." Isso é tão carinhoso.

Armando Freitas Filho, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

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